Pesquisadores do INPE foram surpreendidos com mudanças na divulgação de dados sobre queimadas

A notícia de que o governo federal decidiu excluir o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) da atribuição de divulgar os dados sobre alertas de incêndios e queimadas no país pegou de surpresa os próprios pesquisadores do instituto. “Fomos surpreendidos aqui no INPE pelas notícias na mídia nesta manhã (13/7). Desconhecemos no Programa Queimadas e no INPE quaisquer tratativas no sentido de alterar a atuação do Programa ou a divulgação dos seus inúmeros produtos, e as notícias em questão nos são totalmente estranhas”, disse a ((o))eco Alberto Setzer, pesquisador do INPE e coordenador do Programa Queimadas entre as décadas de 1980 e 2020.

A partir de agora, segundo o Ministério da Agricultura (MAPA), o trabalho de monitoramento e divulgação dos locais com maior probabilidade de incêndios no Brasil será feito pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), vinculado à pasta da Agricultura.

A notícia foi dada pelo diretor do Inmet, Miguel Ivan Lacerda de Oliveira, em live realizada na noite de segunda-feira (12), com a participação da ministra Tereza Cristina. “A gente já fechou hoje, pela manhã, que não haverá mais emissão [de alertas] do INPE ou do Censipam sobre incêndios, que será do Sistema Nacional de Meteorologia todos os relatórios do governo federal”, disse durante a reunião online.

Segundo o diretor do Inmet, a nova estrutura resolveria a “pulverização e dissonância na divulgação de dados” sobre incêndios no país, o que, segundo ele, é um “problema que o país enfrenta há mais de 40 anos e que nunca foi tratado”.

As falas de Miguel Oliveira repercutiram na imprensa na manhã desta terça e o MAPA chegou a enviar uma nota às redações, dizendo que o lançamento do chamado “Painel Risco de Incêndio” do Inmet “possibilitará a adoção de medidas preventivas mais eficazes e econômicas aos incêndios florestais e queimadas”.

A surpresa entre os pesquisadores do INPE foi ainda maior porque, segundo Setzer, na última sexta-feira (9), o governo realizou reunião virtual com os diferentes órgãos que trabalham no monitoramento e controle de incêndios no país e o tema da sobreposição de esforços e conflitos de ações esteve em pauta.

“Pelo contrário, conforme reunião remota do final da manhã em 9/Jul/21, convocada pela subchefia de Articulação e Monitoramento da Casa Civil da Presidência sobre o Planejamento para a Temporada de Incêndios 2021, na qual o INPE participou, trabalhamos no contexto de ‘…mobilizar os órgãos federais… de forma que não haja sobreposição de esforços, conflito de ações e lacunas na atuação dos atores envolvidos’”, disse o pesquisador do Instituto.

Alertas de Queimadas

A emissão de alertas de incêndio e áreas propícias para fogo é um subproduto do Programa Queimadas que o INPE desenvolve há várias décadas, divulgando diariamente dados técnicos que são utilizados nas ações de combate e prevenção de incêndios.

Desde 2019 o governo federal tenta alterar o sistema e a divulgação de informações sobre queimadas e desmatamento no país.

Com as mudanças anunciadas, alguns medidores de focos de fogo em biomas como Amazônia, Pantanal e Cerrado, bem como os cálculos de área queimada, deixam de ser feitos pelo INPE, um órgão estritamente técnico, vinculado ao Ministério de Ciência e Tecnologia, e passam para o Ministério da Agricultura.

Sistema Nacional de Meteorologia publica nota desmentindo imprensa

O Sistema Nacional de Meteorologia (SNM) publicou nota no início da tarde desta terça-feira informando não ser verdadeira a informação de que INPE e Censipam deixarão de mostrar dados de incêndio e queimadas. No entanto, o próprio texto afirma que agora tais informações serão divulgadas de maneira unificada pelo Inmet e não mais de forma autônoma por cada órgão.

Segundo a nota, o produto lançado ontem “é complementar aos produtos já implementados pelas Instituições e serve para melhorar o monitoramento de queimadas”, com o objetivo de “juntar as informações sobre o risco de incêndio e divulgá-las de maneira conjunta e não mais como cada instituição, ou seja, todos os relatórios do Governo Federal serão divulgados em conjunto pelo Sistema Nacional de Meteorologia(SNM)”.

A nota do SNM anuncia que nos próximos dias será enviado à Casa Civil uma “minuta de regulamentação com o planejamento para a temporada de incêndios 2021”, com a informação de que os órgãos que compõem o SNM irão contribuir através de boletim semanal com informações sobre a situação meteorológica, previsões para os próximos dias e monitoramento de queimadas.

A nota do Sistema Nacional de Meteorologia vem com a logomarca das três instituições que compõem o SNM – INPE, INMET e Censipam –, mas não é assinada por ninguém.

Fonte: O Eco

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

Artigos Relacionados

O acordo Mercosul-União Europeia e a nova geografia da competitividade

Em tempos de guerras tarifárias e reorganização das cadeias...

Chuvas no Rio Grande do Sul afetam quase 60 mil pessoas em 218 cidades 

Chuvas no Rio Grande do Sul afetam quase 60 mil pessoas em 218 municípios, deixam 488 desabrigados e mantêm rios sob alerta de inundação.

Enchentes no Rio Grande do Sul revivem riscos de 2024 e expõem fragilidades 

Enchentes no Rio Grande do Sul atingem 169 municípios, deixam mais de 1000 fora de casa e mantêm o alerta para novas chuvas.

Crime organizado na Amazônia ameaça povo indígena na fronteira entre Brasil e Peru

Crime organizado na Amazônia avança sobre terras indígenas, ameaça lideranças ashaninka e pressiona Brasil e Peru a reforçarem a segurança.

Como se preparar para enfrentar os efeitos da estiagem severa é tema do Diálogos Amazônicos

"Fundação Getulio Vargas (FGV) promove, na próxima segunda-feira (27),...