De costas e de cócoras: o novo passivo da Natura e a retórica da regeneração

“Regenerar, no caso da Amazônia, exige reconhecer dívidas históricas, sociais, ambientais e culturais. Exige investir em educação, saúde, conectividade e justiça tributária para quem vive e protege a floresta”

Coluna Follow-Up

A Natura decidiu abandonar o conceito de sustentabilidade como norte estratégico e adotar o da regeneração. Em sua recém-lançada Visão 2050, assume o compromisso de ir além da mitigação de impactos, prometendo resultados positivos para os ecossistemas dos quais extrai insumos e para as comunidades que supostamente integra às suas cadeias produtivas. Contudo, por trás da retórica inovadora, o que se desenha é um rebranding de marketing verde que exige cautela — sobretudo quando olhado a partir da Amazônia.

Sustentabilidade esvaziada ou estrategicamente substituída?

O discurso do CEO João Paulo Ferreira — “sustentar o mundo como ele é hoje não é uma boa ideia” — parece ignorar que a sustentabilidade defendida nas décadas de 1980 e 1990 não era essa caricatura corporativa de “mitigação do dano” a que hoje se reduz. Pelo contrário, a Agenda 21, consolidada na Rio-92, se baseava em duas premissas fundamentais:

1. Reposição dos estoques naturais utilizados;
2. Atendimento das necessidades sociais, com foco em equidade.

Rio30
Luciana Whitaker – 3.jun.1992/Folhapress

É também disso que falava Samuel Benchimol, ao defender que qualquer atividade econômica na Amazônia precisaria ser, ao mesmo tempo, socialmente justa, politicamente correta, economicamente viável e ambientalmente sustentável. Sob esse prisma, a proposta regenerativa da Natura — por mais sedutora que pareça — não se sustenta nem no velho, nem no novo paradigma.

Logística reversa frágil e redes de distribuição precarizadas

Se a empresa pretende se apresentar como agente de regeneração, não poderá evitar o escrutínio sobre o seu passivo socioambiental acumulado. A começar pela logística reversa, que continua frágil, mal auditada e pouco rastreável. Some-se a isso uma estrutura de distribuição baseada em trabalho informal, frequentemente desvinculada de direitos previdenciários, benefícios trabalhistas ou qualquer sistema de proteção social real — realidade que contrasta com a promessa de “renda digna” para todas as consultoras até 2050.

Além disso, a retórica regenerativa ignora o fato de que a lei de acesso à biodiversidade (Lei 13.123/2015) exige, desde 2015, benefício compartilhado com populações locais sempre que há aproveitamento econômico de recursos genéticos ou conhecimentos tradicionais associados. Qual é o modelo de partilha da Natura? Há contratos formais com comunidades extrativistas? Os lucros com a linha Ekos, por exemplo, são repartidos com quem?

Amazônia como vitrine e zona de amortecimento

A proposta de “multiplicar por quatro as compras de insumos amazônicos” ou de garantir que comunidades fornecedoras sejam remuneradas por serviços ambientais até 2050 soa promissora, mas é insuficiente quando confrontada com a realidade ribeirinha, onde faltam energia elétrica confiável, internet, acesso ao crédito, escolas, hospitais e, sobretudo, uma política de valorização da floresta em pé como eixo de soberania nacional.

A Natura decidiu abandonar o conceito de sustentabilidade como norte estratégico e adotar o da regeneração. Em sua recém-lançada Visão 2050, assume o compromisso de ir além da mitigação de impactos, prometendo resultados positivos para os ecossistemas dos quais extrai insumos e para as comunidades que supostamente integra às suas cadeias produtivas. Contudo, por trás da retórica inovadora, o que se desenha é um rebranding de marketing verde que exige cautela — sobretudo quando olhado a partir da Amazônia.
foto: Agata Valenca/Unsplash

A Natura pode financiar SAFs, incentivar cadeias como a do dendê sustentável em Tomé-Açu e cooperar com centros de pesquisa — e isso é meritório —, mas isso não resolve a lógica estrutural em que a Amazônia serve como zona de amortecimento da culpa corporativa, enquanto a elite econômica brasileira e global mantém seu modelo extrativista disfarçado de verde.

Greenwashing regenerativo?

A falta de critérios técnicos e regulatórios consensuais sobre o que é uma prática regenerativa abre espaço perigoso: se tudo pode ser regeneração, então nada precisa ser realmente transformador. A empresa cita a certificação VM0042 da Verra como exemplo, mas esse selo é limitado à lógica do mercado de carbono, que ainda carece de transparência, fiscalização e reconhecimento social.

Além disso, metas como “100% das embalagens reutilizáveis, recicláveis ou compostáveis” e “zerar emissões líquidas no escopo 3 até 2050” escondem o fato de que compensar é muito diferente de regenerar. Quando 95% das emissões vêm da cadeia indireta, o esforço verdadeiro precisaria começar com mudanças estruturais, e não apenas com compras de créditos de carbono via REDD+.

A regeneração começa pelo passivo

Regenerar não é plantar árvores ou trocar plástico virgem por compostável. Regenerar, no caso da Amazônia, exige reconhecer dívidas históricas, sociais, ambientais e culturais. Exige investir em educação, saúde, conectividade e justiça tributária para quem vive e protege a floresta. Exige, também, transparência e diálogo com os povos e comunidades tradicionais — não apenas discursos em conferências internacionais.

Enquanto não enfrentar com honestidade esse passivo, a Natura estará apenas atualizando sua maquiagem verde.

Coluna Follow-Up é publicada às quartas quintas e sextas no jornal do Comércio do Amazonas, sob a responsabilidade do CIEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes do Portal Brasil Amazônia agora

Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo, escritor e editor-geral do portal Brasil Amazônia Agora

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