Dia do Amazonas: vamos celebrar o quê? 

“A reativação da rodovia poderia mitigar essas desigualdades, promovendo a inclusão social e econômica de comunidades tradicionais da área de influência dos Rios Madeira, Purus, Amazonas e Negro, por onde ocorre 80% da economia dos Estados do Amazonas e Roraima, sem comprometer a integridade do bioma amazônico.”

Por Nelson Azevedo
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O Dia do Amazonas, comemorado em 5 de setembro, remete à criação da Província do Amazonas em 1850, sendo uma data carregada de significados históricos e culturais para a região. A extensão para o Dia da Amazônia traduz a dificuldade cognitiva do Brasil distante em discernir o Estado do Amazonas da Região Amazônica e suas inúmeras distinções. Importa, entretanto, meditar sobre os paradoxos de um estado e uma região que reúnem a riqueza imensurável de recursos naturais e abriga IDHs deploráveis em demografia empobrecida. 

300 mil desassistidos 

Ademais, na região e o estado, que abrigam 20% da água doce do planeta, em 2024, essa dádiva natural ocorre num contexto de crise aguda: a seca histórica que atinge a região pelo segundo ano consecutivo. Mais de 300 mil pessoas sofrem com a escassez de água, alimentos e outros recursos essenciais, agravando ainda mais a já precária infraestrutura local.

O Dia do Amazonas, comemorado em 5 de setembro, remete à criação da Província do Amazonas em 1850, sendo uma data carregada de significados históricos e culturais para a região. A extensão para o Dia da Amazônia traduz a dificuldade cognitiva do Brasil distante em discernir o Estado do Amazonas da Região Amazônica e suas inúmeras distinções. Importa, entretanto, meditar sobre os paradoxos de um estado e uma região que reúnem a riqueza imensurável de recursos naturais e abriga IDHs deploráveis em demografia empobrecida. 
Foto: Lalo de Almeida/Folhapress

Tragédia anunciada 

Essa ausência da previsibilidade evidencia a falta de planejamento e ação preventiva por parte das autoridades. As respostas governamentais, limitadas a medidas emergenciais como dragagem de rios e antecipação de benefícios sociais, mostram-se insuficientes diante da gravidade da crise e da tragédia anunciada. A seca não só ameaça a biodiversidade, mas também expõe a vulnerabilidade das populações ribeirinhas, que dependem diretamente dos recursos naturais para sua subsistência.

Injustas e desiguais 

O Dia do Amazonas, portanto, deve ser encarado como um momento para refletir sobre as políticas públicas voltadas para a região. No caso do Amazonas, situado entre os 8 estados que mais recolhem para a Receita Federal, fica explícito o desequilíbrio crônico na divisão das riquezas. Trata-se de um estado que mobiliza, a partir do Polo Industrial de Manaus, 30% da produção de riqueza de toda Região Norte. Como celebrar uma unidade federativa e uma região que são tratados com métricas tão injustas e desiguais?

O Dia do Amazonas, comemorado em 5 de setembro, remete à criação da Província do Amazonas em 1850, sendo uma data carregada de significados históricos e culturais para a região. A extensão para o Dia da Amazônia traduz a dificuldade cognitiva do Brasil distante em discernir o Estado do Amazonas da Região Amazônica e suas inúmeras distinções. Importa, entretanto, meditar sobre os paradoxos de um estado e uma região que reúnem a riqueza imensurável de recursos naturais e abriga IDHs deploráveis em demografia empobrecida. 
foto: Gisele Alfaia

Em vez de festas, SOS

É essencial que ações concretas e sustentáveis sejam implementadas, garantindo a resiliência da infraestrutura local e priorizando o bem-estar das comunidades. Sem essas medidas, o estado corre o risco de enfrentar crises cada vez mais frequentes e devastadoras, transformando uma celebração em um sonoro grito por socorro, SOS. 

Vamos ao exemplo da BR-319

Frequentemente citada como uma potencial catalisadora de desmatamento e degradação ambiental na Amazônia, no caso, os estados de Amazonas e Roraima. Críticos argumentam que sua reativação impulsionaria o avanço da fronteira agrícola e o aumento das atividades ilegais, como o corte de madeira e a grilagem de terras. Essas visões, entretanto, são simplificadas e não consideram os impactos socioeconômicos positivos que a reativação da rodovia pode gerar para a população da região. E quanto faria a diferença neste momento de vazante extrema dos rios na área de influência da BR-319? 

