Em janeiro, 19.028 bicicletas deixaram as linhas de montagem do Polo Industrial de Manaus (PIM). O número, por si só, poderia parecer apenas mais um indicador industrial. Mas, quando observado com atenção, ele revela algo maior: a engrenagem silenciosa de um modelo de desenvolvimento que conecta a floresta em pé à mobilidade urbana brasileira.
O levantamento da Abraciclo mostra que o volume representa um crescimento expressivo de 84% em relação a dezembro. A explicação é técnica: retomada gradual da produção após as férias coletivas e recomposição de estoques. Ainda assim, o salto não deixa de sinalizar vitalidade. A indústria respondeu rapidamente ao calendário e voltou a girar.
Na comparação com janeiro de 2025, entretanto, houve retração de 18,9%. O dado impõe cautela. “A comparação anual indica que o setor permanece atento ao comportamento do consumidor e confiante na evolução do mercado”, observa Fernando Rocha, vice-presidente do segmento de bicicletas da Abraciclo. É o retrato de um setor que oscila entre prudência e expectativa — reflexo de um país que ainda ajusta sua renda, seu crédito e sua confiança.
A força das elétricas: mobilidade e transição
Se há um ponto de inflexão nesse cenário, ele atende pelo nome de bicicleta elétrica. A categoria cresceu 107,9% na comparação anual. Foram 3.414 unidades produzidas em janeiro, representando 17,9% do total.
O número não é trivial. Ele ecoa uma tendência global: cidades pressionadas por congestionamentos, emissões e custos de deslocamento encontram na micromobilidade elétrica uma alternativa eficiente e relativamente acessível. A bicicleta elétrica é, ao mesmo tempo, produto industrial e vetor de transição energética.
No Brasil, onde o debate sobre mobilidade sustentável ainda convive com carências estruturais, o avanço das elétricas produzidas na Amazônia ganha significado estratégico. Manaus passa a integrar, não como coadjuvante, mas como fabricante, a cadeia de uma mobilidade mais limpa.
O perfil da produção: tradição e renovação
Em janeiro, a Mountain Bike (MTB) liderou o ranking, com 7.635 unidades — 40,1% do volume total. Embora tenha registrado queda de 44,8% em relação ao mesmo mês do ano anterior, apresentou forte recuperação frente a dezembro (alta de 268,7%). A MTB permanece como espinha dorsal da indústria nacional, dialogando com o perfil híbrido do consumidor brasileiro, que mistura esporte, lazer e deslocamento cotidiano.
A categoria Infantojuvenil foi outro destaque: 4.001 unidades produzidas, crescimento de 52,1% na comparação anual e impressionantes 202,9% frente a dezembro. Mais do que um dado de mercado, é um indicador social: bicicletas infantis representam acesso ao lazer, à mobilidade segura e ao hábito precoce de um transporte mais sustentável.
A Urbana/Lazer, com 3.440 unidades (18,1% do total), mantém participação consistente, enquanto Estrada/Gravel segue como nicho técnico. O conjunto revela uma indústria diversificada, capaz de atender diferentes públicos e tendências.
Manaus para o Brasil: a geografia da distribuição
Do total produzido, 59,7% seguiram para o Sudeste — 11.365 unidades. O Sul absorveu 16,1%; o Centro-Oeste, 9,7%; o Nordeste, 8,6%; e o Norte, 5,9%.
A geografia confirma um padrão histórico: a Amazônia industrializa; o Sudeste consome majoritariamente. É a engrenagem federativa do modelo Zona Franca de Manaus — produção concentrada na floresta, mercado espalhado pelo país.
Essa dinâmica não é apenas econômica. É ambiental. Ao concentrar a atividade industrial em Manaus, o Brasil mantém uma alternativa concreta às pressões por desmatamento extensivo. Cada bicicleta que sai do PIM carrega, simbolicamente, essa lógica: desenvolvimento com floresta preservada.
O horizonte de 2026
A Abraciclo projeta a produção de 350 mil bicicletas em 2026 — alta de 4,3% sobre 2025. O crescimento esperado é moderado, mas consistente. Em um cenário de juros ainda elevados e renda comprimida, qualquer avanço sustentado já é sinal de resiliência.
O setor parece compreender que seu futuro está ligado a três variáveis centrais: crédito ao consumidor, infraestrutura cicloviária nas cidades e consolidação da cultura da mobilidade ativa.
Mais que números, um vetor de futuro
O desempenho de janeiro revela um setor que oscila, mas não recua. Cresce nas elétricas, recompõe estoques, ajusta produção, observa o consumidor. E, sobretudo, mantém ativo um dos elos mais simbólicos da indústria brasileira: a fabricação, na Amazônia, de um produto associado à liberdade, à saúde e à sustentabilidade.
Enquanto o mundo debate transição energética e descarbonização, a roda da bicicleta gira silenciosamente nas linhas de montagem de Manaus. Não faz barulho como os motores do passado. Mas pode representar, no médio prazo, uma das faces mais visíveis de um Brasil que aprende a pedalar rumo a um desenvolvimento mais leve — e mais responsável.
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Sobre a ABRACICLO e o Setor de Duas Rodas
Fundada em 1976 e contando com 15 associadas, a Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares – ABRACICLO representa os fabricantes de veículos de duas rodas no país, tendo como principal missão promover o desenvolvimento sustentável e a competitividade do Setor de Duas Rodas, apoiando e defendendo a indústria nacional estabelecida no Polo Industrial de Manaus – PIM por meio dos pilares Política Industrial, Segurança Viária e Técnico.
A fabricação nacional de motocicletas, quase totalmente concentrada no Polo Industrial de Manaus (PIM), está entre as seis maiores do mundo. No segmento de bicicletas, com as principais fábricas também instaladas no PIM, o Brasil se encontra na quarta posição entre os principais produtores mundiais. No total, as fabricantes do Setor de Duas Rodas geram 20,9 mil empregos diretos em Manaus/AM e mais de 150 mil em todo o Brasil.