“Somos todos brasileiros. Somos todos passageiros da mesma nave. E a Amazônia — longe de ser o quintal distante do país — é a ponte entre o que ainda somos e o que podemos ser: uma civilização que se reconhece na floresta e se ergue pela solidariedade. Porque enquanto a Amazônia for esquecida, ninguém é cidadão”
Há gestos que revelam o que somos, e decisões empresariais que revelam o que não deveríamos ser. Quando uma companhia que se beneficia da Amazônia escolhe ignorar a determinação das autoridades e colocar seus próprios interesses acima da lei e do bem comum, está, de fato, declarando que há brasileiros de primeira e de segunda classe.
Mas aqui, na imensidão da floresta e nas margens dos rios que sustentam a vida, não existem cidadãos de segunda classe.
Vivemos todos na mesma nave — este planeta, este país, esta Amazônia que é pulmão e espelho da humanidade. E numa nave comum, ninguém sobrevive sozinho. O que afeta um, atinge a todos. O que corrói a dignidade de uns, destrói o sentido de justiça de todos.
A estiagem, que tem castigado severamente a região, é mais do que um fenômeno natural: é o retrato de uma crise climática que exige empatia, cooperação e coragem ética. Ignorar essa realidade é mais do que insensibilidade — é desumanidade institucionalizada.
A empresa que desafia as autoridades e recusa-se a obedecer determinações legítimas não está apenas rompendo com o dever jurídico. Está rompendo com o pacto moral da convivência civilizada.
Enquanto muitos lutam para enfrentar as restrições de navegabilidade, os prejuízos econômicos e os impactos sociais da seca, o que se esperaria era solidariedade, não oportunismo; compromisso, não ganância.
E é preciso dizer com clareza: a chamada “Taxa de Pouca Água” é uma excrescência tributária, um tributo ao absurdo que penaliza justamente o lado mais vulnerável e beneficia a ganância de quem já lucra com o desequilíbrio.
Ora, se o custo das operadoras é tema a ser debatido, que se faça com transparência e com o espírito de justiça que remonta aos fenícios, os primeiros a transformar o comércio em pacto de confiança e a permuta em expressão de equidade.
Desde então, o princípio é o mesmo: ninguém prospera sozinho. Se há ônus, que sejam partilhados; se há bônus, que sejam repartidos com honestidade.
Convidamos, a propósito, os senhores da Log-In Logística e demais operadores logísticos a conversar, no modo milenar do mutirão indígena — aquele em que todos se sentam, olham-se nos olhos e constroem juntos a solução. Temos maturidade, senso de responsabilidade e propósitos comuns.
E que esses propósitos, que unem e dignificam, falem mais alto do que o cálculo frio da vantagem momentânea.
A Amazônia, apesar de tantas ausências e negligências, não é periferia da nação — é o seu centro moral e ambiental. Daqui fluem os rios que fertilizam o país e o oxigênio que sustenta o mundo. Daqui também emerge a força de um povo que trabalha, resiste e acredita que prosperar não é acumular vantagens, mas compartilhar benefícios.
Fazemos, portanto, um apelo ético em nome da Amazônia e do Brasil: que as regras sejam cumpridas, que a dignidade de quem vive e trabalha nesta terra seja respeitada, e que o lucro jamais se sobreponha à vida.
Porque a verdadeira grandeza de uma nação não se mede pelo volume das cargas que transporta, mas pela justiça com que trata o seu povo.
Somos todos brasileiros. Somos todos passageiros da mesma nave. E a Amazônia — longe de ser o quintal distante do país — é a ponte entre o que ainda somos e o que podemos ser: uma civilização que se reconhece na floresta e se ergue pela solidariedade.