Aterro em Iranduba: ideia de jerico, ideia de ojeriza

Nas últimas gerações os que vivemos na região metropolitana de Manaus pensamos assim, a cada nova fronteira de ocupação: “Agora sim, vamos aproveitar a chance de fazer algo bonito, aprazível, sustentável. Algo bem-feito, que nos dê motivo de orgulho”. Assim foi para a Ponta Negra, avenida do Turismo, a Ponte do Rio Negro, a avenida das Torres etc. Há até boa nova sobre uso das águas e solo: Finalmente o lixão da AM-010 está em vias de se tornar um aterro, com práticas ambientais adequadas.

Em contraste, em Iranduba ameaça-se estragar uma das principais chances da Região Metropolitana de Manaus provar sua capacidade de gestão ambiental: Um aterro concorrente na entrada do município de Iranduba, logo após a Ponte do Rio Negro.

A ponte do Rio Negro, além de linda, evidenciou aos milhões de manauaras o mundo de vida do outro lado do rio. Milhares de pequenos sitiantes cultivando o solo mais rico da Amazônia – a terra preta, abastecendo a região metropolitana com fartas e deliciosas frutas e hortaliças.

aterro em iranduba
Foto Chico Batata

A ponte levou a uma ocupação que ainda não é o melhor que poderíamos ter feito. Não obstante, os sitiantes deram o máximo de si para preservar o solo e as nascentes. E o êxito nesta dedicação tem lhes permitido continuar colaborando com o abastecimento da região metropolitana. 

Mas eis que emerge a tirania corporativa com vínculos políticos e ameaça pôr tudo a perder. Querem estabelecer um aterro por volta do km 19 da rodovia Manoel Urbano, um dos trechos de maior concentração de sítios e balneários. Anuncia-se que o projeto buscará receber lixo de todos os municípios da Região Metropolitana. Quais sejam, Itacoatiara, Presidente Figueiredo, Rio Preto da Eva, Manaus, Manacapuru e Iranduba.

Perceba, leitor, como a ideia consegue ser pior que um campus universitário irrealizado: Caminhões carregados de lixo viriam pela BR-174 e AM-010, passariam na frente do lixão de Manaus que será aterro, negando-se a descarregar nele, ingressariam no Tarumã e Ponta Negra, onde o trânsito já está caótico, e atravessariam a ponte até estragar o ar, solo e águas do atual cenário paradisíaco.

Se a ponte deve cumprir papel de integração entre os municípios da Região Metropolitana de Manaus, que todos seus prefeitos entrem em acordo para aproveitar a estrutura que já existe na AM-010. Eficiência. Ganho de escala. Se os municípios quiserem suas próprias soluções, em perspectiva descentralizada, que imitem Manaus e transformem seus atuais lixões em aterros. Menores, sim, mas modernos e flexíveis. Por óbvio, essa é a única solução com impacto ambiental em saldo líquido positivo.

aterro iranduba
Foto divulgação

Reconheço, não cabe querer que a empresa proprietária do imóvel se veja numa situação de não poder rentabilizá-lo. Oferto aqui, gratuitamente, uma dica: Faça naquele terreno o maior projeto de economia circular da região, tratando especificamente de insumos e produtos do PIM. São bens duráveis valiosos, fáceis de serem retornados ao mercado, e com empresas multinacionais ávidas para demonstrarem ganhos ambientais às suas matrizes no Primeiro Mundo.

Há grandes empresas de seu setor, concorrentes de outros estados, na iminência de realizar isso aqui. Ou seja, dá para ganhar dinheiro fazendo o certo, dormindo bem à noite com a consciência tranquila, e sem reforçar na população o sentimento de ojeriza à sua marca.

André Ricardo Costa
André Ricardo Costa
Doutor pela FEA USP e professor da UFAM

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