Editorial BAA — SOS: calor excessivo e a temperatura dos infernos

O novo Panorama Climático das Favelas e Comunidades Invisibilizadas 2025, produzido pelo Teto e o Insper, confirma o que as ruas já sabiam: as ondas de calor são o maior vilão climático em 70% das comunidades brasileiras. Em cada casa de telha quebrada, em cada viela sem sombra, o sol se tornou inimigo íntimo.

Enquanto isso, as autoridades se abrigam em gabinetes climatizados e fingem que o inferno é ficção.

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Em São Paulo, na Bahia, no Amazonas ou no Paraná, as comunidades vivem cercadas de rios, mas morrem de sede. Quase 80% delas estão a menos de cem metros da água — poluída, contaminada, inalcançável. O que deveria ser vida virou ameaça: enchentes, alagamentos, doenças e lama.

O relatório é contundente: 71,4% enfrentam ondas de calor; 56,3%, tempestades; 53,8%, enchentes; 49,6%, falta de água.
Não há mais dúvida: o clima tem classe social.

A geografia da dor é a mesma da desigualdade — o mesmo CEP que sofre com o desemprego é o que também arde no asfalto quente.

calor excessivo
Pessoas que vivem nas ruas de São Paulo não conseguem água e sofrem com calor extremo – José Cicero/ Agência Pública

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O calor extremo não é um castigo da natureza. É um crime de Estado, alimentado por gasolina, diesel e gás. Enquanto o planeta pede ar, o Brasil insiste em subsidiar combustíveis fósseis, empurrando o povo para a fornalha.

As favelas são o termômetro mais cruel dessa dependência: o calor aprisiona, as doenças se multiplicam, a água falta. E a cada litro queimado, o país se aproxima um pouco mais da temperatura dos infernos.

Não é o Sol que está diferente — somos nós que estamos cegos.

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O estudo aponta soluções que deveriam ser óbvias: energia limpa, habitação resiliente, saneamento, drenagem, arborização, telhados frios, fundos comunitários de emergência e fortalecimento da Defesa Civil.

Mas o Brasil insiste em adiar o inevitável. Enquanto discute metas e conferências, a vida nas comunidades já está derretendo.
É preciso decretar um estado de emergência climática nacional — não para as manchetes, mas para os telhados de zinco, os becos inundados e os corpos que desidratam nas filas do SUS.

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A anti-visão do inferno

O que vivemos não é ficção apocalíptica. É o futuro atravessando a porta da frente. A cada onda de calor, um bairro se apaga.
A cada noite sufocante, um país inteiro esquece de respirar.

Se o Brasil não desligar o fósforo agora, a próxima geração vai herdar um território em chamas — sem floresta, sem vento e sem esperança.

A floresta em pé ainda pode ser a sombra que nos resta. Mas se continuarmos a queimar o que nos protege, então estaremos, enfim, vivendo dentro da profecia que fingimos não ouvir: a temperatura dos infernos já começou.

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

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