Pesquisa usa camisinhas para desvendar mistério de cigarras da Amazônia

Em estudo inusitado, pesquisadores desvendaram o papel de torres, construídas por cigarras da Amazônia, usando preservativos como ferramenta científica.

Um comportamento peculiar de uma espécie de cigarras da Amazônia, a Guyalna chlorogena, intriga pesquisadores há anos. Elas constroem estruturas cilíndricas de barro com urina, erguidas no chão da floresta. Agora, um estudo realizado por cientistas brasileiros trouxe respostas curiosas e o uso inusitado de camisinhas ajudou a desvendar o mistério.

Essas cigarras da Amazônia passam a maior parte da vida subterrâneas, alimentando-se da seiva de raízes. Quando chega à fase final do ciclo de vida, o inseto emerge para sofrer metamorfose e, nesse processo, constrói pequenas torres que se elevam noite após noite por semanas. Embora observadas há tempos por moradores e cientistas, a real função dessas estruturas seguia sem comprovação científica.

Torres de argila construídas por cigarras da Amazônia.
Foto: Divulgação/Instituto Serrapilheira

Durante uma expedição do Programa de Formação em Ecologia Quantitativa, do Instituto Serrapilheira, um grupo de pesquisadores decidiu investigar. Duas hipóteses surgiram, a primeira, que as torres funcionavam como abrigo contra predadores durante a metamorfose, fase em que as cigarras ficam imóveis e vulneráveis; a segunda, que elas atuavam como mecanismos de ventilação, facilitando trocas gasosas entre o solo pobre em oxigênio e o ambiente externo.

Para testar a segunda hipótese, os cientistas selaram as torres com preservativos. A ideia era que, se houvesse liberação de gás carbônico, os preservativos inflariam, o que de fato aconteceu, confirmando a função respiratória da estrutura. O experimento improvisado foi replicado com sucesso em diversas torres, e também se constatou que as estruturas das cigarras da Amazônia dificultavam o acesso de formigas predadoras, validando a primeira hipótese.

Cientistas monitorando torres feitas pelas cigarras da Amazônia.
Foto: Divulgação/Instituto Serrapilheira

Além da descoberta funcional, o grupo registrou a maior torre de cigarras do mundo, com 47 centímetros de altura, bem acima da média global de até 12 cm. Segundo o pesquisador Pedro Pequeno, do INCT-SinBiAm, o estudo preenche uma importante lacuna sobre a biologia das cigarras da Amazônia.

“Entender funções de estruturas biológicas é útil porque grande parte do que a gente faz no mundo é imitando processos naturais. Se conseguirmos compreender como essas torres funcionam, isso pode trazer inúmeras implicações, como sistemas de ventilação ou controle térmico”, afirmou Pequeno. O estudo resultará em um artigo científico com publicação prevista para os próximos meses.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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