“Norte e Nordeste não pedem favor. Pedem o óbvio: o direito de não serem tratados como periferia humana de uma pátria que também é deles“
O Brasil tem um vício antigo: quando não quer enxergar um problema, ele o transforma em paisagem. Foi assim com o Nordeste, tantas vezes reduzido a caricatura — “voto suspeito”, “povo atrasado”, “terra de dependência” — sempre que sua presença política contrariou o orgulho de quem se imagina dono do país. E é assim com o Norte: uma imensa “mancha verde” no mapa, útil como mito, incômoda como gente.
Chamam de “descuido” aquilo que, visto de perto, tem nome mais duro: hierarquia.
Porque não se trata apenas de falta de investimento. Trata-se de um modelo mental que decide, silenciosamente, quem merece água na torneira e quem deve continuar carregando balde; quem merece esgoto tratado e quem pode viver com a vala como vizinha; quem merece estrada e quem deve aceitar que o rio — lindo e soberano — continue sendo também o corredor do abandono. A desigualdade territorial é uma engenharia: não nasce do acaso, nasce de escolhas repetidas.
É aí que mora o supremacismo interno: não o supremacismo de bandeiras explícitas, mas o supremacismo cotidiano, educado, “técnico”, que se veste de racionalidade fiscal e pergunta, com a boca cheia de Brasil, por que investir “tanto” em regiões “tão longe”. Como se distância fosse defeito moral. Como se a geografia fosse desculpa para a cidadania incompleta. Como se houvesse brasileiros de primeira linha e brasileiros de linha auxiliar — úteis quando servem à ideia de nação, descartáveis quando cobram a nação de volta.
O mesmo mecanismo que, nas redes, transforma “nordestino” em xingamento em época de eleição, transforma “amazônida” em obstáculo o ano inteiro. Um é atacado porque vota; o outro, porque existe. Um é acusado de “atrasar o país”; o outro, de “atrapalhar o progresso”. No fundo, é a mesma acusação: vocês não cabem no Brasil que eu inventei para mim.
E então a perversidade se completa: quando a fome cresce, dizem que é “cultura”; quando o saneamento falta, dizem que é “inviável”; quando a logística é precária, dizem que é “natural”; quando a escola não alcança, dizem que “é difícil mesmo”; quando a cidade explode sem infraestrutura, dizem que “faltou planejamento local”. Sempre há uma frase pronta para empurrar o peso de volta para quem já carrega tudo.
Enquanto isso, a Amazônia vira altar internacional — celebrada em discursos, fotografada de helicóptero —, mas tratada com impaciência quando pede o básico: hospital que funcione, energia que não humilhe, transporte que não seja aventura, internet que não seja promessa. O país gosta da floresta como símbolo; teme a floresta como agenda social. Porque a agenda social exige Estado — e o Estado, aqui, costuma chegar tarde, quando chega.
E há uma ironia amarga: o Brasil que se acha moderno, quando desdenha Norte e Nordeste, revela sua forma mais arcaica. A velha casa-grande reaparece sem correntes, mas com algoritmo. O antigo mapa de privilégios reaparece sem capitão-do-mato, mas com planilha. A violência muda de roupa; a intenção permanece.
O que se chama “descuido” é, muitas vezes, uma política não declarada: manter regiões inteiras em condição de espera, como se a vida pudesse adiar-se no calendário da União. Mas vida não espera. Vida cobra. E cobra com juros: migração forçada, economias fracas, cidades pressionadas, serviços colapsados, frustração cívica, ressentimento nacional.
Norte e Nordeste não pedem favor. Pedem o óbvio: o direito de não serem tratados como periferia humana de uma pátria que também é deles.
O Brasil só será inteiro quando parar de usar a palavra “região” como eufemismo para “distância social”. E quando entender, de uma vez, que não existe soberania com vala a céu aberto, nem grandeza com fome, nem unidade nacional sustentada por desprezo.
O resto é mito. Bonito, verde, confortável — e covarde.