Sustentabilidade econômica: o debate que o Amazonas nunca enfrentou

Há décadas, o Amazonas se acostumou a um discurso único: somos o estado mais preservado do Brasil, com 97% da cobertura florestal intacta. Essa frase é repetida em eventos, banners, discursos oficiais e documentos estratégicos. Ela virou slogan, virou escudo, virou identidade.

Mas esse número — impressionante, legítimo, motivo de orgulho — esconde uma contradição que agora começa a se tornar insustentável.

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 Foto: Getty Images

E o Amazonas vem fingindo que existe.

Sustentabilidade, por definição, exige equilíbrio de sistemas. E no Amazonas, esse equilíbrio nunca existiu. A floresta permaneceu preservada não porque criamos um motor econômico de base florestal, não porque investimos em bioeconomia, ciência, interiorização ou transformação produtiva dos recursos naturais.

Ela permaneceu preservada porque dependíamos de um mecanismo fiscal externo, que garantia receita sem exigir diversificação econômica.

Esse modelo funcionou por um tempo — mas não era sustentabilidade; era dependência.

Hoje, o choque é inevitável. Com a Reforma Tributária, o tapete fiscal começa a ser puxado. E quando o fluxo financeiro de um Estado depende de uma regra que mudou fora dele, o abalo não é moral — é estrutural.

É o gradiente entre o “97% preservado” e o “economicamente frágil” se tornando finalmente perceptível — como um barco que sempre flutuou por milagre e agora encosta na pedra.

Porque quando o dinheiro diminui, as contradições aparecem.

E talvez seja essa a pergunta que mais precisamos enfrentar:

De que adianta proteger 97% do território se 97% das pessoas vivem sem perspectivas de prosperar nele?

A floresta em pé não pode ser um troféu pendurado na parede enquanto a sociedade ao redor se deteriora. Isso não é sustentabilidade. É narrativa.

E narrativas não pagam contas, não formam mão de obra, não retêm talentos, não criam autonomia.

Sustentabilidade ambiental sem sustentabilidade econômica é apenas uma pausa.

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E a pausa acabou.

A floresta pode continuar em pé. Mas para isso, o povo também precisa ficar de pé. E essa é a parte do debate que o Amazonas sempre evitou – até agora.

Estevao Monteiro de Paula
Estevao Monteiro de Paula
Estevão Monteiro de Paula possui graduação em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Amazonas (1979), mestrado em Engenharia de Estruturas na Escola de Engenharia de São Carlos pela Universidade de São Paulo (1981) e Ph.D. – University of Tennessee (1989) dos EUA. Membro da comissão de revisão da ABNT NBR 7190:1997 – Norma de Calculo e Estrutura de Madeira da Associação Brasileira de Normas Técnicas. Exerceu atividades de Presidente do Instituto de Proteção Ambiental do Estado do Amazonas (órgão estadual de meio ambiente), Gerente do Centro Técnico Operacional de Manaus do Sistema de Proteção da Amazônia – SIPAM, Diretor Substituto do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – INPA e Coordenador Geral de Pesquisas do INPA. Representou o Estado do Amazonas em comissões técnicas no Peru e Alemanha. Coordenou projetos de pesquisas na área de uso e tecnologia de Madeira, entre outras funções como gestor público de Meio Ambiente, Ciência e Tecnologia.

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