Pampa abriga 9% da biodiversidade brasileira, demonstra estudo

Pesquisadores brasileiros realizaram estudo e com ele registraram 12.503 espécies entre plantas, animais, fungos e bactérias no Pampa

Restrito ao estado do Rio Grande do Sul, no extremo sul do Brasil, o Pampa é um bioma muitas vezes invisibilizado quando se fala em biodiversidade. Os campos naturais que marcam a paisagem ao sul, entretanto, abrigam cerca de 9% de todas as espécies atualmente conhecidas no país. Os dados são de um levantamento inédito que contabilizou 12.503 espécies no bioma, entre fauna, flora, fungos e bactérias.

A pesquisa foi publicada, com acesso aberto, em janeiro, na revista internacional Frontiers of Biogeography, e representa um grande esforço coletivo assinado por mais de 120 pesquisadores de 70 instituições diferentes.

“A pergunta inicial do artigo é bastante simples: qual é a biodiversidade do bioma Pampa?”, comenta o professor Gerhard Overbeck, do Departamento de Botânica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), um dos autores que liderou o estudo. “O Pampa é a região do extremo sul do Brasil, conhecida pelas planícies de campos a se perder de vista, mas que também inclui diversos outros ambientes, como florestas, banhados, ou butiazais. O conhecimento sobre a sua biodiversidade vem crescendo ano a ano, mas esses dados não são facilmente disponíveis, de maneira que aquela pergunta simples inicial não pode ser respondida. Assim, surgiu a ideia para esse estudo”, completa.

Junto aos colegas pesquisadores Bianca Ott Andrade e William Dröse, também da UFRGS, eles reuniram um time de especialistas em diferentes grupos de organismos para fazer o levantamento. 

O trabalho durou mais de dois anos e chegou a números mais altos do que o estimado anteriormente para praticamente todos os grupos de organismos. Ao todo, foram listados 12.503 espécies e 12.851 táxons (contagem que inclui espécies e subespécies). 

A APA Ibirapuitã, no Rio Grande do Sul, é uma das unidades de conservação que ajuda a preservar a biodiversidade do Pampa. Foto: ICMBio/Reprodução
A APA Ibirapuitã, no Rio Grande do Sul, é uma das unidades de conservação que ajuda a preservar a biodiversidade do Pampa. Foto: ICMBio/Reprodução

No caso das algas e fungos, a surpresa foi ainda maior. O levantamento registrou 2.046 espécies de algas no Pampa, mais do que o dobro do que era reconhecido no bioma anteriormente e 40% da diversidade conhecida em todo o país. Já os fungos, divididos entre líquens e não-líquens, somam um total de 1.141 espécies, praticamente 10 vezes mais do que era então associado ao bioma.

Outros destaques foram as aves, com um total de 567 espécies – quase 100 a mais do que o reconhecido anteriormente pro bioma e cerca de 28,8% do total do país; os mamíferos, com 120 espécies; e as abelhas, com uma diversidade de 274 espécies, o equivalente a cerca de 17% do grupo no Brasil.

“Os dados demonstram que o Pampa possui biodiversidade alta não só no grupo de plantas campestres, onde já havia um bom conhecimento antes, mas também em muitos outros grupos. E temos de considerar que em muitos grupos, por exemplo, nas formigas, há muitas espécies que nem foram descritas ainda”, detalha William Dröse. Eles estimam que entre 40 e 50% das formigas amostradas são ainda desconhecidas pela ciência

A expectativa dos pesquisadores é que a base de dados construída sobre a biodiversidade do Pampa seja atualizada periodicamente e sirva de referência para discussões sobre a conservação do bioma, que vem sendo destruído num ritmo acelerado. O bioma cobre pouco mais de 2% do território brasileiro e já perdeu mais de metade da sua área de cobertura nativa apenas nos últimos 35 anos, como alertam dados do MapBiomas.

Quase metade de todas as espécies identificadas vivem nos ecossistemas campestres (23%) ou nas áreas alagadas e úmidas (26%). E cerca de 3,5% são restritas – ou seja, endêmicas – do Pampa brasileiro.

“Dessa maneira, esperamos que os dados contribuam para uma consideração maior da conservação dos ecossistemas nativos em políticas públicas onde o Pampa ainda recebe relativamente pouca atenção”, acrescenta a botânica Bianca Andrade, uma das autoras.

De acordo com o levantamento dos pesquisadores, apenas cerca de um terço das espécies registradas no Pampa foram estudadas o suficiente para determinar o grau de ameaça em que se encontram a nível regional, nacional ou mesmo global. Atualmente, 622 espécies estão classificadas como Criticamente Em Perigo de Extinção, Em Perigo ou Vulnerável em pelo menos uma das esferas de avaliação. E um total de 23 espécies já foram consideradas extintas no bioma – a maioria (17) plantas.

Fonte: O Eco

Redação BAA
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Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

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