Relatos do Curupira sobre o Mapa do Caminho: O futuro não se negocia — se protege

Falaram em Mapa do Caminho lá nas terras de concreto e ar-condicionado, e eu, que guardo as veredas da floresta desde o primeiro trovão, escutei daqui, entre o som das cigarras e o cheiro da terra molhada. Fiquei pensando: eles querem desenhar o caminho que esqueceram de seguir. Mas caminho não se desenha, meus filhos — caminho se escuta. A terra fala, o vento sopra, o rio avisa. Só quem põe o pé descalço entende o rumo.

Dizem que esse mapa nasceu em Dubai, no meio do deserto. Lá onde o petróleo brota em vez de rio e o sol castiga sem floresta para amansar o calor. Agora o mapa chega à Belém, cidade que respira umidade e esperança. Vejo gente do mundo inteiro, uns de terno e gravata, outros de olhar cansado e fé no peito, tentando decidir o que eu já sei há séculos: não há futuro possível se a fogueira do homem continuar queimando o coração da Terra.

Marina, filha das águas, fala com o tom das folhas. André, o diplomata, costura palavras como quem tece cipó entre galhos frágeis.
E o presidente, que conhece o cheiro do barro, disse mais de uma vez:

E o vento também ouviu. Mas lá longe, nas terras de areia e fumaça, os donos do petróleo cruzaram os braços. Fecharam questão contra o mapa. Não querem abrir mão da riqueza que escorre negra e quente, como se não percebessem que ela é o suor da Terra febril, pedindo repouso.

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Floresta amazônica: museu em Belém busca preservar biodiversidade (Foto: Janailton Falcão/Amazonastur)

A França acenou com cortesia. Os outros ainda calculam ganhos e perdas, olhando o mundo por cima de planilhas, sem notar o chão que se move. E o Brasil, coitado e valente, carrega nas costas o peso e a honra de tentar ser farol. O Itamaraty teme o isolamento — e com razão. Mas quem anda comigo sabe: às vezes é preciso andar sozinho para ensinar os outros a voltar.

Eu, Curupira, sigo correndo entre as árvores. Meus pés voltados para trás confundem quem quer destruir, mas apontam o caminho certo a quem vem em paz. Se querem um Mapa do Caminho, olhem para mim. Sou o mapa, o aviso e a memória. Sou o guardião das trilhas que ligam o homem à sua origem. E se me ouvirem com atenção, saberão: o futuro não se negocia — se protege.

Em Tempo

De Nova Iorque, a ONU protestou, dizendo ser “uma questão de segurança”. Mas aqui, sob o sol amazônico, todos sabem: não é segurança — é justiça climática. Ou precisa desenhar

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

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