A desconexão de Manaus com o mundo

Uma grande solução seria refletir a partir das hidrovias, com diferentes terminais hidroviários para cada calha de rio. Também é oportuno uma estrutura de terminal rodoviário que seja integrado de alguma forma com estes rios e aeroporto. A área urbana da cidade ainda é relativamente pequena, frente ao seu potencial.

Por Augusto Cesar Barreto Rocha
_______________________

É arcaica e inferior ao necessário a infraestrutura para conectar Manaus com o mundo. A começar pelas instalações portuárias improvisadas para barcos regionais no Centro da cidade, com o estranho nome de “Manaus Moderna”, completamente incompatível com o que se vê.

Os rios são, para o interior do Estado, o que as ferrovias são para o interior da Europa ou as estradas para o interior de São Paulo. Deveríamos ter um terminal intermunicipal e interestadual exemplar, pois possuímos a maior bacia hidrográfica do mundo.

Na conexão rodoviária precisaríamos possuir uma rodoviária exemplar, pois Manaus é uma cidade-Estado, abrigando praticamente a metade da população do Amazonas e com uma arrecadação expressiva em razão do Polo Industrial de Manaus.

Deveria haver uma grande rodoviária, com acesso fácil para todo o interior conectado por rodovias ou pelo “rô-rô caboclo” (misto de transporte rodoviário e de veículos em balsas para os trechos de rio), bem como o transporte para os Estados vizinhos onde exista a mesma condição. Não é o que se vê, pois também há um descaso – a rodoviária está antiga e sequer recebe as evoluções normais de manutenção.

Manaus
Rodoviária de Manaus – Foto: Lane Gusmão/Rede Amazônica

A terceira oportunidade para uma melhor conexão da cidade com o mundo é o aeroporto internacional, que faz tempo que poderia ser um concentrador (“hub”) de voos para o Norte da América do Sul. Este projeto é acalentado e costuma entrar e sair da pauta ao longo dos últimos anos.

aeroporto manaus infraero
Foto: Divulgação/Infraero

A oportunidade segue lá, com uma vantagem geográfica ímpar, capacidade instalada, gestão na iniciativa privada, mas ainda dependente de apoio privado (empresas aéreas), estadual (incentivos singelos e robustos) e federal (regulatório e de apoio político) para o intento.

Estas três dimensões de oportunidades possuem um potencial transformador. Pequenas e grandes iniciativas poderiam ser encampadas pela sociedade local em cada uma destas questões, mas o que se vê são projetos que não possuem a visão sistêmica, nem o rito para a sua realização sendo cumprido.

A infraestrutura de transportes é um grande indutor das atividades econômicas do futuro, não ao contrário, como se pensa usualmente. Primeiro surge a rota oportunizada pela infraestrutura – a atividade econômica vem depois. As rotas da seda surgem antes dos negócios da China.

Para termos um Amazonas mais próspero e senhor de seu desenvolvimento e atividades econômicas pujantes para o caboclo, para o ribeirinho ou para a multinacional, precisaremos começar a considerar mais importante os “menores”. Enquanto as populações tradicionais, mais pobres e com menos recursos seguirem a ser desprezadas nas obras de infraestrutura, não teremos como construir um Amazonas próspero. O exemplo da Europa e de suas ferrovias sempre surgem nos sonhos brasileiros, por algum saudosismo imaginário. Falta adequar este sonho com a nossa geografia e orçamento disponível.

Enquanto não fizermos o que a boa prática de Engenharia contemporânea defende, seguiremos a fazer projetos não sistêmicos e as oportunidades seguirão desperdiçadas.

Uma grande solução seria refletir a partir das hidrovias, com diferentes terminais hidroviários para cada calha de rio. Também é oportuno uma estrutura de terminal rodoviário que seja integrado de alguma forma com estes rios e aeroporto. A área urbana da cidade ainda é relativamente pequena, frente ao seu potencial.

Tenhamos a consciência de que a hora é agora para adotar as melhores práticas e corrigir no presente os erros do passado. A cada dia que se adia o enfrentamento destes problemas ou seguirmos a pensar em obras isoladas, perpetuaremos os equívocos e imporemos ao futuro um custo cada vez maior e, certamente, desnecessário. Há de se modernizar as reflexões, com simulações computacionais e integração sistêmica dos transportes de Manaus com o Amazonas e com o mundo.

12 270x300 1

Augusto Cesar é professor da UFAM

Augusto Rocha
Augusto Rocha
Augusto Cesar Barreto Rocha é professor da UFAM

Artigos Relacionados

O mundo mudou — e a Amazônia precisa reagir antes de ser empurrada

Entrevista | Denis Minev ao Brasil Amazônia Agora Empresário à...

Inmetro reposiciona a regulação como aliada da competitividade na Amazônia

"Aproximação com o Polo Industrial de Manaus, expansão da...

Do silêncio à dignidade: dois anos de escuta, compromisso e transformação

"Dois anos de escuta que transformam silêncio em proteção,...

Facções na Amazônia transformam crimes ambientais em negócio lucrativo

Estudo revela como facções na Amazônia exploram crimes ambientais, ampliam lucros ilegais e intensificam conflitos e impactos socioambientais.