“Bioeconomia é um projeto de país” alerta Vanessa Pinsky

“O alerta de Vanessa Pinsky, traduzido aqui em formato de entrevista para o portal BrasilAmazoniaAgora, é uma provocação para que o Brasil compreenda que a Amazônia não é uma “questão ambiental”, mas uma oportunidade geopolítica, científica e econômica. E que a bioeconomia não se fará sem vontade política, investimento público e privado e protagonismo dos povos da floresta.”

Confira a entrevista com a professora Vanessa Pinsky concedida exclusivamente ao portal Brasil Amazônia Agora com editor geral Alfredo Lopes

Vanessa Pinsky

Tema “A bioeconomia, a Amazônia e a viabilidade política de um projeto nacional de soberania e sustentabilidade”

Baseada em seu artigo Bioeconomia na pauta dos Conselhos”

Alfredo Lopes – ⁠Professora, qual o papel da bioeconomia no debate sobre o desenvolvimento nacional e a soberania brasileira?

Vanessa PinskyA bioeconomia é muito mais do que uma agenda de desenvolvimento socioeconômico com conservação ambiental, é um projeto de país. Ela é um eixo estruturante que nos provoca a refletir sobre como o Brasil lida com sua biodiversidade, sua ciência e sua inserção internacional. Quando tratamos do bioma amazônico, falamos de um banco genético de valor incalculável, cuja gestão requer visão de longo prazo e compromisso com os interesses nacionais e regionais. A soberania nesse contexto significa decidir sobre o uso, o acesso e a repartição dos benefícios gerados por essa riqueza com justiça social, responsabilidade ambiental e protagonismo local.

AL – O que falta para que o Brasil reconheça e sustente uma política pública na bioeconomia amazônica baseada na floresta em pé e com os rios fluindo?

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VPFalta ambição e engajamento de múltiplos atores para estruturar uma política pública de estado e não de governo. E isso implica integrar a bioeconomia às instâncias decisórias do Estado em todos os níveis por meio de uma estrutura de governança mais flexível. Por isso conselhos estratégicos — como os ligados à Casa Civil, ao MDIC e à Presidência da República — devem assumir esse tema como prioridade e não apenas como uma atribuição de uma secretaria vinculada ao Ministério do Meio Ambiente. 

Sem institucionalidade, a bioeconomia continuará sendo uma pauta periférica. É necessário dar voz aos territórios, aos cientistas, às populações tradicionais, e incluir os representantes da Amazônia em pé nas decisões sobre o futuro do Brasil e da Amazônia que os amazônidas querem.

AL – A senhora menciona que conselhos de Estado deveriam se apropriar dessa agenda. Por quê?

VP – Porque não se trata de um tema setorial. Bioeconomia diz respeito às pessoas dos territórios, à economia, à ciência, à educação, à diplomacia e à defesa. A Amazônia concentra uma riqueza que o mundo inteiro cobiça, e o Brasil precisa estar à altura desse desafio, criando mecanismos de governança flexível e multisetorial. Isso não pode ficar restrito a discursos ou programas isolados — precisa estar no centro do planejamento nacional, assim como do plano plurianual dos municípios. 

AL – Quais são os riscos de não levar a bioeconomia amazônica a sério como política de Estado?

VP – O maior risco é perder o controle sobre nossa própria biodiversidade e sua capacidade de resiliência para manter os serviços ambientais essenciais para os negócios, saúde e bem-estar das pessoas. A ausência de um marco legal claro, de fontes de financiamento público e privado e de protagonismode atores no nível local abre caminho para a biopirataria e facções do crime organizado, para o extrativismo predatório e para a perpetuação da desigualdade e pobreza na região. A bioeconomia pode ser motor de uma nova industrialização verde e inclusiva, mas só será isso se houver compromisso com a equidade e valorização dos saberes locais.

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Imagem gerada por Inteligência Artificial

AL – Que tipo de apoio institucional o Brasil deveria oferecer à Amazônia para que ela lidere essa transformação?

VP – Primeiro, reconhecimento político: é preciso incluir e fortalecer lideranças amazônidas nos conselhos estratégicos e na formulação de políticas. Segundo viabilizar investimento em ciência, tecnologia e inovação de base territorial, assim como capacitação das pessoas. Terceiro, fomento a arranjos produtivos locais, com infraestrutura, crédito e fomento de mercado. E, por fim, e mais importante, um pacto federativo que permita aos povos da Amazônia participarem da construção do futuro com autonomia e protagonismo.

AL – A senhora vê disposição no atual governo para essa virada?

VP – Sim, mas há um longo caminho a percorrer para sair da intencionalidade, tirar os planos do papel e viabilizar uma bioeconomia inclusiva centrada nas pessoas, no desenvolvimento socioeconômico dos territórios com conservação ambiental. Um dos principais desafios é a articulação política entre os ministérios e os conselhos para tratar da bioeconomia como política estratégica multisetorial. Lidar com grupos econômicos com interesses distintos nunca foi tarefa fácil na política pública. 

Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo, escritor e editor-geral do portal Brasil Amazônia Agora

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