“A cobrança da The Economist sobre a dívida pública brasileira encontra uma pergunta anterior: o que se decide proteger quando se faz um ajuste? A campanha de Flávio Bolsonaro escolheu Javier Milei como referência; a experiência argentina permite examinar o custo social dessa escolha.”
A revista britânica The Economist olha para a eleição brasileira e vê um país incapaz de romper o impasse. Em seu editorial de 24 de setembro, atribui a Lula pouca disposição para conter despesas e afirma que nenhum dos principais candidatos oferece um plano crível para a dívida.
Sem redução do endividamento, argumenta, os juros permanecerão altos, faltará capital para elevar a produtividade e o crescimento seguirá aquém do potencial brasileiro. A cobrança é séria. Seu alcance, porém, depende das perguntas que vêm depois: quais despesas seriam reduzidas, quem suportaria o ajuste e que país surgiria ao final dele?
A dívida pública exige uma trajetória sustentável. Juros altos consomem recursos e restringem investimentos; ignorar essa conta seria imprudente. Mas transformar o seu crescimento numa explicação suficiente para os problemas brasileiros também encobre decisões políticas. Alimentação, atendimento médico, escola, ciência e fiscalização ambiental aparecem no orçamento como despesas. Na vida de quem depende deles, representam condições para trabalhar, aprender, produzir e continuar vivendo em seu território. O efeito de um corte precisa ser medido com a mesma disciplina aplicada ao saldo fiscal.
Foi nesse debate que a campanha de Flávio Bolsonaro trouxe Javier Milei para o palco da convenção que oficializou sua candidatura, em julho. O presidente argentino defendeu o enxugamento do Estado e apresentou a própria experiência como exemplo para os brasileiros. Em setembro, Daniella Marques, coordenadora econômica da campanha, confirmou que as reformas de Milei serviriam de inspiração. Ela prometeu preservar programas sociais, como o Bolsa Família, e concentrar propostas de corte na máquina pública e em benefícios tributários. Cabe examinar essa promessa à luz das medidas que venham a ser propostas, com valores, prazos e efeitos identificados.
A experiência que subiu ao palco
A Argentina já enfrentava inflação e pobreza profundas antes da posse de Milei. Seu ajuste inicial agravou intensamente a situação: nos 31 centros urbanos acompanhados pelo instituto oficial, a pobreza alcançou 52,9% das pessoas no primeiro semestre de 2024, e a indigência, 18,1%. As taxas caíram nos períodos seguintes. No primeiro semestre de 2026, entretanto, a pobreza voltou a subir, de 28,2% para 32,3%, enquanto a indigência passou de 6,3% para 7,5%. Entre crianças de até 14 anos, 44,5% viviam em domicílios pobres.
O recuo posterior ao pico de 2024 deve constar da análise tanto quanto aquele pico e a nova alta de 2026. Esses números tampouco autorizam dizer que um terço dos argentinos esteja em indigência: o indicador é de pobreza, e os dois medem situações distintas. O que eles mostram com nitidez é o peso humano de uma estabilização conduzida com cortes abruptos, em uma sociedade que já chegara à crise socialmente exaurida. Apresentar a experiência como inspiração implica responder por esse custo, ainda que se proponha aplicá-la de outra forma no Brasil.
O próprio Brasil oferece um ponto de comparação que falta ao editorial britânico. A FAO registrou o retorno do país ao Mapa da Fome no triênio de 2019 a 2021, quando a prevalência estimada de subalimentação chegou a 4,1%. A pandemia contribuiu para a deterioração, em meio a escolhas e descontinuidades nas políticas de proteção social. Em 2025, a organização anunciou a saída brasileira do Mapa, calculada sobre o triênio de 2022 a 2024; em 2026, confirmou que o país permanecia fora dele. A média trienal ficou abaixo do limite de 2,5% usado pela FAO. Ainda há brasileiros passando fome, e milhões não conseguem custear uma alimentação saudável. O avanço, contudo, é mensurável e precisa entrar na avaliação das prioridades do gasto público.
O orçamento também escolhe um futuro
Na Amazônia, a distância entre uma rubrica cortada e seu efeito concreto pode ser medida em dias de viagem. O fechamento de uma equipe de saúde, a falta de professores ou o esvaziamento de um posto de fiscalização transferem o custo às famílias e ao território. Sem pesquisa, logística e crédito adequados, a promessa de produzir a partir da floresta em pé continua menor que seu potencial. Mesmo o Polo Industrial de Manaus depende de formação, infraestrutura e capacidade pública de coordenar uma estratégia que alcance o interior.
A pergunta dirigida aos candidatos, portanto, deve ser tão precisa quanto a cobrança da The Economist. Qual trajetória de dívida defendem e quais hipóteses sustentam suas contas? Quanto pretendem obter pela revisão de benefícios e privilégios? Que despesas preservariam para garantir alimentação, saúde, educação e proteção ambiental? Se o Congresso controla parcelas crescentes do orçamento por meio de emendas, como assegurar que esses recursos obedeçam a critérios públicos e a planos duradouros? Uma promessa de proteger programas sociais terá de resistir a essas respostas detalhadas.
O Brasil pode e deve discutir seus juros, sua dívida e a qualidade do gasto. Também dispõe de evidências recentes de que suas escolhas alteram a fome. Ao colocar Milei no centro da campanha, Flávio Bolsonaro ajudou a tornar visível a disputa entre diferentes prioridades. Seria um erro aceitar o veredicto de mais quatro anos perdidos antes de perguntar o que cada projeto econômico pretende salvar, o que aceita sacrificar e a quem entregará a conta.
Fontes
- ● The Economist, “Brazil turns its back on the future”, editorial de 24 de setembro de 2026, reproduzido nas imagens fornecidas pelo portal.
- ● Discurso de Javier Milei na convenção do PL, 25 de julho de 2026.
- ● Declarações de Daniella Marques sobre o plano econômico da campanha, Exame, 14 de setembro de 2026.
- ● INDEC, pobreza e indigência no primeiro semestre de 2026.
- ● FAO, retorno do Brasil ao Mapa da Fome no triênio 2019–2021 e saída no triênio 2022–2024.
- ● SOFI 2026, permanência do Brasil fora do Mapa da Fome.