“A pauta da 321ª reunião reúne sinais concretos de adensamento produtivo, diversificação tecnológica e aproximação com cadeias amazônicas. A interiorização, porém, continua dependendo de uma política capaz de ligar os projetos industriais aos fornecedores, à infraestrutura e às capacidades produtivas dos municípios.”
A pauta da 321ª Reunião Ordinária do Conselho de Desenvolvimento do Amazonas oferece uma fotografia interessante do momento industrial do Estado. São 22 projetos de implantação, 21 de diversificação e dois de atualização, além de outros pleitos empresariais. Considerados apenas esses 45 projetos industriais, os investimentos fixos previstos somam aproximadamente R$ 434,6 milhões, com indicação de 1.081 empregos diretos e indiretos adicionais ao longo de três anos.
Os números sugerem uma base industrial em movimento, com novos produtos, fornecedores intermediários, mobilidade elétrica, construção naval, reciclagem, química, alimentos, bebidas e componentes eletrônicos. Também revelam, quando observados mais de perto, que a transformação estrutural ainda se encontra em estágio inicial.
Há sementes importantes de adensamento e diversificação. A interiorização aparece sobretudo como possibilidade. Para transformá-la em resultado econômico, será preciso acrescentar direção estratégica ao mecanismo de aprovação dos incentivos.
O adensamento começa a aparecer
O sinal mais promissor está na presença de projetos voltados à fabricação de bens intermediários. Entre as implantações, aparecem placas de circuito impresso montadas, concentrados para bebidas, filmes plásticos e laminados de ferro e aço. Nas diversificações, a pauta inclui compostos de resina, plástico reciclado, fitas adesivas, dispositivos de cristal líquido, partes de televisores, produtos para galvanoplastia, extratos vegetais, preparações para alimentos e cosméticos e subconjuntos eletrônicos.
Ao todo, 17 dos 43 projetos de implantação e diversificação envolvem bens intermediários, perto de 40% do conjunto. Esse número merece atenção porque o adensamento do Polo Industrial de Manaus depende justamente da fabricação local de materiais, peças, componentes, insumos e serviços que hoje chegam de outras regiões ou do exterior.
O peso financeiro desses projetos, entretanto, ainda é relativamente pequeno. Pelos valores declarados na pauta, os projetos de bens intermediários representam aproximadamente R$ 45,6 milhões em investimento fixo, pouco mais de 10% dos investimentos previstos nas duas categorias.
A diferença entre quantidade e valor ajuda a calibrar a expectativa. Há expansão da base de fornecedores, mas os maiores investimentos continuam concentrados em produtos finais. Somente os dois projetos da TCL Semp, destinados à fabricação de telefones celulares e computadores portáteis do tipo tablet, reúnem cerca de R$ 319,5 milhões, equivalentes a aproximadamente 74% do investimento fixo dos projetos de implantação e diversificação.
Essa concentração não diminui a importância dos projetos. Ela mostra que o adensamento ainda precisa ganhar escala. A presença de um fornecedor local somente altera a estrutura industrial quando sua produção passa a abastecer várias empresas, substitui importações de maneira competitiva e desenvolve engenharia, ferramentaria, manutenção e conhecimento dentro do Amazonas.
Diversificação com diferentes profundidades
A pauta apresenta uma diversificação setorial visível. Ela alcança segmentos como:
- mobilidade elétrica terrestre;
- embarcações, balsas e estruturas flutuantes;
- reciclagem e transformação de plásticos;
- construção civil e produtos metálicos;
- alimentos, bebidas, aromas e extratos vegetais;
- componentes eletrônicos;
- equipamentos de telecomunicações;
- embalagens de papel;
- iluminação em estado sólido;
- química industrial.
Há uma diversificação mais profunda quando o novo produto abre uma cadeia tecnológica, atende necessidades específicas do território ou cria conexões entre diferentes setores. A fabricação de motonetas e triciclos elétricos, por exemplo, pode dialogar com logística urbana, transporte no interior e sistemas locais de energia. A construção de embarcações e estruturas flutuantes responde a uma necessidade permanente da economia amazônica. Plásticos reciclados podem formar uma cadeia regional de coleta, separação, processamento e reaproveitamento de resíduos.
