“À medida que a transição energética avança, o Brasil começa a tratar baterias como infraestrutura estratégica — e isso já se desenha no marco regulatório”
Em 2026, a transição energética deixou de ser uma promessa confortável e virou uma tarefa de engenharia — com prazo, custo, risco e reputação. Nessa virada, há um ponto que separa discurso de execução: armazenamento. Baterias não são acessório “verde”; são o componente que permite que energia renovável seja energia firme, sobretudo onde a rede não chega e onde o diesel ainda é rotina.
A etapa mais difícil da transição não é a do anúncio — é a do investimento. É o momento em que o projeto precisa ser bancável: regra clara, contrato claro, performance garantida, operação sustentada e risco controlado. O Brasil começou a encaixar uma peça importante desse quebra-cabeça com a Lei nº 15.269/2025, que trata da modernização do marco regulatório do setor elétrico e estabelece diretrizes para regulamentação da atividade de armazenamento de energia elétrica, incluindo incentivos relacionados a sistemas de baterias.
Em paralelo, a ANEEL vem avançando com consultas e publicações voltadas a remover barreiras e definir serviços e caracterizações dos recursos de armazenamento, além de divulgar orientações para instalação de sistemas de baterias com foco em segurança e compatibilidade com a operação do sistema.
Esse é o tipo de avanço que muda a pergunta do investidor. Em vez de “isso é possível?”, passa a ser: em que escala, com que remuneração e com que regra?
Na Amazônia, essa discussão deixa de ser conceitual. Transição energética aqui não é tema de painel — é serviço público. O próprio Manual do Programa Mais Luz para a Amazônia é explícito ao afirmar o objetivo de levar energia elétrica a populações em regiões remotas da Amazônia Legal que ainda não têm acesso a esse serviço público.
E quando o país assume que a universalização em áreas remotas tende a combinar sistemas fotovoltaicos (muitas vezes fora da rede) com armazenamento, ele assume também um desafio industrial, logístico e de manutenção que não cabe em powerpoint: o desafio de manter a luz acesa como rotina, não como evento.
É aqui que as baterias deixam de ser “tendência” e viram infraestrutura social.
O território, aliás, ensina o que o laboratório não ensina sozinho. A experiência da UCB Power com a Fundação Amazônia Sustentável na comunidade de Tumbira, na RDS do Rio Negro, é um retrato do que significa colocar armazenamento para funcionar onde tudo é mais difícil: acesso fluvial, clima extremo, manutenção rara, reposição complexa. A iniciativa foi divulgada como projeto pioneiro com baterias de íons de sódio, beneficiando 43 famílias e operando como “laboratório” para escalabilidade.
Os próprios dados técnicos publicados mostram a materialidade do que estamos discutindo: 20 módulos fotovoltaicos (7,5 kWp) e 16 baterias com cerca de 38,4 kWh de armazenamento.
O investimento reportado ficou em torno de R$ 1,2 milhão.
Esse tipo de projeto revela a verdade do “mapa do caminho” da transição: não basta instalar. É preciso garantir manutenção, treinamento, governança local, proteção de equipamentos, monitoramento e reposições. A transição falha quando o sistema vira sucata; ela vence quando vira rotina.
Se 2026 é o ano do “mais movimentos menos intenção” — menos espuma, mais chão — então o roadmap das baterias precisa ser tratado com franqueza, como uma sequência de decisões encadeadas e não como lista de desejos.
1- A primeira decisão é regulatória, mas não no sentido abstrato: é transformar armazenamento em ativo com papel claro no sistema, com serviços definidos, responsabilidades definidas, acesso e conexão previsíveis. A Lei 15.269/2025 abriu caminho ao estabelecer diretrizes e incentivos; agora o setor precisa de clareza suficiente para tornar projetos bancáveis em escala.
2- A segunda decisão é financeira: baterias exigem CAPEX relevante e, portanto, previsibilidade de receita, seguros, garantias, contratos de operação e manutenção, além de medição transparente do serviço prestado — porque o investidor não compra intenção, compra performance.
3- A terceira decisão é industrial e de soberania tecnológica: a Amazônia não pode depender de logística frágil para componentes críticos. Armazenamento precisa dialogar com política industrial, formação de fornecedores e capacidade local de manutenção — sob pena de virar dependência cara e frágil.
4- A quarta decisão é de engenharia de campo: calor, umidade, sazonalidade, acesso por rio, segurança patrimonial e conectividade mudam o padrão de projeto. O “BESS de slide” não sobrevive ao mundo real sem adaptação.
5- A quinta é humana e institucional: transição energética não é só tecnologia, é gente. Treinamento técnico, gestão comunitária, protocolos de operação, manutenção preventiva e governança de uso são o que separa o sistema vivo do sistema abandonado.
6 – sexta é ambiental e de responsabilidade: baterias e painéis têm ciclo de vida; a escala exige política séria de logística reversa e reciclagem para que a transição não crie um novo passivo.
E há uma sétima decisão, que atravessa todas as outras: evidência pública. A transição energética na Amazônia será atacada por caricaturas — seja por ceticismo, seja por oportunismo. O antídoto não é slogan; é fato verificável. Quilowatts entregues, diesel evitado, custo real do kWh ao longo do tempo, horas de serviço, impacto em saúde, educação e produtividade local — tudo medido e publicado. Quando se publica o que importa, a caricatura perde terreno.
No fim, a síntese é simples: a transição precisa de energia renovável, mas renovável precisa de armazenamento para virar confiabilidade. O Brasil está entrando numa fase em que baterias deixam de ser tema periférico e passam a ser infraestrutura estratégica, inclusive no marco regulatório.
E, na Amazônia, isso tem um significado ainda mais direto: luz contínua, oportunidade produtiva, segurança energética e dignidade.
Em 2026, o nome prático do avanço é um só: investir para escalar — e escalar sem abandonar ninguém no escuro.