“Vice-presidente da FIEAM e conselheiro do CIEAM Nelson Azevedo defende uma nova etapa da Zona Franca de Manaus, baseada na indústria existente, inovação, biodiversidade, infraestrutura e maior integração econômica entre Manaus e o interior“
A entrevista foi condedida ao editor geral Alfredo Lopes
Brasil Amazônia Agora – Quando se fala em diversificar a economia do Amazonas, muita gente entende que seria preciso diminuir a importância da Zona Franca de Manaus. É essa a discussão?
Nelson Azevedo – Eu vejo de outra maneira. A diversificação precisa partir do patrimônio econômico que nós já construímos. O Amazonas possui um parque industrial sofisticado, trabalhadores qualificados, conhecimento de engenharia, fornecedores, sistemas de qualidade e empresas integradas a cadeias nacionais e internacionais. Seria um desperdício imaginar a diversificação como algo separado dessa estrutura.
O caminho mais consistente é utilizar essa base industrial para construir novas atividades econômicas, incorporar tecnologia, desenvolver fornecedores regionais e aproximar a indústria das oportunidades existentes na biodiversidade, na produção de alimentos, na energia, na economia digital e na pesquisa científica.
BAA – Então a Zona Franca continua sendo o ponto de partida?
Nelson – Sem dúvida. O Polo Industrial de Manaus continua sendo a maior estrutura produtiva organizada da Amazônia brasileira. São décadas de formação de competências industriais que não podem ser reproduzidas rapidamente.
Temos fábricas, engenheiros, técnicos, pesquisadores, logística empresarial, centros de desenvolvimento e uma cultura industrial que foi sendo construída ao longo de gerações. A questão agora é saber como utilizar essa infraestrutura para abrir novas fronteiras econômicas.
Diversificar significa acrescentar capacidades ao que já existe.
BAA – O senhor escreveu que indústria, ciência e biodiversidade ainda permanecem excessivamente separadas. Onde está a dificuldade dessa aproximação?
Nelson – Temos excelentes instituições de pesquisa e uma biodiversidade extraordinária. Temos também uma indústria capaz de produzir em escala e atender mercados muito exigentes. O problema é que esses mundos ainda conversam menos do que deveriam.
Entre uma descoberta científica e um produto colocado no mercado existe um percurso complexo. É preciso financiamento, proteção intelectual, pesquisa aplicada, testes, certificação, escala industrial, estratégia comercial e capacidade empresarial.
Precisamos construir pontes permanentes entre universidades, institutos de pesquisa, comunidades, startups, investidores e empresas industriais. Quando esse sistema funciona, conhecimento começa a se transformar em produto, empresa, patente, emprego e renda.
BAA – A bioeconomia aparece frequentemente como uma alternativa econômica para a Amazônia. Existe o risco de criarmos expectativas maiores do que a capacidade real dessa atividade?
Nelson – Existe, principalmente se tratarmos a bioeconomia apenas como uma coleção de boas intenções. Biodiversidade precisa ser acompanhada de ciência, tecnologia, investimento e mercado.
Temos moléculas, fibras, óleos, alimentos, microrganismos e materiais com possibilidades de aplicação em setores como cosméticos, fármacos, alimentos, química e novos materiais. Mas recurso natural, sozinho, não gera desenvolvimento.
Precisamos criar empresas capazes de transformar esse conhecimento em negócios competitivos. E precisamos fazer isso respeitando as comunidades, o conhecimento tradicional, a legislação e a repartição dos benefícios.
BAA – Nesse processo, que contribuição concreta o Distrito Industrial pode oferecer à bioeconomia?
Nelson – Uma contribuição muito maior do que geralmente se imagina. O Distrito Industrial conhece produção em escala, engenharia, controle de qualidade, certificação, logística, gestão de fornecedores e acesso ao mercado.
Imagine aproximar essa experiência industrial das pesquisas desenvolvidas pelo INPA, pela Ufam, pela UEA e por outras instituições. Ou associá-la a startups que estejam desenvolvendo soluções relacionadas à floresta.
Isso poderia reduzir uma distância que historicamente temos dificuldade de vencer: a distância entre conhecimento e mercado.
BAA – Uma crítica recorrente à economia amazonense é sua enorme concentração em Manaus. Como fazer a diversificação chegar ao interior?
Nelson – Essa talvez seja uma das questões mais importantes para o futuro do Amazonas. Precisamos criar relações econômicas mais fortes entre Manaus e os municípios.
Existem possibilidades na piscicultura, no manejo florestal, na agroindústria, nos alimentos, no turismo, nas cadeias da sociobiodiversidade e em diferentes atividades adaptadas às características de cada região.
Mas temos que abandonar a ideia de que basta identificar uma potencialidade. Para transformar potencial em economia são necessárias energia, assistência técnica, comunicação, regularização fundiária, armazenagem, financiamento, transporte e acesso ao mercado.
Sem essa estrutura, continuaremos produzindo diagnósticos sobre riquezas que nunca se transformam plenamente em renda para quem vive no interior.
BAA – A indústria de Manaus poderia gerar demanda para esses municípios?
Nelson – Esse é um caminho interessante. A indústria pode comprar determinados insumos regionais, apoiar o desenvolvimento de fornecedores, produzir equipamentos adequados às atividades do interior e participar de projetos tecnológicos.
Uma economia regional mais integrada surgirá quando houver circulação maior de produtos, serviços, tecnologia e conhecimento entre Manaus e os municípios.