Também se destacam os projetos de concentrados para bebidas e extratos aromáticos vegetais. Eles se aproximam daquilo que o Amazonas procura há décadas: transformar recursos biológicos em ingredientes industriais, acrescentando tecnologia, padronização, segurança sanitária e valor comercial.
A pauta, contudo, não informa a origem territorial dos insumos. Um projeto de extrato vegetal instalado em Manaus pode utilizar matérias-primas amazônicas, nacionais ou importadas. Um concentrado de bebida pode estimular produtores do interior ou funcionar inteiramente com uma cadeia externa. O nome do produto, isoladamente, não assegura integração com a biodiversidade ou com a produção rural amazonense.
A diversificação real precisa ser medida pela origem dos insumos, pelo conteúdo tecnológico, pela substituição de importações, pela capacidade de exportação e pelo surgimento de novos fornecedores. Sem esses indicadores, corre-se o risco de confundir aumento do catálogo de produtos com mudança da estrutura econômica.
A vocação fluvial aparece com força
A construção naval forma um dos núcleos mais coerentes da pauta. Projetos de embarcações de alumínio, balsas, barcos empurradores, terminais portuários e outras estruturas flutuantes reúnem pelo menos 149 empregos diretos e indiretos previstos.
Essa frente possui uma vantagem estratégica. Ela nasce de uma demanda permanente do território. No Amazonas, embarcação é infraestrutura econômica, transporte de pessoas, circulação de alimentos, atendimento de saúde, logística industrial e acesso aos serviços públicos.
Há espaço para formar uma cadeia mais completa, envolvendo alumínio, aço, motores, baterias, sistemas de navegação, painéis elétricos, comunicação por satélite, manutenção e formação profissional. A aproximação entre construção naval e mobilidade elétrica poderia produzir soluções próprias para pequenas embarcações, transporte comunitário e serviços municipais.
Nesse caso, o mercado inicial já existe. O desafio será organizar compras públicas, financiamento, certificação, engenharia naval e testes em condições amazônicas. A produção pode permanecer concentrada em Manaus, mas seus efeitos econômicos e sociais alcançariam diretamente os municípios.
Onde está o interior nessa pauta?
A documentação apresenta produtos, investimentos, produção estimada, mão de obra e composição societária. Ela oferece poucos elementos para verificar onde os fornecedores estarão localizados e quanto da renda gerada chegará aos municípios.
Por essa razão, a pauta permite identificar vetores de interiorização, mas ainda não comprova um movimento de desconcentração produtiva.
Os vetores mais evidentes de interiorização aparecem em quatro frentes. A produção de alimentos, bebidas e extratos pode estimular a compra de frutas, guaraná, plantas aromáticas e outros insumos regionais. A construção naval atende diretamente às necessidades de transporte e logística dos municípios, enquanto a reciclagem de plásticos permite organizar redes locais de coleta e processamento de resíduos. Já os projetos de mobilidade elétrica e telecomunicações podem ampliar as soluções de transporte e conectividade disponíveis nas comunidades e cidades do interior.
A interiorização não exige, necessariamente, que toda fábrica seja transferida para fora de Manaus. A legislação da ZFM é clara a respeito . Ela pode ocorrer quando municípios participam como fornecedores regulares, centros de beneficiamento, bases logísticas, polos de manutenção ou produtores de matérias-primas certificadas.
Uma indústria de ingredientes localizada no Distrito Industrial pode interiorizar renda se mantiver contratos duradouros com cooperativas e produtores de vários municípios. Uma fabricante de embarcações pode gerar núcleos de manutenção em cidades-polo. Uma empresa de reciclagem pode estruturar redes de coleta em Parintins, Itacoatiara, Manacapuru, Tefé ou Tabatinga. O endereço da fábrica conta, mas a geografia de sua cadeia produtiva diz ainda mais.
O que seria necessário para dirigir esse movimento
O CODAM poderia incorporar, à análise dos projetos, compromissos e indicadores relacionados aos três objetivos estratégicos.
1. Articulação do Adensamento
Para sacramentar esta tendência, o projeto deveria apresentar:
- percentual atual e projetado de compras locais;
- insumos que podem ser produzidos no Amazonas;
- fornecedores que serão desenvolvidos;
- importações que poderão ser substituídas;
- atividades de engenharia, pesquisa e manutenção realizadas no Estado;
- metas de qualificação e formação profissional.