O Dia do Amazonas, portanto, deve ser encarado como um momento para refletir sobre as políticas públicas voltadas para a região. No caso do Amazonas, situado entre os 8 estados que mais recolhem para a Receita Federal, fica explícito o desequilíbrio crônico na divisão das riquezas. Trata-se de um estado que mobiliza, a partir do Polo Industrial de Manaus, 30% da produção de riqueza de toda Região Norte. Como celebrar uma unidade federativa e uma região que são tratados com métricas tão injustas e desiguais?

Oportunidade escancaradas

A reativação da rodovia, longe de ser ameaça, escancara múltiplas oportunidades para promover um desenvolvimento que não precisa ser destrutivo. Ou é melhor manter a floresta viçosa e as famílias desprotegidas? Aliás, os supostos depredadores estão lá e vivem sem a chancela do poder público. Com uma governança eficaz e mecanismos de controle ambiental, a rodovia pode impulsionar o desenvolvimento sustentável, melhorando o acesso a serviços essenciais e integrando comunidades isoladas ao resto do país.

Taxas absurdas

Desde 15 de agosto deste ano, a operadora de logística internacional CMA CGM passou a cobrar a “Taxa de Pouca Água” de US$ 5,7 mil (aproximadamente R$ 31,7 mil) por contêiner transportado para Manaus e da capital amazonense para o resto do mundo. Durante a seca severa de 2023, a taxa adicional foi de US$ 2,1 mil (aproximadamente R$ 11,6 mil) por contêiner. Com o modal terrestre, os valores, comparativamente, são irrisórios. De quebra, a estrada recuperada vai permitir que o poder público fiscalize efetivamente o patrimônio natural.

Bioeconomia, turismo e hortifruti

A melhor celebração cívica regional, Amazonas e Amazônia, será o provimento de infraestrutura adequada, que reduz os danos do isolamento de grande parte da população. A reativação da rodovia poderia mitigar essas desigualdades, promovendo a inclusão social e econômica de comunidades tradicionais da área de influência dos Rios Madeira, Purus, Amazonas e Negro, por onde ocorre 80% da economia dos Estados do Amazonas e Roraima, sem comprometer a integridade do bioma amazônico. Ou seja, a BR-319 pode ser um vetor para valorizar e fortalecer cadeias produtivas sustentáveis, como a bioeconomia e o turismo ecológico. Isso poderia, por sua vez, desestimular práticas predatórias e incentivar a conservação da floresta com a presença do poder público. Oremos.

Nelson Azevedo

Nelson é economista, empresário e presidente do sindicato da indústria Metalúrgica, Metalomecânica e de Materiais Elétricos de Manaus, conselheiro do CIEAM e vice-presidente da FIEAM.

FAQ

Como as autoridades têm respondido à crise?

As respostas governamentais têm sido limitadas a medidas emergenciais, como a dragagem de rios e a antecipação de benefícios sociais, mas estas são consideradas insuficientes diante da gravidade da crise.

Qual a importância da BR-319 no contexto da Amazônia?

A BR-319 é uma rodovia que, se reativada, poderia promover o desenvolvimento sustentável, melhorar o acesso a serviços essenciais, integrar comunidades isoladas e, ao mesmo tempo, evitar a degradação ambiental através de uma governança eficaz.

Por que a seca agrava as desigualdades no Amazonas?

A seca agrava as desigualdades, pois já existe uma infraestrutura precária na região. Além disso, a falta de recursos e a alta cobrança de taxas logísticas aumentam os custos de vida, penalizando ainda mais a população.

Como a reativação da BR-319 pode beneficiar a região?

A reativação da BR-319 pode diminuir o isolamento de comunidades, facilitar o transporte de produtos, reduzir custos logísticos, e potencialmente promover cadeias produtivas sustentáveis, como a bioeconomia e o turismo ecológico.

Quais são as críticas à reativação da BR-319?

As críticas apontam que a reativação da BR-319 pode incentivar o desmatamento e o avanço da fronteira agrícola, além de aumentar atividades ilegais como o corte de madeira e a grilagem de terras.

Qual a relação entre a BR-319 e as taxas logísticas elevadas?

Devido à seca, as taxas de transporte fluvial aumentaram significativamente. A reativação da BR-319 poderia oferecer uma alternativa mais econômica e acessível para o transporte de mercadorias, aliviando a pressão sobre os custos logísticos.

Nelson Azevedo
Nelson Azevedo
Nelson Azevedo é economista, empresário, presidente do Sindicato da Indústria Metalúrgica, Metalomecânica e de Materiais Elétricos de Manaus, conselheiro do CIEAM e vice-presidente da FIEAM

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