Povos indígenas mantém floresta que resguarda rio de 600km no Maranhão

Guardas indígenas: Na véspera do Dia Mundial da Água, o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Pindaré (CBH – Pindaré) reuniu-se em Viana, cidade localizada a 217 quilômetros de São Luís, sem motivos para celebração. O encontro ocorreu sob a sombra de notícias preocupantes: a contaminação das águas do rio por fósforo em níveis superiores ao recomendado pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), que estabelece o limite de 0,1 mg por litro.

Durante a reunião, o professor Walter Luis Muedas Yauri, membro do CBH – Pindaré e docente do Curso de Oceanografia da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), apresentou detalhes alarmantes de seu estudo sobre o desmatamento na Floresta Amazônica no Vale do Pindaré. Seu trabalho, que abrange 30 anos de observação, revelou consequências desastrosas para a região, com a floresta remanescente constituindo menos de 20% do que foi inicialmente observado.

O estudo “Aspectos Qualitativos da Água do Rio Pindaré na Amazônia Maranhense”, publicado em 2023 por pesquisadores da Embrapa e da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), já havia indicado a gravidade da contaminação. Porém, o professor Muedas, em pesquisa de pós-doutorado na Wageningen University da Holanda, ampliou o escopo para incluir o impacto do desmatamento e a pressão fundiária sobre territórios indígenas.

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Cidade de Monção na margem ao fundo. A margem em primeiro plano fica no município de Pindaré-Mirim. Águas do Rio Pindaré durante a estiagem, em setembro de 2023 – Foto: Cássio Bezerra/Acervo ISPN

Utilizando imagens do satélite LandSat-5, da NASA, desde 1984, o estudo aponta que as áreas mais preservadas são as Terras Indígenas. “Temos menos de 20% de floresta nativa. As áreas que mais conservam floresta são as áreas indígenas, que são protegidas com as vidas dos indígenas”, explicou Muedas. Segundo ele, esses territórios são essenciais para a conservação da biodiversidade local, destacando a coincidência das manchas de floresta nas últimas fotografias com as áreas de Terras Indígenas.

O encontro evidenciou a necessidade urgente de medidas protetivas mais robustas para o Rio Pindaré e suas comunidades ribeirinhas, colocando em destaque a responsabilidade coletiva na gestão ambiental e na proteção dos recursos hídricos da região.

Desafios ambientais do Rio Pindaré: desmatamento, contaminação e a luta pela conservação

O encontro, que ocorreu na cidade de Viana, destacou-se pela apresentação de estudos preocupantes, mostrando a realidade sombria enfrentada pelo rio e suas comunidades ribeirinhas.

Taynara Caragiu Guajajara, da Aldeia Januária e representante da Coordenação das Organizações e Articulações dos Povos Indígenas do Maranhão (COAPIMA), compartilhou observações sobre mudanças adversas no Rio Pindaré, incluindo a ausência de certos tipos de peixes. “Essas mudanças são consequência do desmatamento fora das Terras Indígenas e dos empreendimentos que devastam a área,” explicou Guajajara.

A contaminação das águas do rio com fósforo acima dos níveis recomendados pelo Conama foi confirmada por um estudo da Embrapa e UFRA, publicado em 2023. Paralelamente, o professor Walter Luis Muedas Yauri, da UFMA, discutiu os efeitos do desmatamento no Vale do Pindaré, observados em seu estudo de pós-doutorado. As imagens de satélite analisadas desde 1984 revelam que menos de 20% da floresta original permanece, principalmente em Terras Indígenas.

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Ação dos Guardiões da Floresta na Aldeia Januária, Terra Indígena Rio Pindaré, em Bom Jardim, para retirada de redes de pesca ilegal. Com apoio da Funai e da Força Nacional, a ação foi realizada durante o período da piracema, em 11 de março de 2024 – Foto: Cássio Bezerra/Acervo ISPN

O professor Muedas destacou a necessidade de reconectar esses blocos de floresta e propôs a criação de corredores ecológicos para proteger a vegetação restante. Ele também atribuiu o início significativo do desmatamento à construção da Estrada de Ferro Carajás e à subsequente demanda das siderúrgicas por carvão.

A introdução de espécies exóticas como o eucalipto, cultivado para produção de carvão, tem trazido consequências adicionais, incluindo a salinização de mananciais e o assoreamento do rio, resultando em cheias e inundações nas estações chuvosas. Muedas enfatizou a importância da floresta para a sobrevivência do rio, sugerindo esforços intensificados para o reflorestamento.

O encontro também abordou o desmembramento da Bacia do Pindaré da Bacia do Mearim, um processo em andamento que busca reconhecer a independência da Bacia do Pindaré. “Estamos trabalhando com a UEMA e a Assembleia Legislativa para garantir esse reconhecimento,” disse Nonato Moraes, presidente do CBH – Pindaré.

Adicionalmente, Ruthiane Pereira, do Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), relatou o compromisso da organização com a proteção das comunidades indígenas e a conservação ambiental na região. Os esforços incluem programas de sensibilização e capacitação para fortalecer a proteção territorial e ambiental, fundamentais para a manutenção da biodiversidade e saúde do rio.

O encontro ressaltou a importância da participação ativa e contínua de todos os stakeholders, especialmente das comunidades indígenas, na gestão e conservação dos recursos hídricos do Rio Pindaré, essenciais para a sustentabilidade da região e bem-estar das populações locais.

Rio Pindaré: fonte de vida e espiritualidade para o povo Guajajara

Em meio a discussões sobre os impactos ambientais e as medidas de conservação necessárias para o Rio Pindaré, Taynara Caragiu Guajajara, da Aldeia Januária e representante da Coordenação das Organizações e Articulações dos Povos Indígenas do Maranhão (COAPIMA), compartilha uma perspectiva profundamente enraizada na cultura e espiritualidade do Povo Guajajara.

Para os Guajajaras, o Rio Pindaré transcende a mera funcionalidade de um recurso hídrico. É um elemento central de sua história, espiritualidade e sobrevivência. “O Rio Pindaré foi um rio em que se via fartura de peixes e cuja água era de excelente qualidade. Hoje, infelizmente, enfrenta várias ameaças e agressões, como a destruição das matas ciliares, e está literalmente pedindo socorro,” lamenta Guajajara.

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Terra Indígena Caru, entrada da Aldeia Maçaranduba, local onde o Rio Pindaré separa o município de Bom Jardim, na margem ao fundo, do município de Alto Alegre do Pindaré. Registro de março de 2024 durante a cheia do Rio – Foto: Cássio Bezerra/Acervo ISPN

A líder indígena enfatiza que a relação dos povos indígenas com o rio e a floresta é de veneração e respeito profundo. “Venerar o rio e a floresta, dar o devido valor à natureza, é a grande lição que os não indígenas precisam aprender se quiserem construir um futuro sustentável,” afirma.

O Rio Pindaré não só sustenta fisicamente as comunidades indígenas com alimentos e água, mas também fortalece sua identidade e coesão espiritual. “Falar da Terra Indígena Rio Pindaré e da Aldeia Januária é falar do Rio Pindaré. O rio representa nossa história, nossa vida e nos fortalece espiritualmente,” destaca Guajajara.

Este enfoque espiritual e cultural sobre a conservação mostra a importância de integrar os conhecimentos e práticas indígenas nas políticas de gestão ambiental. A voz de Taynara Caragiu Guajajara reforça a urgência de ações efetivas para proteger o rio, garantindo assim a sobrevivência e o bem-estar das futuras gerações do Povo Guajajara e de outras comunidades que dependem de suas águas.

*Com informações O ECO

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

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