Nova espécie “solitária” de peixe da Amazônia vive isolada em poça e sob risco extremo

Vivendo de forma sazonal e solitária, a população desse peixe da Amazônia só eclode quando as chuvas permitem

Uma espécie de peixe de corpo bege com pequenas bolinhas marrom-avermelhadas nas nadadeiras passou anos despercebido em uma poça temporária nas proximidades do rio Madeira, no estado do Amazonas. Vivendo de forma sazonal e solitária, a população desse peixe da Amazônia só eclode quando as chuvas permitem.

Curiosamente, exemplares da espécie estavam armazenados desde 1991 na coleção científica do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), sem que tivessem sido formalmente identificados. Foi apenas durante uma pesquisa online que o especialista Fábio Origuela se deparou com as informações da antiga coleta realizada nos arredores do município de Humaitá (AM). Intrigado com as características dos peixes, Origuela organizou uma expedição de campo, em 2018, para revisitar o local da coleta original, o que possibilitou a redescoberta e a recente descrição oficial da espécie, publicada no periódico científico Zootaxa no início de maio. 

A espécie foi batizada de Moema humaita, em referência ao município em que vive. As fêmeas mal chegam aos quatro centímetros, enquanto os machos atingem até sete, ambos menores que uma palma da mão humana.

Moema humaita, nova espécie solitária de peixe da Amazônia. Foto: Jan Willen Hoetmer.
Moema humaita, nova espécie solitária de peixe da Amazônia. Foto: Jan Willen Hoetmer.

Espécie ameaçada

A espécie recém-identificada pertence ao grupo dos peixes-anuais, conhecidos como “peixes das nuvens”, devido ao seu ciclo de vida ligado aos ciclos da chuva. Esses animais apresentam uma estratégia de sobrevivência singular: vivem em poças temporárias formadas durante os períodos chuvosos e passam boa parte do tempo como ovos enterrados na lama seca, aguardando o retorno das chuvas para eclodirem e completar seu ciclo de vida.

Sua capacidade de sobreviver em ambientes extremos e temporários confere a esses peixes resiliência biológica, mas, paradoxalmente, também os torna extremamente vulneráveis. Isso porque os rivulídeos, a família à qual pertencem, dependem diretamente da regularidade das chuvas e da integridade das poças naturais, o que os coloca em risco diante de várias ameaças. Entre elas estão o aterramento de poças por obras da construção civil, a intensificação das secas e os impactos das mudanças climáticas, que alteram o regime de chuvas e reduzem a disponibilidade de habitats adequados.

Leptopanchax opalescens, uma das espécies de "peixe das nuvens".
Leptopanchax opalescens, uma das espécies de “peixes das nuvens” | Foto: Divulgação/ LEP – UFRRJ

Como reflexo dessa fragilidade, os rivulídeos representam sozinhos cerca de um terço de todas as espécies de peixes ameaçadas no Brasil, segundo dados de conservação. Por isso, Dalton Nielsen, pesquisador do Peixes da Caatinga, ressalta que são necessários esforços de pesquisa e trabalho de campo em seus habitats, com o objetivo de procurar ambientes aquáticos anuais e avaliar com mais clareza o estado de conservação do Moema humaita.

Isadora Noronha Pereira
Isadora Noronha Pereira
Jornalista e estudante de Publicidade com experiência em revista impressa e portais digitais. Atualmente, escreve notícias sobre temas diversos ligados ao meio ambiente, sustentabilidade e desenvolvimento sustentável no Brasil Amazônia Agora.

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