Ataque à cultura e à arte: os “manés” perderam, ou seja, todos nós!

A democracia é algo que deve abranger toda a sociedade e todas as suas facetas. Com a cultura e com a arte não poderia ser diferente. As peças e objetos de arte atingidos pelos atos golpistas não são propriamente dos tempos atuais. Remontam a diversas épocas, de séculos diferentes umas das outras. A arte destas épocas era diferente da arte popular atual. Tanto a cultura e a arte de outros tempos como as atuais devem ser respeitadas, valorizadas e protegidas.

Por Farid Mendonça Júnior
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Quando a cultura do Brasil nasceu? Quando a arte eminentemente brasileira apareceu pela primeira vez? Foi somente com a Independência do Brasil ou só com a Proclamação da República? Ou talvez somente com o Modernismo na Semana de Arte Moderna? Será que tanto a cultura e a arte brasileiras só passaram a existir quando o povo brasileiro já existia? E quando se deu isso?

Faço estas perguntas como reflexão que devemos fazer, haja vista o fato de termos sido colonizados e termos “importado” a cultura e a arte europeia, principalmente, no começo, a do nosso colonizador. Num tempo em que ainda não tínhamos o Brasil, mas apenas a madeira. O Brasil era um adjetivo do pau, o pau-brasil. Matéria prima esta que os colonizadores extraíam para atender aos anseios de riqueza da colônia e do mercado europeu.

O processo foi longo até o substantivo surgir, ou seja, o Brasil propriamente dito. E o que dirá do surgimento do nosso povo, o brasileiro. Eu diria que foram séculos de construção do brasileiro, da tentativa de, no meio de tanta miscigenação, as vezes forçada como é o caso do negro trazido da África, para que então ganhássemos um contorno de identidade, de certa autonomia e de ser chamado e reconhecido como brasileiro.

Arrisco a dizer então que a arte já existia neste território que ainda não se chamava Brasil, que nem mesmo um país era e que não tinha um povo próprio, mas sim povos importados de outros continentes, miscigenados com os autóctones que aqui já existiam. Existia a arte importada, conforme já explicado, mas também existia uma arte própria, a arte dos povos originários, então chamados de índios.

Entretanto, a arte do povo originário foi destruída, saqueada, vilipendiada, “estuprada” pelo colonizador. Restaram apenas pedaços, pouquíssimas intactas, réplicas expostas em museus, e o que a arqueologia a duras penas consegue encontrar. As primeiras manifestações golpistas não ocorreram em 08 de janeiro de 2023, mas sim a partir de 1500.

Uma mesa aparece em primeiro plano no interior do Palácio do Planalto, em Brasília, com extremistas bolsonaristas de amarelo e bandeira do Brasil ao fundo.
Foto: Eraldo Peres/AP Photo/picture alliance

Eu não tenho a resposta para as perguntas acima. E o presente texto não vai tratar delas, mas sim da tentativa de entender o porquê a cultura e a arte foram duramente atingidas nas manifestações golpistas do dia 8 de janeiro de 2023 nas sedes dos três poderes.

Aviso aos navegantes: não tenho respostas, mas tenho perguntas, e muitas reflexões.

Como já é de conhecimento público, as manifestações golpistas que invadiram as instituições no dia 08 de janeiro de 2023 atacaram não só a democracia, mas também a cultura e a arte do Brasil, além de presentes recebidos de outros países.

Um relógio de pêndulo do século XVII de autoria do relojoeiro francês Balthazar Martinot (um presente do Rei Luís XIV da França para Dom João VI). A Obra “As Mulatas”, de Di Cavalcanti. A Obra “O Flautista”, de Bruno Giorgi. A Escultura de parede em madeira, de Frans Krajcberg. A Mesa de trabalho de Juscelino Kubitscheck. A Obra “Bandeira do Brasil”, de Jorge Eduardo. A Galeria dos ex-presidentes (todas as fotografias dos ex-presidentes da República foram arrancadas e destruídas). A escultura “A Justiça”, de Alfredo Ceschiatti. O Vitral “Araguaia”, de Marianne Perretti (https://www.istoedinheiro.com.br/confira-lista-de-obras-de-arte-e-objetos-danificados-por-golpistas/). Além de muitos outros itens e objetos.

Mas o que explica a fúria dos golpistas em atingir estes objetos? Em destruir esta arte? Em danificar e inutilizar? Se o intuito era tomar o poder, por quê que objetos de arte foram atacados?

Será que todos estes objetos e peças representariam para os golpistas a elite política, os parlamentares, o Presidente da República, os Ministros do Supremo Tribunal Federal?

Será que o ato de destruí-los foi uma consequência da fúria descontrolada que aquela multidão desenvolveu ao adentrar os prédios públicos? Ou foi algo previamente pensado e planejado?

A democracia é algo que deve abranger toda a sociedade e todas as suas facetas. Com a cultura e com a arte não poderia ser diferente. As peças e objetos de arte atingidos pelos atos golpistas não são propriamente dos tempos atuais. Remontam a diversas épocas, de séculos diferentes umas das outras. A arte destas épocas era diferente da arte popular atual. Tanto a cultura e a arte de outros tempos como as atuais devem ser respeitadas, valorizadas e protegidas.

Então, pergunto: será que há uma total desconexão destas peças e objetos de arte com o que os manifestantes golpistas entendem por arte? Será que eles valorizam algum tipo de arte?

Bem, o fato é que esfaquearam um Di Cavalcanti, fizeram uma barricada com a mesa de Juscelino Kubitscheck, jogaram na água a Bandeira do Brasil, e no chão a foto dos ex-Presidentes da República.

E ainda escreveram na estátua Justiça, de Alfredo Ceschiatti, “Perdeu, mané”. Mas esqueceram de colocar o sujeito da frase. Quem perdeu? Que sujeito oculto é este? Indeterminado ele não é! Pois este eu lhe digo. Quem perdeu foi o povo brasileiro! Ou seja, todos nós!

Aceitar tudo o que ocorreu de braços cruzados? Nunca. Para isso cito Darcy Ribeiro: “Só há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar. E eu não vou me resignar nunca”.

E para os manifestantes golpistas que acreditam terem vencido, mais uma vez Darcy Ribeiro brilhantemente nos deixou esta mensagem:

“Fracassei em tudo o que tentei na vida.
Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui.
Tentei salvar os índios, não consegui.
Tentei fazer uma universidade séria e fracassei.
Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei.
Mas os fracassos são minhas vitórias.
Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”.

Farid Mendonca Filho
Farid Mendonça Júnior é advogado, economista e administrador

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Farid Mendonça é advogado, economista e administrador