O Amazonas ainda precisa se autoconhecer

“Comece a fazer. Não entregue para outro. Comece melhorando a sua calçada, votando melhor, demandando de seus representantes, participando de seu condomínio. Entenda a razão de você se deixar ser tão sugado que não tem o menor interesse em fazer algo mais para a sua comunidade – seja ela qual for. Veja o que lhe acontece que, de uma hora para outra, decides que o melhor a fazer é não fazer nada. De onde vem esta inércia? Será medo de se transformar em vítima? Não sei. Mas precisamos mudar. O começo é aceitar que isso é um problema. Ou isso não é um problema?”

Augusto Cesar Barreto Rocha
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Os habitantes de Manaus conhecem Manaus e a sua cultura? Quando finalmente percebi o Distrito Industrial com as suas ruas recuperadas, comecei a refletir sobre o quanto ainda não estamos harmonizados com uma cidade que possui um parque industrial tão potente e ao mesmo tempo tão frágil. Como pode a área mais importante para os tributos do Amazonas ter ficado tanto tempo negligenciada em sua infraestrutura básica? Quais fatores levaram a isto?

Por que tanta negligência com a conexão aquaviária que existe entre Manaus e o interior do Amazonas? Por que desde sempre os portos para o interior são tão largados? Qual o mistério que ronda a nossa cultura que nos faz ser tão negligentes conosco e com o que deveria ser considerado importante para nós mesmos? Por qual razão não temos calçadas apropriadas em Manaus? Por que o sistema de ônibus é tão desprezado e não é modernizado? Por que ignoramos tanto as tribos e culturas indígenas presentes na região?

Qual a razão de não termos inserido a floresta nas nossas vidas diárias e termos tanto avesso às caminhadas ao ar livre? Por que fazemos uma cidade tão inóspita para as pessoas? A falta de confiança que se insere a cada dia em nossa cidade seria pelo caldo cultural de uma cidade que “de porto de lenha” aspiraria ser Liverpool, como lindamente disseram os poetas Aldísio Filgueiras e Torrinho? Ainda não encontramos nossa harmonia. Precisamos encontrar. Precisamos começar a construir caminhos para a pacificação com a nossa história e harmonização de todos nós com a nossa cidade e o nosso Estado.

Manaus é muito bela e importante e precisa começar a valorizar a sua cultura e história, sob pena de ficar com identidades que não condizem com o potencial majestoso que possui. Precisamos criar uma cidade boa para o presente. Temos tudo para isso, mas há algo que nos falta para esta conquista. Seguir a ver a carência de parques, praças e áreas verdes, que deveriam invadir toda a cidade é algo desolador. Seguir a aceitar que a conexão com o interior do Amazonas continue do jeito que está é inadmissível –mais repudiável do que os buracos do Distrito Industrial eram até algumas semanas atrás.

Precisamos acordar para tudo isso e para muito mais coisas. Como? Não tenho uma concepção total, mas acredito que é uma necessidade urgente. O que o leitor acha que poderia ser feito? Reflita. Comece a fazer. Não entregue para outro. Comece melhorando a sua calçada, votando melhor, demandando de seus representantes, participando de seu condomínio. Entenda a razão de você se deixar ser tão sugado que não tem o menor interesse em fazer algo mais para a sua comunidade – seja ela qual for. Veja o que lhe acontece que, de uma hora para outra, decides que o melhor a fazer é não fazer nada. De onde vem esta inércia? Será medo de se transformar em vítima? Não sei. Mas precisamos mudar. O começo é aceitar que isso é um problema. Ou isso não é um problema?

Augusto Rocha
Augusto Rocha
Augusto Cesar Barreto Rocha é professor da UFAM

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