“Relato do Curupira – É o mutirão indígena que sustenta, de baixo pra cima, o coração da COP30. Enquanto as delegações negociam vírgulas, eles carregam no corpo décadas de alerta”
Eu, Curupira, guardião dos rastros, observo o mundo desde antes de vocês inventarem calendários, cúpulas, tratados e cronogramas. Já vi rios virarem fumaça, serras se moverem como onças e povos caminharem séculos sem sair do lugar.
Mas há momentos em que o tempo dobra, se encurva, se reencanta. E quando isso acontece, eu sinto: o Mapa virou Atalho.
Agora, na beira da COP30, escuto as vozes de longe. Vejo líderes chegando com pressa, carregando pastas, promessas e pressão internacional. Uns querem salvar o planeta; outros querem salvar apenas seus lucros. Mas eu conheço esse enredo desde a Cúpula da Terra, em 1992, quando dois jovens guerrearam com palavras que doíam mais que flecha: Ailton Krenak e Davi Kopenawa.
Naquele tempo, o mundo quis culpar a Amazônia pelas queimadas que ele mesmo provocava nas chaminés do Norte. Vocês lembram? Eu lembro.
Estava lá, sentado num galho, ouvindo os sábios acusarem a floresta de crimes que ela nunca cometeu.
E lá estavam os dois jovens — Krenak, com seu rosto pintado de urgência; Kopenawa, com seu olhar que vê a alma do céu — dizendo o que ninguém queria ouvir:
“Quem põe fogo no futuro não é a floresta, é o petróleo.”
Enquanto isso, o velho Mestrinho, homem de poucas pausas e muitas certezas, quebrava a narrativa dos poderosos e lembrava:
É o carbono morto que adoece o mundo; o carbono vivo é remédio, não ameaça.
Foi naquela conferência que o mundo quase tirou a Amazônia do mapa — e foi ali que a Amazônia se tornou o próprio Mapa.
O Mutirão de 2025
Agora, em 2025, vejo outro mutirão, não mais apenas de diplomatas e técnicos, mas de guardiões. Eles vieram de longe, dos rios, das serras, das malocas, das aldeias e das cidades onde o tempo corre diferente.
Vieram trabalhar em silêncio, mas o silêncio deles fala alto.
É o mutirão indígena que sustenta, de baixo pra cima, o coração da COP30. Enquanto as delegações negociam vírgulas, eles carregam no corpo décadas de alerta.
E olha que ironia bonita:
Aqueles dois jovens de 1992 — Ailton e Davi — continuam aqui. Mais velhos, mais fortes, mais sábios. Não largaram a luta nem por um segundo. São eles que seguram o fio do tempo para que o mundo não se perca na própria pressa.
O Atalho da Esperança
Agora, com esse tal de Mapa do Caminho, vejo líderes dizendo que, finalmente, vão enfrentar o monstro dos combustíveis fósseis.
Vejo 84 países levantando a mão, dizendo que querem caminhar juntos.
Eu, Curupira, que conheço todos os atalhos da mata, digo: Se o Mapa for verdadeiro, ele vira Atalho.
Atalho para:
• sair da era dos fósseis antes que ela acabe com vocês;
• devolver ao céu sua respiração limpa;
• restaurar a floresta como mestra, não como desculpa;
• reconhecer os povos indígenas como guias, não como ornamento;
• recolocar o Brasil no lugar onde sempre esteve: o da liderança planetária que começou lá atrás, em 1992.
Mas aviso: mapa nenhum salva o mundo se os caminhantes quiserem andar para trás. E eu, Curupira, sei bem como é gente que insiste em desobedecer trilha.
A Benção dos Dois Jovens que Viraram Anciãos
Hoje, Ailton Krenak e Davi Kopenawa não falam mais apenas como jovens revoltados da Cúpula da Terra. Falam como profetas que foram ignorados por 30 anos — e mesmo assim permaneceram de pé.
Eles olham o Mapa e perguntam:
“O mundo finalmente entendeu, ou só está com medo?”
Eu não sei. Mas torço, do meu jeito de guardião inquieto, que o Mapa se torne um Atalho — e que o Atalho vire Caminho.
E se isso acontecer, vou virar os pés de quem tentar sabotar a trilha. Não por maldade, mas porque proteger a floresta é proteger o futuro. E o futuro, meus filhos, está com pressa.
E assim termina – momentaneamente – meu relato
O Mapa está na mesa. O Atalho está aberto. A floresta está olhando.
E eu, Curupira, sigo aqui: com os pés virados para despistar destruidor, com o coração inflamado para proteger quem luta, e com a esperança antiga de que, desta vez, o mundo aprenda o caminho certo olhando para quem sempre soube.

