A biodiversidade amazônica abriga milhões de espécies ainda desconhecidas da ciência. Nessa reportagem, revelamos por que a floresta concentra tanta vida, o que ainda não conhecemos e o risco de perder espécies antes da descoberta.
A biodiversidade amazônica é a maior do planeta e também a mais desconhecida da face do planeta terra. Resultado de milhões de anos de estabilidade climática e transformações geológicas, a floresta abriga um universo de espécies ainda invisíveis à ciência, com impactos diretos sobre o clima, a economia e o futuro sustentável do Brasil e do mundo.
Por que a Amazônia concentra tanta biodiversidade?
A Amazônia é o maior reservatório de vida do planeta. A biodiversidade imensa do bioma é resultado de milhões de anos de relativa estabilidade climática, combinados a uma história geológica dinâmica que moldou rios, solos e habitats.
O soerguimento da Cordilheira dos Andes, iniciado há dezenas de milhões de anos, mudou o curso dos ventos, das chuvas e dos rios do continente. Antes disso, a drenagem amazônica seguia em direção ao Pacífico. Com o avanço das montanhas, a umidade vinda do Atlântico passou a se concentrar na região, intensificando as chuvas e criando o cenário ideal para a expansão de vida.
Entre 23 e 10 milhões de anos atrás, grande parte da Amazônia ocidental foi ocupada por um imenso sistema de áreas alagadas conhecido como Sistema Pebas, um “pantanal continental” que isolou e reconectou populações ao longo do tempo. Esse vai e vem de barreiras naturais funcionou como um motor de diversificação biológica, favorecendo o surgimento de novas espécies.
Quando o Rio Amazonas finalmente inverteu seu curso, há cerca de 10 milhões de anos, conectando-se ao Atlântico, populações antes separadas se misturaram, enquanto outras foram isoladas. O resultado foi um mosaico ecológico extremamente complexo, base da megadiversidade atual.
O tamanho do desconhecido
Estima-se que a Amazônia concentre de 10 a 20% de todas as espécies conhecidas do planeta. Ainda assim, grande parte da biodiversidade amazônica permanece fora dos registros científicos. Esse vazio é conhecido como “déficit de Linneu” (Linnean Shortfall): a distância entre o número de espécies descritas pela ciência e o total que realmente existe.
O Brasil lidera a lista de países mais megadiversos do mundo, da UN environment programme, com cerca de 15% a 20% da biodiversidade global. A Amazônia concentra a maior fatia desse patrimônio. Só na região já foram registradas cerca de 15 mil espécies de plantas vasculares, mais de 2.700 espécies de peixes de água doce, cerca de mil espécies de aves e centenas de mamíferos, répteis e anfíbios. Mesmo assim, novas descobertas seguem em ritmo acelerado.
Entre 2014 e 2015, uma nova espécie foi descrita na Amazônia a cada dois dias. Nos últimos anos, mais de 2 mil espécies foram oficialmente identificadas, incluindo vertebrados de médio e grande porte, algo raro em outros biomas já amplamente catalogados.
O maior lacuna de conhecimento da biodiversidade amazônica está nos insetos, fungos e microrganismos do solo. Uma única colher de chá de solo pode abrigar até 1.800 formas de vida microscópicas, muitas ainda fora dos registros científicos, responsáveis por processos essenciais como a ciclagem de nutrientes e a fertilidade da floresta.
Esse desconhecimento tem consequências diretas. Com o avanço do desmatamento e da degradação ambiental, milhares de espécies amazônicas podem desaparecer antes mesmo de serem conhecidas pela ciência. Estima-se que mais de 8 mil espécies de plantas e 2.300 espécies de animais já estejam ameaçadas na região, o que pode significar a perda de potenciais alimentares, medicinais e tecnológicos ainda desconhecidos.
“Enquanto estou querendo chegar a um lugar que para a ciência é desconhecido, os madeireiros, a mineração já chegaram lá”, afirma Rodrigo Costa Araújo, primatologista especialista em saguis.
Por que é tão difícil conhecer a biodiversidade amazônica?
A Amazônia ocupa cerca de 7 milhões de km², espalhados por nove países. A dimensão continental, aliada à baixa infraestrutura, torna expedições científicas caras, longas e logisticamente complexas.
Grande parte do conhecimento disponível está concentrada ao longo de rios e próximos a cidades como Manaus e Belém. Regiões de interflúvio, serras isoladas e áreas de altitude seguem praticamente inexploradas. Além disso, a maior parte da biodiversidade vive nas copas das árvores, o dossel, uma “cidade suspensa” de difícil acesso.
Outro obstáculo é o tempo. Descrever uma espécie pode levar anos entre coleta, comparação em coleções biológicas, análises genéticas e validação por especialistas. O número de taxonomistas é insuficiente para acompanhar a velocidade das transformações ambientais.
Novas tecnologias, como o DNA ambiental (eDNA), ajudam a acelerar o processo ao identificar espécies a partir de vestígios genéticos presentes na água ou no solo, sem a necessidade de capturas diretas. Ainda assim, esses avanços não substituem a necessidade de investimento contínuo, equipes qualificadas e da integração com o conhecimento local, essenciais para transformar dados em conhecimento científico e políticas de conservação.
Espécies amazônicas presentes no cotidiano e que poucas pessoas percebem
A biodiversidade amazônica já faz parte do cotidiano global. A floresta é um dos principais centros de domesticação de plantas do mundo, moldada por povos indígenas há milhares de anos.
A mandioca, base alimentar de milhões de pessoas, teve origem amazônica. O cacau, hoje símbolo da indústria do chocolate, foi domesticado na bacia amazônica antes de ganhar o mundo. A castanha-do-brasil, o açaí, o cupuaçu e dezenas de outras espécies foram selecionadas e manejadas por gerações.
Óleos como andiroba, murumuru e pracaxi estão presentes em cosméticos e fármacos e resinas amazônicas fazem parte da perfumaria internacional. A fibra de curauá já é usada pela indústria automotiva como alternativa sustentável à fibra de vidro. Além disso, a Amazônia concentra uma vasta farmacopeia natural, com espécies como a quina e a copaíba, usadas há séculos na medicina tradicional e incorporadas à pesquisa farmacêutica moderna.
A Amazônia não é apenas um estoque de espécies: é uma infraestrutura viva que sustenta sistemas agrícolas, industriais e climáticos em escala continental. Conhecer e proteger essa biodiversidade é entender que o desconhecido na Amazônia não representa ausência, mas um enorme potencial ainda a ser revelado.