Degelo e corrida por terras raras coloca a Groenlândia no centro de tensões com os EUA, em meio a debates sobre soberania, riscos ambientais e uso sustentável dos recursos.
O degelo acelerado do Ártico transformou a Groenlândia em um dos pontos mais estratégicos do planeta. Com mais de 2 milhões de km² e apenas 56 mil habitantes, a maior ilha do mundo passou a ser centro da disputa geopolítica por recursos e influência na região ártica. A nova corrida tem o degelo como ativo estratégico e se concentra em minerais críticos e território, fundamentais para indústrias de energia, tecnologia e defesa. Nessa disputa, os Estados Unidos se colocam na linha de frente.
A Groenlândia abriga depósitos de 43 dos 50 minerais críticos, incluindo terras raras como neodímio, tório e titânio. O degelo revela acessos antes inviáveis e áreas como o depósito de Cavan Feld, no sudoeste da ilha, ganham atenção internacional. Porém, transformar esse potencial em produção é um desafio: há apenas uma mina comercial ativa e o tempo médio para implantar um projeto é de 16 anos, devido à infraestrutura escassa, licenciamento ambiental rigoroso e logística limitada.
Diante disso, os Estados Unidos têm intensificado sua atuação. O país mantém presença militar desde a Segunda Guerra, com a base aérea de Pituffik, e já tentou comprar a ilha em pelo menos três ocasiões. Além de buscar o controle indireto de projetos estratégicos.
Em 2023, autoridades americanas e dinamarquesas pressionaram a venda da mineradora Tanbreeze a uma empresa dos EUA, evitando sua aquisição por grupos ligados à China. A justificativa era garantir cadeias seguras de suprimento e conter o avanço chinês em um setor dominado por poucos.
Mas há resistência interna na Groenlândia. Após décadas de exploração colonial e ambiental, a população groenlandesa exige maior controle sobre seus recursos. Minas de chumbo e zinco abertas nos anos 1970 deixaram resíduos tóxicos em rios e litorais. Até hoje, estudos apontam contaminação em peixes, moluscos e algas marinhas. O receio é que novos empreendimentos repitam os impactos ambientais sem retorno justo para os moradores locais.
O posicionamento da população se fortaleceu nos últimos meses ante o discurso dos EUA. O presidente Donald Trump voltou a defender que a Groenlândia deveria ficar sob controle dos EUA e afirmou que considera como opção viável o uso de força militar. A retórica se conecta a uma lógica mais ampla da política externa estadunidense: quando recursos e segurança entram em jogo, a soberania de regiões estratégicas passa a ser tratada como variável de disputa.
Esse padrão marcou a relação dos EUA com a Venezuela, que enfrentou sanções e tentativas de isolamento internacional em meio ao interesse estrutural pelas maiores reservas de petróleo do mundo. Em janeiro de 2026, a escalada atingiu um novo patamar com a captura de Nicolás Maduro em uma operação conduzida por forças norte-americanas, defendendo o episódio como parte do combate ao narcotráfico e ao “narcoterrorismo” — uma ação que elevou a tensão regional e reacendeu debates sobre legalidade e soberania.
Agora, no extremo norte, o alvo não é o petróleo, mas minerais críticos e rotas do Ártico. Com o degelo, se amplia o acesso a terras raras e eleva o valor estratégico da Groenlândia como plataforma de defesa e controle territorial.