“A regra que hoje nos amarra é um erro conceitual que distorce a lógica do PPB, que deveria desenvolver a indústria nacional como um todo – Jorge Nascimento”
“Em entrevista concedida ao editor do portal Brasil Amazônia Agora, Alfredo Lopes, Jorge Nascimento, presidente da Eletros, alerta para os riscos de retrocesso em um dos setores mais dinâmicos da Zona Franca de Manaus.”
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BAA — Presidente, a ZFM representa cerca de 30% da riqueza da região Norte, mas o setor de ar-condicionado enfrenta gargalos artificiais criados pelo PPB. Na sua visão, isso é fruto de uma política industrial equivocada ou de preconceito contra a Zona Franca?
JN — A política industrial do setor de ar-condicionado foi redesenhada em 2014 e transformou o Brasil no segundo maior polo produtor do mundo, atrás apenas da China. Porém, em 2020, o PPB foi alterado e acabou favorecendo um monopólio que fabrica compressores sem justificativa técnica ou econômica claras.
Desde 2023, vivemos crises de desabastecimento porque a única fornecedora nacional não tem capacidade de atender à demanda crescente. Quando um polo competitivo em escala global é travado por uma única peça, é evidente que a regra precisa ser revista com ajustes estruturais.
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BAA — O senhor afirma que a obrigatoriedade de compra do compressor da Tecumseh criou uma reserva de mercado. Como isso afeta as empresas?
JN — Somos punidos se não adquirimos a quantidade de compressores exigida, mesmo quando o fornecedor não consegue entregar. Para evitar a penalização de quem investe bilhões e gera milhares de empregos, como ocorre neste caso com os fabricantes de ar-condicionado, o governo federal vem flexibilizando o PPB ano após ano.
É um contrassenso: pune-se quem produz e gera riqueza, enquanto o monopólio falha no fornecimento e segue blindado. Pior ainda, não há qualquer consequência para a fornecedora, mas há sanções severas para quem é obrigado a comprar e não consegue. É uma distorção inaceitável.
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BAA — Enquanto a Novamed produz 1,6 bilhão de comprimidos por mês, a Electrolux fabrica 2 milhões de micro-ondas e ar-condicionados por ano e a Yamaha monta 1.400 motos por dia, o setor de ar-condicionado corre risco de retroceder por causa de um único componente. O que isso revela sobre a política industrial?
JN — Mostra a necessidade urgente de ajustes. O Brasil não pode manter essa grave situação, ainda mais quando o fornecedor único não entrega o mínimo esperado. Ao invés de estimular inovação e competitividade, a regra trava a expansão e ameaça milhares de empregos. Essa distorção não fortalece a indústria nacional — apenas fragiliza um setor estratégico.
O mercado está em franca expansão e não pode ser travado por restrições artificiais. Pedimos que o GT-PPB condicione os benefícios assegurados à Tecumseh a contrapartidas reais — insumos compatíveis com a tecnologia mundial e volume suficiente para atender à demanda.
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BAA — O setor de ar-condicionado cresceu 38% em 2024, muito acima da média do Polo. Como conciliar esse dinamismo com tamanha fragilidade regulatória?
JN — Em 2014, decisões conjuntas dos governos federal e estadual impulsionaram o setor. De poucas milhares de unidades, saltamos para 6 milhões em dez anos. Esse sucesso se explica pela força do mercado — ainda 80% dos lares brasileiros não possuem ar-condicionado — e por um ambiente de negócios favorável.
Para atender a essa oportunidade, as indústrias investiram fortemente em tecnologia e inovação. Mas hoje enfrentamos um gargalo que ameaça essa trajetória. Já apresentamos ao governo federal evidências do desabastecimento e até limitações tecnológicas que podem comprometer a política de eficiência energética no futuro. Não corrigir o PPB de forma estrutural é um risco ao próprio desenvolvimento do país.
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BAA — Qual é a saída?
JN — A SUFRAMA, junto com a Eletros e suas associadas, apresentou ao MDIC uma proposta clara: congelar as obrigações de aquisição de compressores nacionais no patamar de 2024 até 2028. A retomada só deve ocorrer quando houver comprovação de capacidade produtiva da fornecedora ou a entrada de novos players no mercado. Isso garante estabilidade para o único fabricante atual, sem sacrificar quem produz em escala global no Brasil.
O mercado está em franca expansão e não pode ser travado por restrições artificiais. Pedimos que o GT-PPB condicione os benefícios assegurados à Tecumseh a contrapartidas reais — insumos compatíveis com a tecnologia mundial e volume suficiente para atender à demanda. Caso contrário, essa obrigação deve ser revogada. Afinal, a regra que hoje nos amarra é um erro conceitual que distorce a lógica do PPB, que deveria desenvolver a indústria nacional como um todo