Por que a Groenlândia virou alvo dos EUA de Donald Trump?

Degelo e corrida por terras raras coloca a Groenlândia no centro de tensões com os EUA, em meio a debates sobre soberania, riscos ambientais e uso sustentável dos recursos.

O degelo acelerado do Ártico transformou a Groenlândia em um dos pontos mais estratégicos do planeta. Com mais de 2 milhões de km² e apenas 56 mil habitantes, a maior ilha do mundo passou a ser centro da disputa geopolítica por recursos e influência na região ártica. A nova corrida tem o degelo como ativo estratégico e se concentra em minerais críticos e território, fundamentais para indústrias de energia, tecnologia e defesa. Nessa disputa, os Estados Unidos se colocam na linha de frente.

Mapa da Groenlândia indicando sua posição entre a América do Norte, Islândia e Europa, com destaque para a conexão histórica com a Dinamarca.
Embora esteja mais próxima da América do Norte e da Islândia, a Groenlândia foi administrada por séculos por autoridades norueguesas e dinamarquesas, mantendo vínculos políticos com a Europa. Foto: Google Maps.

A Groenlândia abriga depósitos de 43 dos 50 minerais críticos, incluindo terras raras como neodímio, tório e titânio. O degelo revela acessos antes inviáveis e áreas como o depósito de Cavan Feld, no sudoeste da ilha, ganham atenção internacional. Porém, transformar esse potencial em produção é um desafio: há apenas uma mina comercial ativa e o tempo médio para implantar um projeto é de 16 anos, devido à infraestrutura escassa, licenciamento ambiental rigoroso e logística limitada.

Diante disso, os Estados Unidos têm intensificado sua atuação. O país mantém presença militar desde a Segunda Guerra, com a base aérea de Pituffik, e já tentou comprar a ilha em pelo menos três ocasiões. Além de buscar o controle indireto de projetos estratégicos.

Em 2023, autoridades americanas e dinamarquesas pressionaram a venda da mineradora Tanbreeze a uma empresa dos EUA, evitando sua aquisição por grupos ligados à China. A justificativa era garantir cadeias seguras de suprimento e conter o avanço chinês em um setor dominado por poucos.

Pituffik Space Base (antiga Thule Air Base), instalação militar dos EUA no norte da Groenlândia, fotografada em 4 de outubro de 2023.
A base de Pituffik, no norte da Groenlândia, é um ponto estratégico para monitoramento e defesa no Ártico, reforçando o interesse geopolítico dos EUA na região. Foto: Thomas Traasdahl/Ritzau Scanpix/AFP via Getty Images.

Mas há resistência interna na Groenlândia. Após décadas de exploração colonial e ambiental, a população groenlandesa exige maior controle sobre seus recursos. Minas de chumbo e zinco abertas nos anos 1970 deixaram resíduos tóxicos em rios e litorais. Até hoje, estudos apontam contaminação em peixes, moluscos e algas marinhas. O receio é que novos empreendimentos repitam os impactos ambientais sem retorno justo para os moradores locais.

O posicionamento da população se fortaleceu nos últimos meses ante o discurso dos EUA. O presidente Donald Trump voltou a defender que a Groenlândia deveria ficar sob controle dos EUA e afirmou que considera como opção viável o uso de força militar. A retórica se conecta a uma lógica mais ampla da política externa estadunidense: quando recursos e segurança entram em jogo, a soberania de regiões estratégicas passa a ser tratada como variável de disputa.

Esse padrão marcou a relação dos EUA com a Venezuela, que enfrentou sanções e tentativas de isolamento internacional em meio ao interesse estrutural pelas maiores reservas de petróleo do mundo. Em janeiro de 2026, a escalada atingiu um novo patamar com a captura de Nicolás Maduro em uma operação conduzida por forças norte-americanas, defendendo o episódio como parte do combate ao narcotráfico e ao “narcoterrorismo” — uma ação que elevou a tensão regional e reacendeu debates sobre legalidade e soberania.

Agora, no extremo norte, o alvo não é o petróleo, mas minerais críticos e rotas do Ártico. Com o degelo, se amplia o acesso a terras raras e eleva o valor estratégico da Groenlândia como plataforma de defesa e controle territorial.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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