Amazonas enfrenta a fumaça com planos ainda inconclusos

Com a poluição acima do limite da escala em Manaus, planos ainda inconclusos e pelo menos R$ 37,5 milhões anunciados para controle e brigadas, o Amazonas precisa explicar quanto executou, onde aplicou e quais resultados entregou antes que o custo humano se torne irreparável.

Manaus amanheceu nesta quarta-feira, 23 de setembro, sob uma camada de fumaça pela sexta vez em quinze dias. Às 5h15, o Distrito Industrial I registrou 587,9 microgramas por metro cúbico de material particulado fino. A marca superou em mais de três vezes a referência máxima de 160 microgramas adotada pelo Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental, o Selva, da Universidade do Estado do Amazonas. Em Autazes, a concentração chegou a 576,6 microgramas. Sete dos treze municípios monitorados na Região Metropolitana estavam na faixa considerada péssima.

Quando a poluição ultrapassa o limite da própria escala, a discussão pública também precisa ultrapassar a rotina dos comunicados. Recomendar hidratação, suspender atividades ao ar livre e orientar o uso de máscaras N95 são providências necessárias durante a emergência. Elas chegam, porém, quando crianças, idosos, gestantes, trabalhadores e pessoas com doenças cardíacas ou respiratórias já estão respirando o fracasso acumulado da prevenção.

Amazonas enfrenta a fumaça

O calendário é parte central do problema. A estiagem amazônica não surgiu de surpresa. O risco de um El Niño mais severo, combinado ao calor extremo, à baixa umidade, às queimadas e à redução dos rios, vinha sendo acompanhado por instituições científicas e órgãos de controle. Em agosto, o Ministério Público de Contas recomendou ao governo estadual que integrasse as ações e preparasse um plano de contingência capaz de antecipar equipes, alimentos, água, medicamentos, combustível e meios logísticos. Até 21 daquele mês, o Amazonas já somava 960 focos de calor, 20% acima dos 795 registrados no mesmo intervalo de 2025. Apuí concentrava cerca de um terço das ocorrências.

Havia, portanto, informação suficiente para agir antes que a fumaça chegasse às janelas de Manaus. Faltou transformar previsão em presença territorial, inteligência em prevenção e orçamento em resultado verificável.

As cifras tornam essa cobrança ainda mais necessária. Informações prestadas pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente apontaram R$ 32,9 milhões para ações de comando e controle e uma estimativa de R$ 4,6 milhões para brigadas florestais em 2026. São pelo menos R$ 37,5 milhões retirados dos cofres públicos para uma política cujo desempenho precisa ser demonstrado com transparência, município por município, contrato por contrato e resultado por resultado.

Ao mesmo tempo, a própria Sema informou que o Plano Estadual de Manejo Integrado do Fogo continuava em elaboração, com conclusão prevista somente para março de 2027. O Plano Operativo Anual de 2026 ainda estava em consolidação. Também não havia, segundo as informações fornecidas ao gabinete do deputado federal Amom Mandel, um plano específico de atuação nas unidades de conservação estaduais durante a estiagem.

AMOM MANDEL
Deputado Federal Amom Mandel (Foto: Jessé Gomes/Divulgação)

Essa combinação é difícil de justificar. O dinheiro foi anunciado para o exercício de 2026, enquanto peças essenciais do planejamento atravessaram a estação crítica sem estar concluídas. A prevenção atrasada produz uma inversão onerosa: o poder público deixa de reduzir o risco quando ainda há tempo e passa a mobilizar homens, equipamentos e serviços de saúde quando o incêndio já ganhou escala e a fumaça já se espalhou.

Em setembro, o cenário tornou-se ainda mais grave. Entre 1º de junho e 16 de setembro, o governo informou ter combatido 12.564 focos de incêndios urbanos e florestais em 33 municípios, com mil bombeiros e brigadistas mobilizados. O dado mostra o tamanho do esforço operacional, mas também exige uma avaliação independente. Quantos desses focos foram alcançados no início? Qual foi o tempo médio de resposta? Quais municípios receberam brigadas permanentes? Quanto foi gasto em prevenção e quanto acabou absorvido pelo combate emergencial? Que áreas voltaram a queimar? Quais metas foram cumpridas?

Sem essas respostas, o volume de operações corre o risco de funcionar como estatística de atividade, incapaz de medir a proteção efetivamente entregue à sociedade.

O dano causado pela fumaça começa nos pulmões, mas se espalha pela economia. A Universidade Federal do Amazonas levou as aulas para o regime remoto nesta quarta-feira diante da concentração elevada de PM2,5. Escolas perdem dias letivos, trabalhadores adoecem, empresas enfrentam ausências, unidades de saúde recebem maior demanda e famílias arcam com medicamentos e deslocamentos. Plantações, comunidades rurais, áreas protegidas e pequenos negócios também ficam expostos.

O material particulado fino atravessa as defesas naturais do organismo e alcança as regiões profundas do sistema respiratório. Por isso, episódios dessa intensidade elevam os riscos respiratórios e cardiovasculares, especialmente entre os grupos vulneráveis. O custo hospitalar poderá ser medido. A piora de doenças crônicas, os dias de trabalho perdidos, a aprendizagem interrompida, a biodiversidade destruída e a angústia de uma população obrigada a respirar ar perigoso dificilmente caberão numa única planilha.

Na comunidade do Tumbira, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Negro, moradores chegaram a enfrentar com baldes um incêndio que, segundo relatos reunidos numa representação ao Ministério Público do Amazonas, avançava havia mais de uma semana e ameaçava cerca de 160 famílias. A cena resume a distância entre os recursos disponíveis e a capacidade de resposta percebida na ponta. Quem vive na floresta não pode ser convertido na última brigada de uma política pública que chegou tarde.

Rio Negro 7 Copy

O governo estadual precisa publicar imediatamente um painel acessível com os valores previstos, empenhados, liquidados e pagos nas ações de prevenção e combate. O documento deve identificar contratos, fornecedores, distribuição territorial de equipes e equipamentos, metas, indicadores e tempos de resposta. Também precisa confrontar os gastos com a evolução dos focos, a reincidência das queimadas e os dados de qualidade do ar.

Cabe ainda antecipar a conclusão do Plano Estadual de Manejo Integrado do Fogo, finalizar e tornar público o Plano Operativo Anual, estabelecer protocolos sanitários para episódios críticos e oferecer alertas ligados a providências concretas. Salas com ar filtrado, pontos de hidratação, estoques de máscaras adequadas, preparação da rede de saúde e comunicação dirigida às escolas e aos grupos vulneráveis devem existir antes do pico, não depois dele.

Prevenção exige fiscalização contínua, brigadas treinadas e distribuídas conforme o risco, manejo integrado do fogo, monitoramento meteorológico, responsabilização dos causadores e coordenação entre Estado, municípios, União, universidades e comunidades. Exige também uma governança capaz de aprender com 2023, 2024 e 2025, em lugar de tratar cada estiagem como uma emergência inédita.

O Amazonas recolhe recursos expressivos da sociedade e dispõe de conhecimento científico produzido dentro do próprio estado. O que falta agora é sincronizar dinheiro, planejamento e execução com o calendário da floresta. Em 23 de setembro, com a poluição acima do teto da escala, essa prevenção já está atrasada. Cada novo dia de atraso amplia uma conta que será paga em internações, perdas econômicas, destruição ambiental e vidas submetidas a um ar que ninguém deveria ser obrigado a respirar.

Fontes consultadas

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