A dança dos bilhões e o preconceito eleitoreiro contra o Norte e o Nordeste

“O preconceito eleitoreiro contra Norte e Nordeste desinforma e rebaixa milhões de brasileiros, ignorando que essas regiões sustentam a maior dívida social do país e carregam parte decisiva da riqueza nacional.”

À medida que o Brasil se aproxima de mais uma eleição geral, o debate público volta a expor velhos preconceitos regionais. Declarações como a do governador Romeu Zema (MG), ao falar em “ajuda eterna” ao Nordeste, reacendem uma retórica que trata Norte e Nordeste como fardos fiscais, relegando milhões de brasileiros à condição de cidadãos de segunda classe. Essa narrativa, de forte carga eleitoreira, distorce a realidade, ignora a contribuição efetiva dessas regiões para o país e repete, sob outras roupagens, o mesmo discurso que há décadas se aplica à Zona Franca de Manaus: a ideia de que ela seria a origem do “rombo fiscal” brasileiro.

A resposta dos governadores e a disputa por narrativas

Governadores nordestinos reagiram com firmeza às palavras de Zema, classificando-as como uma tentativa de manipular a opinião pública a partir de um estereótipo histórico e falso. Eles lembraram que, longe de serem “dependentes eternos”, os estados do Nordeste carregam no lombo uma carga de desigualdade estrutural que remonta ao pacto federativo mal resolvido desde a fundação da República.

Discurso falacioso

Ao acusar o Norte-Nordeste de viver de subsídios, o discurso ignora que o sistema fiscal brasileiro transfere, há décadas, a maior fatia do bolo arrecadado para sustentar políticas, investimentos e infraestruturas concentradas no Sul e no Sudeste. O preconceito não é apenas político, mas cultural: cristaliza a ideia de que existe um Brasil de primeira classe, desenvolvido, e um Brasil periférico, eternamente devedor.

A “Dança dos Bilhões”: entre credores e devedores

O artigo “A Dança dos Bilhões”, publicado no portal Brasil Amazônia Agora, desnuda esse jogo de aparências. O texto mostra como os bilhões que circulam entre estados credores e devedores não são números soltos, mas parte de um sistema que preserva privilégios e amplia desigualdades. O que se vê, de fato, é um ciclo de endividamento e transferência que impede a construção de um desenvolvimento equilibrado entre as regiões.

preconceito eleitoreiro
Foto: Antonio Lima/Secom

O paradoxo das desigualdades regionais

Quando vamos aos números, fica ainda mais evidente quando olhamos para estados robustos do ponto de vista econômico, mas atolados em dívidas. O Rio de Janeiro exibe uma relação dívida/receita de 188,4%, seguido pelo Rio Grande do Sul (185,2%) e Minas Gerais (168,2%). Em 2024, o Tesouro Nacional precisou pagar R$ 4,6 bilhões para o Rio de Janeiro, R$ 3,6 bilhões para Minas Gerais e R$ 1,4 bilhão para o Rio Grande do Sul, evidenciando a magnitude do problema fiscal. Desde 2016, já foram R$ 63,9 bilhões desembolsados pela União para honrar operações de crédito desses estados, com retorno pífio em garantias.

Esse quadro revela a contradição: enquanto regiões como Norte e Nordeste são acusadas de “pesar” nos cofres federais, são justamente os estados mais ricos que consomem fatias bilionárias do caixa da União. O silêncio sobre essa inadimplência estrutural, em contraste com o barulho contra a Zona Franca de Manaus, mostra que não se trata de debate fiscal sério, mas de preconceito histórico e manipulação política.

Zona Franca de Manaus: alvo preferencial do preconceito

Não é coincidência que o mesmo discurso preconceituoso se abata de forma recorrente sobre a Zona Franca de Manaus (ZFM). Criada para integrar a Amazônia ao desenvolvimento nacional, a ZFM se tornou um dos maiores polos industriais do país, responsável por um faturamento superior a R$ 200 bilhões anuais, mais de 500 mil empregos diretos e indiretos e a liderança da arrecadação federal per capita na região Norte.

Ainda assim, o senso comum — alimentado por declarações como a de Zema — insiste em tratá-la como “gargalo fiscal”. Os números desmentem essa caricatura: a renúncia tributária associada à ZFM representa apenas 4% do total federal, enquanto os resultados em arrecadação estadual, empregos e inovação tecnológica superam em muito esse percentual. A questão não é, portanto, de custo, mas de preconceito.

Relogios reproducao
Empregos Zona Franca – (Foto: Reprodução)

O preconceito e a urgência de esclarecimento e de justiça

O que está em jogo é a permanência de um preconceito histórico, que separa o Brasil em um eixo privilegiado, moderno e industrializado, e outro dependente, periférico e desqualificado. Ao contrário dessa imagem, Norte e Nordeste financiam parte importante da economia nacional e são os maiores prejudicados pela má distribuição dos recursos arrecadados.

A narrativa do “subsídio eterno” não passa de uma cortina de fumaça para encobrir a concentração de riquezas em poucas mãos e em poucas regiões. É preciso virar a chave: reconhecer que o desenvolvimento nacional só será justo se houver redistribuição real de recursos e oportunidades, rompendo com a lógica de que uns produzem e outros apenas “consomem” os benefícios.

Preconceito, distorção e má-fé

A fala de Zema não é um ponto isolado, mas o sintoma de uma doença antiga: o preconceito regional. A “dança dos bilhões” mostra que o Brasil convive com um modelo que privilegia alguns e marginaliza outros, transformando desequilíbrios fiscais em arma política.

Reduzir o Norte e o Nordeste à condição de fardo não apenas desinforma, mas rebaixa milhões de brasileiros à condição de cidadãos de segunda classe. A verdade é que essas regiões carregam parte decisiva da riqueza nacional e, ao mesmo tempo, sustentam a maior dívida social do país: a desigualdade abissal na divisão de direitos, recursos e oportunidades.

O desafio é transformar os bilhões recolhidos em políticas de equidade, educação, saúde e inovação. Mais do que números, os bilhões precisam se converter em justiça social. Só assim o Brasil poderá superar o preconceito que, em pleno século XXI, ainda divide o país entre “doadores” e “dependentes”.

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

Artigos Relacionados

Conheça a lenda da vitória-régia, símbolo da flora amazônica

Conheça a lenda da vitória-régia, narrativa amazônica que explica a origem de uma das plantas mais emblemáticas da floresta.

Onde está o carbono da Amazônia?

O carbono tem endereço: onde a Amazônia guarda o...