“Ao revelar como o poder armado devasta a Amazônia, o Brasil não pode sair de Belém ignorando que a maior ameaça à floresta — e às mulheres amazônidas — é justamente o vazio deixado pelo Estado”
Com a COP 30 se encerrando amanhã, o país precisa encarar o que ainda não enfrentou: a violência que destrói vidas e territórios na Amazônia tem nome — crime organizado. E sem uma legislação dura, moderna e inteligente, não haverá proteção para mulheres, nem ambiente seguro para qualquer agenda climática.
Belém, 20 de novembro de 2025. A COP termina amanhã — e o Brasil precisa olhar para dentro
A COP 30 chega ao seu último dia. As negociações avançam, acordos são finalizados, palavras como “transição”, “financiamento” e “neutralidade” se repetem nos discursos. Mas há um tema que, mesmo dentro da Amazônia, passou quase ileso pelos debates: a expansão do crime organizado e sua violência fatal contra mulheres, meninas e adolescentes.
Na reta final da COP 30, a brasilidade exige que o Brasil trate o crime organizado — principal vetor da violência contra mulheres e motor da devastação na Amazônia — com legislação dura, moderna e inteligente. Sem segurança pública, não há sustentabilidade.
É hora de dizer o que precisa ser dito: não é a COP que deve resolver isso — é o Brasil. Com espírito público, coragem institucional e compromisso com a vida.
Amazônia: o crime organizado como máquina de violência
Os dados são incontestáveis:
• A Amazônia Legal registra 141,3 casos de violência sexual por 100 mil menores, 21,4% acima da média nacional.
• Mais de 31 mil crianças e adolescentes foram violentadas entre 2021 e 2023.
• Nas fronteiras, a taxa é ainda pior: 166,5 casos por 100 mil menores.
• No Amazonas, entre 2023 e 2024, os estupros cresceram 42,91%, e os feminicídios 26%.
• Em toda a região, 81% das vítimas são meninas negras, pardas ou indígenas.
• E a presença de facções criminosas aumentou mais de 90% nos municípios amazônicos.
Esses números não apontam apenas para vulnerabilidade — apontam para um ecossistema de violência sustentado, alimentado e expandido pelo crime organizado.
É o crime organizado que:
• controla rotas, rios, garimpos e fronteiras;
• explora meninas e adolescentes como mercadoria;
• substitui o Estado onde ele falha;
• financia o desmatamento ilegal;
• opera economias paralelas que tratam pessoas e florestas como corpos descartáveis.
E é impossível proteger a Amazônia — ou as mulheres da Amazônia — sem enfrentar esse poder territorial armado.
O Brasil precisa fazer o que a COP não pode fazer
A COP 30 tem seu papel histórico, sua importância ambiental e diplomática. Mas a realidade é direta: não haverá resolução climática capaz de enfrentar a violência sexual, o tráfico de pessoas, o feminicídio e a destruição institucional causada pelo crime.
Isso exige outra arena. Exige o Parlamento, o Ministério da Justiça, o Sistema de Segurança Pública, o Judiciário, os governos estaduais. Exige espírito público — e coragem política.
O Brasil precisa de:
• uma legislação dura, moderna e inteligente contra o crime organizado, adaptada às particularidades da Amazônia;
• investigação permanente e integrada entre estados e União;
• cooperação internacional real, não retórica;
• políticas públicas de proteção às mulheres que funcionem em territórios vulneráveis;
• uma rede de acolhimento efetiva, capaz de romper os desertos de proteção;
• controle territorial do Estado, sem o qual nenhuma política ambiental sobreviverá.
Sem isso, a violência continuará devorando vidas — e o crime continuará devorando a floresta.
A COP 30 vai acabar amanhã. A violência, não. É agora que o Brasil precisa decidir.
O Brasil não pode sair de Belém acreditando que a COP 30 basta. O Brasil não pode sair de Belém ignorando que a maior ameaça à Amazônia — e às mulheres da Amazônia — é o poder armado que ocupa o vazio deixado pelo Estado.
A COP termina amanhã. O nosso dever, não.
Agora, é com o Brasil:
• com o Congresso, que precisa legislar com maturidade e firmeza;
• com o Executivo, que precisa enfrentar o crime sem hesitação;
• com os estados amazônicos, que precisam de estrutura e presença permanente;
• com o sistema de justiça, que precisa funcionar onde a vida está mais ameaçada.
Porque nenhuma árvore estará protegida enquanto meninas permanecem expostas. Nenhuma meta de carbono resistirá enquanto facções controlarem rios e florestas. Nenhuma justiça climática será possível onde mulheres vivem sob terror.
A Amazônia precisa de segurança pública, de Estado e de espírito público. E o Brasil precisa agir agora.