Isso permitiria distinguir uma fábrica integrada ao ecossistema regional de uma operação baseada principalmente na montagem de componentes externos.
2. Política Fiscal no rumo a Diversificação
Os incentivos poderiam considerar com maior intensidade:
- entrada em setores ainda pouco explorados;
- capacitação voltada para exportação;
- intensidade tecnológica;
- domínio local de processos e produtos;
- aproveitamento sustentável da biodiversidade;
- contribuição para a transição energética e a economia circular;
- possibilidade de atender demandas específicas da Amazônia.
A diversificação ganharia qualidade econômica e tecnológica, em vez de ser avaliada apenas pelo acréscimo de um produto ao portfólio de uma empresa.
3. Interiorização: das intenções à efetividade
Os projetos com potencial de ligação territorial – conectados com a revisão das finalidades do FTI, poderiam apresentar um plano de integração municipal contendo:
- municípios fornecedores;
- volume esperado de compras;
- contratos ou protocolos com cooperativas;
- unidades de beneficiamento previstas;
- exigências sanitárias, ambientais e de rastreabilidade;
- logística de coleta e transporte;
- assistência técnica aos produtores;
- repartição de benefícios quando houver acesso à biodiversidade;
- empregos e renda gerados fora de Manaus.
O acompanhamento anual permitiria verificar se as metas foram cumpridas e quais obstáculos impediram o avanço.
As premissas necessárias
A interiorização industrial depende de condições anteriores à chegada da fábrica. O interior precisa oferecer regularidade de produção, energia confiável, conectividade, armazenamento, transporte, controle sanitário, assistência técnica e capacidade de organização empresarial. Sem essa base, as indústrias continuarão buscando matérias-primas e componentes onde encontram escala, preço e previsibilidade.
Uma política consequente exigiria articulação entre Sedecti, Suframa, Sepror, ADS, Afeam, Fapeam, UEA, Ufam, Ifam, Embrapa, prefeituras, cooperativas e setor industrial. O incentivo fiscal entraria como parte de um sistema que começa na pesquisa e na formação, passa pela produção e pelo beneficiamento e termina no contrato de compra e no acesso ao mercado.
Também seria necessário definir cidades-polo a partir de vocações e infraestrutura existentes. Itacoatiara e Parintins podem exercer funções diferentes de Tefé, Coari, Tabatinga, Manacapuru ou Presidente Figueiredo. Uma política uniforme para 61 municípios dificilmente produzirá escala. A interiorização tende a avançar por redes territoriais articuladas em torno de alguns polos intermediários.
A decisão que falta
A 321ª pauta do CODAM reforça a expectativa de adensamento porque amplia a presença de insumos, componentes, reciclagem, química e produtos ligados às cadeias eletrônica, metalúrgica e termoplástica. A diversificação também ganha novos contornos com mobilidade elétrica, construção naval e ingredientes vegetais.
A interiorização permanece como a dimensão menos demonstrada. Ela dependerá da inadiável vontade politica, ou seja, de uma escolha institucional: fazer com que os incentivos também induzam relações produtivas entre a indústria e os municípios.
O movimento pode ser resumido em três estágios. A pauta já mostra variedade de projetos. Começa a revelar fornecedores e novas competências. Ainda precisa transformar essas competências em cadeias territoriais.
Se o Amazonas passar a exigir e acompanhar indicadores de compras locais, desenvolvimento de fornecedores, inovação, origem dos insumos e geração de renda municipal, reuniões do CODAM poderão ser avaliadas também pelo desenvolvimento que irradiam para além dos limites do Distrito Industrial.
Essa mudança daria ao modelo uma dimensão mais completa. Manaus continuaria como centro industrial, tecnológico e logístico, enquanto o interior passaria a participar de forma mais regular da produção, do fornecimento e da renda gerada pela política de incentivos.
Fonte principal: Pauta da 321ª Reunião Ordinária do CODAM, 27 de agosto de 2026. Os cálculos consideram os valores de investimento fixo e as estimativas de mão de obra declarados individualmente nos projetos de implantação, diversificação e atualização.