“Porque, no fundo, a rabeta elétrica não é só uma máquina. É uma ideia. É uma esperança. É um prelúdio — o prelúdio do caboco que, finalmente, encontra um motor à altura de sua genialidade”
Cabucada, hoje é dia de reverência. Dia de levantar a borduna da vitória — ou a cuia do caxiri — para três arautos da modernidade amazônica: Marcos Santos, que viveu a profecia na pele; Serafim Corrêa, que anunciou a tecnologia como quem aponta o rumo de um barco; e Natanael Xavier de Albuquerque, o gênio silencioso que moldou, décadas atrás, o primeiro esboço da embarcação que agora renasce elétrica.
Esta é uma prece de exaltação. Um canto de caboclo ao caboclo que sempre esteve pronto. Faltava o motor — não a coragem.
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Os profetas da luz e das águas — Santos, Sarafa e Natanael
Há homens que enxergam o futuro como quem observa o movimento das vazantes. Marcos Santos é um deles: jornalista de alma ribeirinha, filho e neto de pescadores, que carrega consigo a liturgia poética do beiradão. Sua escrita sempre foi uma espécie de clarão nas águas turvas da política amazônica. Em 2019, foi ele quem registrou — no editorial que virou marco — o apelo profético: “Motor elétrico defende Amazônia. Que tal começar pela rabeta e eliminar o pei-pei-pei?”
Aquilo não era utopia: era previsão.
Serafim Corrêa, o Sarafa, entrou em cena como o arauto tecnológico. Sempre foi homem de vanguarda — da energia solar às inovações silenciosas, da ciência aplicada à vida real do povo. Seu anúncio, em 2023, soava quase como conjuração: o futuro elétrico chegaria pelo motor de popa, pela rabeta, pela embarcação humilde que move a Amazônia profunda. Ele sabia: revoluções começam pequenas. Mas começam.
E muito antes disso, quando o mundo ainda dormia, Natan Xavier de Albuquerque já havia sonhado com a modernidade. Ele, pescador compulsivo, empreendedor ousado, enxergou que o remo não podia ser o limite da Amazônia. Desenhou, pediu, insistiu — e mandou construir no Japão a primeira rabeta moderna do mundo. Um pioneiro. Um engenheiro do improvável. Um IB Sabbá dos rios.
Esses três nomes formam um triângulo de luz: profecia, ciência e invenção.
O caboclo — esse sobrevivente genial
O caboclo amazônico não espera decreto, edital, protocolo ou verba. Ele inventa. Ele resolve. Ele amarra o motor com arame, improvisa uma popa onde só existia madeira, navega em “caixotes” que desafiam a física — e chega antes. Sempre.
Ele enfrenta correnteza, fome, distância e silêncio. Mas enfrenta, sobretudo, o barulho. O “pei-pei-pei” da rabeta a gasolina, mais antigo do que a infância da maioria dos que contam a história. Quem já viajou longas horas com esse martelar nos tímpanos conhece a exaustão, o desgaste, a dor.
Há gerações de ribeirinhos que jamais ouviram o som da própria respiração durante uma viagem. E essa tragédia acústica nunca virou objeto de pesquisa acadêmica. Mas bem que poderia — e deveria.
Hoje, esse mesmo caboclo recebe um tesouro: o silêncio. O silêncio da rabeta elétrica é civilizatório. Ele é descanso. Ele é dignidade.
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O futuro que chegou sem buzinar
Na sexta-feira, 14 de novembro, em Pixundé, no Careiro da Várzea, o futuro desembarcou sem estardalhaço. 60 rabetas elétricas distribuídas pela Livoltek e pelo Instituto Somar da Amazônia inauguraram um novo tempo.
Características que mudam vidas:
• Recarrega em tomada comum
• 2 horas para carga completa
• Autonomia: 4h no máximo, 6h moderado
• 11 hp equivalentes aos motores a gasolina
• Ruído zero — zero
• Preço atual: R$ 22 mil, com tendência de queda
• Fabricação migrando da China para Manaus, a partir da escuta com os ribeirinhos
Isso não é só inovação, é reparação histórica.
Enquanto a gasolina evapora, explode, falta, encarece e mata orçamento, a rabeta elétrica se alimenta do que o ribeirinho sempre teve de sobra: engenho, paciência e uma tomada na parede.
A equação é simples: elétrica = autonomia gasolina = dependência
Uma travessia mais longa que a Ditadura
Curioso: a Ditadura Militar durou 21 anos. A travessia entre a rabeta moderna de Natan Xavier e a rabeta elétrica demorou mais de meio século. Quer dizer: a democracia chegou antes ao Brasil do que a modernidade chegou ao caboclo.
É hora de corrigir esse atraso.
E a correção começa com políticas públicas que compreendam o óbvio: subsidiar rabetas elétricas não é gasto — é estratégia civilizatória. É logística, é saúde pública, é tecnologia nacional, é cadeia produtiva, é social, é ambiental.
O prelúdio do caboco — e o que vem depois
A rabeta elétrica é só o começo.
Ela inaugura: uma nova economia no beiradão; uma nova engenharia amazônica; uma política de escuta que devolve a dignidade; uma transição energética de baixo para cima; uma bioeconomia aplicada ao cotidiano
O caboclo, que sempre chegou antes, agora chega melhor.
Ele chega com energia limpa, com segurança, sem ruído, sem gasolina carregada em garrafas PET. Ele chega sem medo de explosão, sem desperdício, sem humilhação. Chega com futuro.
E nós, que apenas escrevemos sobre essa epopeia, assistimos maravilhados.
Porque, no fundo, a rabeta elétrica não é só uma máquina. É uma ideia. É uma esperança. É um prelúdio — o prelúdio do caboco que, finalmente, encontra um motor à altura de sua genialidade.