Ninguém quer salvar a Amazônia

Uma possível saída é reformatar o problema: como aproveitar a Amazônia para gerar riqueza hoje e sempre para a região, para o Brasil e para o mundo? Esta deveria ser a pergunta a ser enfrentada pelos brasileiros. O ajuste da pergunta leva a uma mudança de perspectiva. O que estamos errando em nossos debates é sobre as perguntas e não com respeito às respostas.

Augusto Cesar Barreto Rocha
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Há várias ações voltadas para este propósito inquestionável: proteger a Amazônia da extinção. Afinal, quem, em sã consciência, pode ser contra isso? Por outro lado, quem está aqui para “ser salvo” possui uma visão diferente. Dentro das minhas tarefas diárias, vez por outra atendo algum jornalista e, em raras ocasiões, são da mídia estrangeira. Poucos dias atrás deixei uma jornalista europeia desconcertada: “seria bom se quem fala em proteger a Amazônia parasse de fazê-lo apenas por seus próprios interesses – afinal, o que vejo são pessoas olhando para seus interesses e usando a Amazônia como desculpa”.

Fico indignado quando vejo tantos debates sobre a região onde habito feito por pessoas que sequer colocaram o pé por aqui – e não era o caso daquela jornalista que não falava português. É claro que uma parcela será de interesse nobre, outros ainda falarão pelo modismo e outros por ficarem realmente chocados com as questões das absurdas queimadas e outras tantas ações inapropriadas com a natureza daqui. Estes aí não possuem qualquer consciência, como talvez tenham refletido Pierre Bourdieu, Zé Ramalho ou outros que falaram sobre as “massas de manobra” ou outras formas de manipulação. Estes são até benvindos, pois poderão se juntar à nos se forem corretamente informados.

As massas de manobra provavelmente existirão por um bom tempo, não importando o nome a dar e, ainda bem que existe muita gente inocente no mundo. Também não me preocupo com os aproveitadores da desgraça alheia, porque a história está cheia deles. Cedo ou tarde se revelarão. Para rir um pouco, imagine o eco que haveria na mídia paulista se um grupo de cientistas da UFAM e UFPA fossem emitir opiniões sobre o Rio Tietê. Isso também não me incomoda – afinal cada imprensa ecoa a voz daquele pensamento de interesse de seus Editores e Leitores.

O que realmente me deixa indignado é a nossa ausência nos debates sobre o futuro de nossa região. Chegou o dia da COP26 e não se verifica na mídia local um debate caloroso e ardente sobre qual a nossa contribuição. Esta ausência de debate que delibere de maneira sistêmica e sistemática a prescrição sobre modelos que fazem sentido em nosso futuro é um problema nosso. Haverá recursos financeiros e humanos para isso? Certamente não – a maior parte de nós está presa em alguma rede de ações em que não sobra tempo para este tipo de assunto, afinal também vivemos o mesmo dilema do aquecimento global: para que resolver um problema daqui a 100 anos, se nesta data não estarei por aqui?

Uma possível saída é reformatar o problema: como aproveitar a Amazônia para gerar riqueza hoje e sempre para a região, para o Brasil e para o mundo? Esta deveria ser a pergunta a ser enfrentada pelos brasileiros. O ajuste da pergunta leva a uma mudança de perspectiva. O que estamos errando em nossos debates é sobre as perguntas e não com respeito às respostas. Está na hora de começarmos a pautar as perguntas que importam para o desenvolvimento humano, com ganho econômico e responsabilidade ambiental. Enquanto este tripé não estiver em cada construção de pauta, não teremos a autoridade para participar do debate nacional ou global sobre o nosso próprio futuro.

Enquanto não temos as respostas, precisaremos ajustar as perguntas ou questionar nossos interlocutores que ousam querer definir o nosso modo de vida. É um começo muito tímido, mas um começo possível. É melhor isso do que a estupidez de defender as queimadas por serem parte da cultura.

Augusto Cesar 2 2
Augusto Rocha é Professor da Universidade Federal do Amazonas
Augusto Rocha
Augusto Rocha
Augusto Cesar Barreto Rocha é professor da UFAM

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