Desmatamento na Amazônia responde por 74% da perda de chuvas na estação seca

Pesquisadores da USP mostram que o desmatamento na Amazônia já compromete rios voadores e acelera o aquecimento durante a estação seca. Além de aumentar incêndios e ameaçar a resiliência climática amazônica.

Um estudo publicado na Nature Communications e liderado por cientistas da Universidade de São Paulo (USP) quantificou pela primeira vez os impactos específicos das mudanças climáticas globais e do desmatamento na Amazônia. A pesquisa mostra que a perda da floresta é responsável por cerca de 74,5% da redução das chuvas e por 16,5% do aumento da temperatura nos meses de seca.

A análise abrangeu 35 anos (1985-2020) e utilizou dados ambientais, atmosféricos e de cobertura da terra em 2,6 milhões de km² da Amazônia Legal. Os resultados indicam que a estação seca perdeu, em média, 21 milímetros de chuva por ano, sendo 15,8 mm diretamente ligados ao desmatamento. Já a temperatura máxima subiu cerca de 2 °C no período, com a perda florestal respondendo por parte desse aumento.

Os cientistas destacam ainda que o desmatamento compromete os “rios voadores”, fundamentais para o transporte de umidade que alimenta chuvas em outros biomas, como o Cerrado. A degradação também intensifica a estação seca e aumenta o risco de incêndios. Entre 1985 e 2023, a Amazônia brasileira perdeu 14% de sua vegetação nativa, o equivalente a 553 mil km², principalmente para a formação de pastagens.

Gráfico mostra a contribuição percentual do desmatamento na Amazônia e das mudanças climáticas globais na redução das chuvas e aumento da temperatura na floresta.
Estudo aponta que o desmatamento responde por 74,5% da perda de chuvas e por 16,5% do aumento da temperatura na Amazônia. Foto: Marco Aurélio Franco et.al/Nature Comm.

Segundo os pesquisadores, o impacto do desmatamento na Amazônia é mais intenso nos estágios iniciais, entre 10% e 40% de perda de cobertura, quando as mudanças no regime de chuvas e temperatura se tornam mais acentuadas. “Temos que preservar a floresta, isso fica muito claro. Não podemos transformá-la em outra coisa, como áreas de pastagem”, afirma o professor Marco Aurélio Franco, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG-USP), um dos autores do estudo.

Os autores alertam que a continuidade do desmatamento pode reduzir ainda mais a precipitação e elevar as temperaturas, comprometendo a resiliência do bioma. A pesquisa reforça a urgência de políticas de conservação, tema central da COP30, que será realizada em novembro em Belém (PA).

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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