A origem da chuva pode definir se uma região terá seca ou colheita estável

Nova pesquisa conecta a origem da chuva à resiliência agrícola e reforça a conservação florestal como ferramenta-chave contra secas e insegurança alimentar.

Um estudo publicado na Nature Sustainability revela que a origem da chuva, se ela vem do oceano ou da terra, pode influenciar diretamente a estabilidade da produção global de alimentos. A pesquisa, liderada por Yan Jiang, da Universidade da Califórnia em San Diego, em coautoria com Jennifer Burney, da Universidade Stanford, rastreou a umidade atmosférica até sua fonte inicial de evaporação com base em quase 20 anos de dados de satélite.

Os cientistas identificaram que a umidade de origem oceânica tende a gerar chuvas mais consistentes, enquanto a chamada “chuva reciclada” — proveniente da evaporação de solos e vegetação — resulta em precipitações mais localizadas e irregulares. Essa distinção tem efeitos diretos na agricultura: quando mais de um terço da chuva em uma região se origina da terra, o risco de seca aumenta de forma significativa, comprometendo a umidade do solo e reduzindo a produtividade agrícola.

“Entender a origem da chuva e se ela vem do oceano ou da terra oferece a formuladores de políticas e agricultores uma nova ferramenta para prever e mitigar o estresse hídrico antes que ele aconteça”, afirma Jiang.

Dois pontos críticos globais foram destacados: o Meio-Oeste dos Estados Unidos e a África Oriental. No primeiro, a forte dependência da umidade reciclada tem intensificado ciclos de seca e ameaçado o abastecimento global de grãos. Já na África, o desmatamento para ampliar áreas agrícolas vem comprometendo as próprias florestas que ajudam a gerar as chuvas das quais as lavouras dependem.

Terra árida e rachada na África, evidenciando os impactos da origem da chuva nas secas prolongadas.
Paisagem seca na África Oriental ilustra os efeitos da dependência da origem da chuva em ecossistemas ameaçados pelo desmatamento e mudanças climáticas. Foto: Daniel Jukes.

Segundo os autores, a origem da chuva também deve ser considerada em estratégias de conservação. Uma vez que grandes florestas, por meio da evaporação e da transpiração das plantas, atuam como verdadeiras “fábricas naturais de chuva”. Os autores afirmam que preservar esses ecossistemas não é apenas uma medida de proteção da biodiversidade, mas uma ação vital para manter o regime hídrico e garantir a segurança alimentar em longo prazo.

Além do diagnóstico, o estudo oferece soluções práticas. A equipe desenvolveu um método de mapeamento baseado em satélite que pode orientar decisões sobre irrigação, retenção de umidade no solo e uso sustentável da terra, contribuindo para fortalecer a resiliência agrícola frente às mudanças climáticas. Com isso, o entendimento da origem da chuva torna-se uma ferramenta estratégica no enfrentamento de secas e na construção de sistemas alimentares mais seguros.

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Rios Voadores. Foto: Reprodução Doc Rios Voadores
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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