Planejando e construindo o futuro

“Precisamos passar a rejeitar o que não presta e a dar voz ao que interessa, ao invés de olhar para a “roupa” de quem fala, como se aquilo o autorizasse a transformar asneiras em verdades. Enfrentar os erros e acertos nos fará crescer – queimar os erros não nos perdoará, nem nos fará evoluir.”

Augusto César Barreto Rocha
__________________
________

Frequentemente contrario uma quantidade expressiva de pessoas amigas, colegas e alunos: não acredito que o Brasil tenha qualquer problema com falta de planejamento. Podemos pegar qualquer questão e lá existirá algum plano, por menor que seja. A causa de nossas dificuldades é a falta de compromisso com o que planejamos. Ficamos constantemente nos desligando do passado e isso atrapalha a execução do planejado.

O atributo alt desta imagem está vazio. O nome do arquivo é Augusto-Cesar-945x630.jpeg
Augusto César Barreto Rocha é professor da UFAM.

Como exemplos do passado, por decisão do então ministro Ruy Barbosa, em 1890, foram queimados todos os documentos oficiais relativos à escravidão. Este é um hábito contumaz de nossa cultura: não enfrentar os erros. A Lei de Anistia, de 1979, construiu caminho semelhante. Também nunca enfrentamos os acertos e erros na Amazônia. Temos dificuldade com ambas as questões. Em nossa região, a Zona Franca de Manaus é um grande acerto em vários aspectos. Entretanto, certamente, possui alguns erros. Contudo, não se discute isso. A opção típica é focar cegamente um dos aspectos, queimando o outro.

Se os recursos importam, é imprescindível avaliar os resultados de uma ação, em que houve acerto e onde aconteceram erros. Sem este tipo de discussão ficará praticamente impossível uma evolução. Em um contexto mais pessoal, por exemplo, quando nos contam uma mentira que nos induz à um determinado comportamento, somente será possível revisar o comportamento se a mentira for analisada e as razões pelas quais fomos iludidos forem tratadas.

Segundo jornal The Washington Post, o presidente dos EUA contou mais de 22 mil mentiras ao longo de seu período na política. Será que algum jornal brasileiro está disposto a fazer um “mentirômetro” por aqui? Mais do que exigir uma precisão impossível, seria necessário começar a exigir um compromisso real entre o que se declara e o que se faz, entre o que se planeja e o que se executa, com a admissão de pequenos deslizes. Nossa opção tem sido esconder ou queimar os deslizes pequenos e grandes, sem enfrentar a necessidade de compromisso com o que se planejou.

Para termos uma Amazônia realmente desenvolvida precisamos parar de esconder os defeitos do que foi feito por aqui, desde os equívocos brutais com os índios, até os deslizes em relação ao agronegócio na região. Ao mesmo tempo que a mídia se opõe à alguns políticos toscos, de fato esta mesma mídia os viabiliza, por ficar repetindo, à exaustão, suas falácias, sem rotular falsidades como falsidades, erros como erros, muito menos os eventuais acertos como acertos, muito embora seja necessário deixar claro para quem foi o acerto e com quem ficou o problema, pois sempre haverá contrastes, uma vez que uns ganham e outros perdem, assim como, há os eventos onde todos perdem (como no sistema de ônibus de Manaus, onde há a sociedade e as empresas perdendo – quem estará ganhando?).

A construção de um futuro melhor passará pela superação desta dificuldade de honrar o que foi planejado, criticar o que está errado, apontar o que está certo e discutir claramente e serenamente o que está certo e o que está errado, sem queimar a história ou querer condenar à “forca” ou “pedir indenização” para todo e qualquer erro, como se os erros não fizessem parte da história. Precisamos passar a rejeitar o que não presta e a dar voz ao que interessa, ao invés de olhar para a “roupa” de quem fala, como se aquilo o autorizasse a transformar asneiras em verdades. Enfrentar os erros e acertos nos fará crescer – queimar os erros não nos perdoará, nem nos fará evoluir.

Augusto Rocha
Augusto Rocha
Augusto Cesar Barreto Rocha é professor da UFAM

Artigos Relacionados

Os desafios do Amazonas e hora da comunhão de propósitos

Os desafios do Amazonas são grandes demais para projetos individuais e urgentes demais para disputas menores. A hora pede convergência, responsabilidade e comunhão de propósitos

Super El Niño ganha força no Pacífico e acende alerta climático no Brasil 

Super El Niño pode iniciar entre 2026 e 2027 e ampliar riscos de secas no Norte e Nordeste e chuvas intensas no Sul.

Governo vê risco ambiental em mudanças no Código Florestal e avalia acionar STF

Mudanças no Código Florestal aprovadas pela Câmara acendem alerta sobre riscos à biodiversidade e governo considera levar caso ao STF.

O que sobra da produção de queijo e tofu pode ajudar a combater a crise climática

Pesquisa transforma sobras da indústria alimentícia em esferas biodegradáveis...

Temporal mata 7% dos orangotangos mais raros do mundo em Sumatra

Estudo alerta que os orangotangos mais raros do mundo perderam parte da população após chuvas extremas e deslizamentos na Indonésia.