Do tráfico à corrupção, teia de crimes impulsiona exploração da Amazônia

Levantamento inédito do Instituto Igarapé revela de que forma a destruição da floresta alimenta uma cadeia de ilegalidades, que se estende a fraudes, homicídios e o comércio de armas e drogas

A destruição da Amazônia, que tem atingido níveis recordes no Brasil, ocorre passando por uma rede de ilegalidades. Por trás do desmatamento e da degradação da maior floresta tropical do planeta, está um conjunto de atividades econômicas ilícitas ou repletas de problemas: extração ilegal de madeira, mineração ilegal, grilagem de terras públicas e agropecuária com passivo ambiental.

A associação entre as práticas que agridem a floresta e crimes como tráfico de drogas, corrupção e lavagem de dinheiro foi mapeada em um estudo inédito, divulgado na segunda-feira (21) pelo Instituto Igarapé. 

A grilagem, por exemplo, que na região se caracteriza pela tomada de terras públicas, dá margem ao desmatamento ilegal e estimula a violência agrária, com ameaças e homicídios. A mesma prática está associada a crimes administrativos, como fraudes e corrupção. 

No estudo “O ecossistema do crime ambiental na Amazônia: uma análise das economias ilícitas da floresta“, os pesquisadores analisaram 369 operações da Polícia Federal no combate à criminalidade organizada na Amazônia, no período entre 2016 e 2021. O Igarapé apontou que mais de 60% das operações tinham como alvo simultâneo o combate aos crimes ambientais e à economia ilícita, que aparece com mais frequência no caso do desmatamento ilegal, na grilagem e na agricultura contaminada por ilicitudes.

“Esse é um primeiro estudo de uma linha de pesquisa em que buscamos entender o escopo, a escala e as dinâmicas do crime ambiental na Amazônia. Precisamos olhar a dimensão, o desafio como um todo. O crime ambiental não acontece sozinho: historicamente, tem sido menos priorizado, mas sabemos o que acontece quando vemos a ação das instituições”, define Ilona Szabó, cofundadora e presidente do Instituto Igarapé.

Entre os principais achados do levantamento, analisa Ilona, estão a descoberta do progressivo uso pelo tráfico de drogas dos mecanismos utilizados para o transporte de madeira ilegal e a expansão do uso de armas de fogo na região. 

A presidente do Instituto Igarapé também aponta a relevância de um estudo mais detalhado sobre a grilagem de terras e sua tipificação legal, e avalia a importância da tecnologia para enfrentar os delitos ambientais e os chamados crimes conexos. 

“As investigações da Polícia Federal apontam que estamos vendo uma conexão entre esses crimes [ambientais] e fraudes, crimes financeiros e tributários, tráfico de drogas, poluição e vários outros ilícitos que estão diretamente atrelados ao desmatamento ilegal e à destruição da Floresta Amazônica”, aponta.

Apesar do crescente reconhecimento da problemática da criminalidade organizada ambiental na Amazônia, dentro e fora do Estado brasileiro, faltam dados para a compreensão sistemática do fenômeno. Tais dados são apontados como fundamentais para apoiar uma resposta interinstitucional estratégica e eficiente ao problema, tanto nacional como regionalmente.

“Não estamos aqui tentando criminalizar o ‘peixe pequeno’, mas precisamos entender essas conexões para focar a atuação, tanto das instituições de fiscalização ambiental quanto das instituições de segurança pública e justiça criminal para desbaratar essas redes, que têm financiado, através dessas economias ilícitas, a devastação da floresta”, analisa Ilona.

O estudo identifica que o aumento da complexidade e da violência ligada ao crime ambiental na Amazônia aponta para importantes desafios de governança, coordenação estratégica e de inteligência, além de capacidade de dissuasão e responsabilização criminal de atores envolvidos com os ilícitos. Os desafios são cada vez maiores, indicam os pesquisadores, dada a crescente complexidade da cadeia do ouro e da madeira, que ultrapassam fronteiras e se vinculam a outras economias ilícitas, como o tráfico de drogas.

O cenário agrava-se, ainda, de acordo com o relatório, diante de fragilidades institucionais e insuficiente vontade política para responsabilizar atores envolvidos em atividades com grande impacto na taxa de desmatamento do país, como a grilagem de terras públicas e posterior uso do solo para atividades de agropecuária.

Fonte: Um só Planeta

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

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