A Indústria da Floresta: quando a Amazônia deixa de ser cenário e passa a ser projeto de país

“A resposta é que devemos produzir sem destruir, regenerar produzindo, incluir distribuindo, inovar preservando. Essa é a Amazônia que queremos — e que podemos entregar ao mundo. Uma Amazônia que deixa de ser cenário para se tornar projeto de país.”.

Coluna Follow Up

A Amazônia já foi tratada como santuário, como problema, como distância geográfica e como ativo retórico. Raramente, porém, foi tratada como economia real. O Brasil desperdiçou décadas debatendo a floresta como se ela fosse um quadro na parede: admirável, intocável e desconectada da vida das pessoas.

Mas a COP da Floresta — realizada pela primeira vez em território amazônico — exige outra postura. Exige a entrada definitiva da região no centro das decisões econômicas, tecnológicas e industriais do país. Exige protagonismo. Exige que deixemos para trás a infantilização da Amazônia.

E é justamente aqui que ressurge a noção de indústria da floresta, conceito que não chega como invenção, mas como resgate. A floresta sempre produziu riqueza — desde os óleos, essências e fibras do século passado até a inovação molecular, agrícola e energética do século XXI. O que faltava era uma política pública capaz de transformar essa vocação natural em prosperidade contínua.

Hoje, esse caminho começa a ser redesenhado.

A Amazônia não precisa de piedade — precisa de produtividade

Enquanto o debate nacional oscila entre o “proteger tudo” e o “explorar tudo”, a indústria da floresta emerge como a terceira via concreta: produzir riqueza regenerando, recuperar degradado gerando renda, atrair investimento combatendo desigualdade.

A Amazônia Legal tem 90 milhões de hectares desmatados, dos quais 70 milhões são de baixíssima produtividade. A pergunta óbvia nunca foi feita com seriedade: por que insistimos em destruir mais, se nem conseguimos aproveitar o que já devastamos?

Com agroflorestas modernas, piscicultura inteligente e manejo sustentável, a região pode multiplicar por 10 sua capacidade produtiva, sequestrar carbono em escala e atrair bilhões em investimentos. Não é romantismo verde — é economia pura.

A resposta é que devemos produzir sem destruir, regenerar produzindo, incluir distribuindo, inovar preservando. Essa é a Amazônia que queremos — e que podemos entregar ao mundo. Uma Amazônia que deixa de ser cenário para se tornar projeto de país.

A indústria da floresta é, portanto, a primeira política que une:

  • crescimento econômico,
  • redução de desigualdade,
  • preservação ambiental,
  • segurança climática,
  • e reputação internacional.

É o tripé ESG na sua forma mais brasileira e mais amazônica.

Zona Franca de Manaus: a indústria que preservou a floresta que não era vista

As empresas do Polo Industrial de Manaus, associadas do Centro da Indústria do Estado do Amazonas, vão apresentar um Manifesto da Indústria da Amazônia na COP da Floresta, através da empresária Regia Moreira, coordenadora da Agenda ESG da entidade. Este Manifesto será apresentado na Coluna Follow Up para conhecimento geral. 

Há um equívoco histórico que a COP da Floresta tem a chance de corrigir: o Brasil continua discutindo a Zona Franca de Manaus como se fosse um caso isolado, enquanto ela é um dos mais bem-sucedidos instrumentos de preservação da história ambiental moderna.

Enquanto Rondônia e Pará beiram 20% a 30% de desmatamento, o Amazonas preserva cerca de 98% de sua cobertura nativa. Não é coincidência — é consequência. É indústria que protege floresta, e não o contrário.

Agora, a missão é expandir esse modelo:

da indústria convencional para a indústria florestal, da indústria urbana para a indústria do território, da indústria isolada para a indústria conectada às comunidades, aos rios, ao conhecimento tradicional e à ciência.

A nova ZFM não é apenas tributária — é climática, biotecnológica e agroflorestal.

O Brasil não pode mais tratar a Amazônia como periferia do futuro

A indústria da floresta precisa de três pilares:

1. Regularização fundiária imediata

Não existe bioeconomia com 70% de informalidade. Não existe crédito sem título. Não existe floresta em pé onde reina a insegurança jurídica.

2. Infraestrutura da dignidade

Conectividade, saneamento, energia limpa e logística de verdade. A revolução trazida pela Starlink é prova de que a distância amazônica é mais mental do que geográfica.

3. Ciência aplicada ao território

Não basta museus de biodiversidade — é preciso transformar biodiversidade em negócios: medicamentos, bioinsumos, proteínas, cosméticos, materiais avançados. A Amazônia é um laboratório vivo, mas ainda tratada como vitrine.

A COP da Floresta é a chance de o mundo ouvir a Amazônia produtiva

A Amazônia não precisa ser salva — precisa ser protagonizada. O que a destrói não é a presença humana, é a ausência do Estado, do mercado e da ciência. A indústria da floresta é a resposta madura para a pergunta que o planeta faz há décadas: como conciliar desenvolvimento e conservação?

A resposta é que devemos produzir sem destruir, regenerar produzindo, incluir distribuindo, inovar preservando. Essa é a Amazônia que queremos — e que podemos entregar ao mundo.

Uma Amazônia que deixa de ser cenário para se tornar projeto de país.


Follow-Up é publicada às quartas, quintas e sextas feiras no Jornal do Comércio do Amazonas, sob a responsabilidade do CIEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor geral do portal BrasilAmazôniaAgora

Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é consultor ambiental, filósofo, escritor e editor-geral do portal BrasilAmazôniaAgora

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