Precisamos começar a enxergar o Polo Industrial também como uma plataforma capaz de induzir outras atividades econômicas.
BAA – Há, entretanto, um obstáculo que reaparece em praticamente qualquer discussão econômica sobre o Amazonas: a logística. É possível diversificar sem resolver esse problema?
Nelson – Será muito difícil alcançar escala competitiva mantendo os custos e a imprevisibilidade logística que temos atualmente.
Nossa logística é extremamente complexa. Empresas amazonenses aprenderam a operar combinando rios, rodovias, portos, balsas, empurradores, estaleiros e grandes estruturas de armazenagem. Existe uma competência empresarial importante nesse setor.
Mas determinados problemas dependem de política pública. Hidrovias precisam de manutenção, portos precisam ser modernizados, dragagens precisam ser planejadas e precisamos ampliar as alternativas de transporte.
A logística precisa deixar de ser tratada apenas como um problema regional. Manaus abastece o mercado brasileiro. Portanto, a eficiência dessa infraestrutura interessa ao país.
BAA – E onde entra a BR-319 nessa equação?
Nelson – A BR-319 pode ampliar as alternativas logísticas do Amazonas, reduzir determinados tempos de transporte e oferecer maior flexibilidade para o abastecimento e para o escoamento da produção.
Naturalmente, uma infraestrutura desse porte precisa estar associada a fiscalização ambiental, monitoramento, ordenamento territorial e presença permanente do Estado.
O debate precisa avançar para soluções técnicas que conciliem infraestrutura e proteção ambiental. O Amazonas necessita das duas coisas.
BAA – Os eventos climáticos extremos acrescentaram uma nova variável ao custo amazônico?
Nelson – Sim. Esse talvez seja um dos elementos que exigem maior atenção daqui para frente.
As grandes secas e cheias estão alterando rotas, elevando custos de frete e criando riscos adicionais para o abastecimento e para a produção industrial. A infraestrutura que funcionava em determinado padrão climático talvez não seja suficiente diante das novas condições.
Precisamos incorporar previsões climáticas, dragagem preventiva, terminais mais adaptáveis e rotas alternativas ao planejamento econômico. A mudança climática já entrou na conta das empresas.
BAA – O senhor insiste bastante no horizonte de 2073. Quarenta e sete anos parecem muito tempo. Por que a urgência?
Nelson – Porque quarenta e sete anos representam pouco tempo quando estamos falando de transformação estrutural de uma economia.
A segurança constitucional dos incentivos até 2073 oferece ao Amazonas uma oportunidade extraordinária de planejamento. Temos um horizonte relativamente longo no qual investidores sabem que as regras fundamentais do modelo estão protegidas.
Precisamos utilizar essa estabilidade para investir em infraestrutura, ciência, tecnologia, qualificação profissional e novas cadeias produtivas.
Quando chegarmos perto de 2073, o Amazonas precisa possuir muito mais vantagens competitivas próprias do que possui hoje.
BAA – Isso significa reduzir a dependência dos incentivos fiscais?
Nelson – Significa ampliar as razões pelas quais uma empresa escolhe produzir no Amazonas.
Os incentivos fiscais são essenciais porque compensam custos estruturais decorrentes da distância dos grandes mercados consumidores e fornecedores. Essa realidade geográfica continuará existindo.
Ao mesmo tempo, podemos acrescentar outras vantagens: mão de obra cada vez mais qualificada, infraestrutura melhor, pesquisa aplicada, energia competitiva, fornecedores regionais, biodiversidade transformada em inovação e acesso a novos mercados.
Quanto maior esse conjunto de vantagens, mais forte será a economia amazonense.
BAA – E as exportações? O Polo Industrial continua muito dependente do mercado brasileiro.
Nelson – Esse é outro ponto que precisa entrar com mais força na agenda dos próximos anos.
Estamos geograficamente próximos de países andinos, do Caribe e de possíveis corredores de acesso ao Pacífico. Isso oferece oportunidades, embora transformar localização geográfica em vantagem econômica exija infraestrutura, acordos comerciais, logística eficiente e diplomacia.
Precisamos estudar essas rotas com pragmatismo. Uma economia mais diversificada também precisa ampliar seus mercados.
BAA – Se o senhor tivesse que apontar três prioridades para essa reinvenção da Zona Franca, quais seriam?
Nelson – Primeiro, infraestrutura. Nenhuma economia consegue ganhar competitividade convivendo permanentemente com gargalos de logística, energia e conectividade.
Segundo, ciência, tecnologia e formação de pessoas. O futuro da indústria será cada vez mais determinado pela capacidade de produzir conhecimento e incorporar inovação.
E terceiro, integração econômica regional. Precisamos aproximar indústria, biodiversidade, universidades, empreendedores e interior.
Essas três agendas precisam caminhar juntas.
BAA – E qual seria o maior risco para a Zona Franca daqui para frente?
Nelson – Talvez seja imaginar que a segurança jurídica conquistada resolve, por si só, o futuro.
Ela nos oferece tempo e previsibilidade. Cabe à nossa geração decidir o que fará com esse tempo.
O Amazonas já possui indústria, conhecimento científico, trabalhadores qualificados, biodiversidade e experiência empresarial. Precisamos conectar esses ativos e estabelecer algumas prioridades que sobrevivam às mudanças de governo.
Se conseguirmos fazer isso, chegaremos a 2073 com uma economia muito mais diversificada, tecnologicamente avançada e integrada ao interior.
É esse processo que eu considero a verdadeira reinvenção da Zona Franca de Manaus.