Amazônia, energia e memória

Coluna Follow-Up

Há imagens que ajudam a compreender um território mais do que muitos relatórios técnicos. Uma delas pertence à Manaus dos anos 1950, quando peças de uma refinaria atravessaram oceanos e rios para serem montadas, praticamente no braço, em plena Amazônia.

Não havia ainda a robustez institucional da Zona Franca de Manaus, nem o vocabulário contemporâneo da transição energética, do ESG ou da bioeconomia. Havia uma região tentando sobreviver ao colapso do segundo ciclo da borracha e procurando, entre isolamento logístico, precariedade energética e abandono político, uma maneira de continuar existindo economicamente.

Debate da ADI 7.963 e a recordação do passado

A ação discute o dispositivo da reforma tributária que preserva tratamento diferenciado, restrito e condicionado, para a atividade de refino localizada na Zona Franca de Manaus. Formalmente, trata-se de uma controvérsia tributária. Materialmente, porém, o que está em debate é algo mais profundo: o direito da Amazônia de adaptar seus instrumentos econômicos às suas próprias condições territoriais e históricas.

Amazônia como conceito abstrato

Quase sempre distante de sua geografia concreta. Poucas regiões do planeta convivem simultaneamente com distâncias tão grandes, dependência fluvial tão intensa, sazonalidade extrema dos rios e fragilidade logística tão permanente. Nessas circunstâncias, energia não é apenas insumo econômico. É infraestrutura civilizatória.

Combustível, na Amazônia, significa tudo que envolve transporte de alimentos, funcionamento de hospitais, geração elétrica para municípios isolados, abastecimento industrial, circulação de pessoas e continuidade mínima da vida econômica regional.

O papel dos Pioneiros da Amazônia 

Talvez por isso a figura de Moysés Israel retorne com tanta força à memória de quem acompanhou sua trajetória. Em idade já avançada, quando muitos prefeririam apenas contemplar suas realizações, ele seguia frequentando as discussões da Federação das Indústrias. Não estava ali apenas por causa da Fieam, do CIEAM ou das entidades empresariais. Estava por causa do Amazonas.

Seu percurso ajuda a compreender algo que parte do país ainda reluta em enxergar: os pioneiros da industrialização amazônica jamais pensaram energia, indústria e infraestrutura como privilégios fiscais. Pensavam como sobrevivência regional, integração territorial e construção de futuro.

image

Após o esgotamento do ciclo da borracha, Moysés Israel, Isaac Sabbá, Benchimol, Benzecry e tantos outros empreendedores de diferentes origens ajudaram a construir novas alternativas econômicas para o Estado. Organizaram empresas de beneficiamento de produtos florestais, abriram caminhos comerciais e trouxeram para Manaus uma refinaria numa época em que a Amazônia ainda parecia distante até mesmo da imaginação econômica brasileira.

Não havia romantização da floresta. Havia realidade.

E talvez seja precisamente isso que o debate contemporâneo às vezes perde de vista.

A discussão em torno da refinaria da Amazônia não deveria ser reduzida à caricatura simplista de “subsídio ao combustível fóssil”. Essa leitura ignora tanto a história quanto a complexidade regional. A própria geração daqueles pioneiros compreendia que o Amazonas não poderia depender eternamente de um único modelo econômico.

Moysés insistia na interiorização do desenvolvimento, na educação, na formação técnica, no fortalecimento da UFAM, da UEA, do SENAI, do CETAM e na necessidade de diversificação produtiva.

Sua geração nunca enxergou a refinaria como ponto final. Via-a como ponto de partida. Esse detalhe importa bastante.

Porque defender a estabilidade energética da Amazônia não significa negar a transição energética. Significa reconhecer que nenhuma transição séria se constrói sobre colapso logístico, fragilidade territorial ou desorganização econômica.

A Amazônia precisa avançar na bioeconomia, nas energias renováveis, na ciência, na inovação e nas novas matrizes produtivas da floresta em pé. Mas precisa fazê-lo a partir da sua realidade física e social, não de abstrações formuladas à distância.

O próprio espírito da Zona Franca de Manaus nasceu dessa compreensão. Seu diferencial competitivo nunca foi concebido como privilégio. Foi concebido como mecanismo de compensação territorial para integrar economicamente uma região submetida a desafios que o restante do país raramente experimentou.

É justamente isso que reaparece agora no debate pós-reforma tributária.

A Emenda Constitucional 132 preservou o diferencial competitivo da ZFM e atribuiu ao Congresso a tarefa de construir os mecanismos necessários para mantê-lo funcional dentro do novo sistema tributário. A controvérsia atual gira, no fundo, em torno dessa liberdade de adaptação.

Se qualquer recalibragem passar a ser interpretada como violação automática do modelo histórico, o risco será transformar a Zona Franca numa peça constitucional imóvel, incapaz de responder às mudanças econômicas, energéticas e tecnológicas do século XXI.

A Amazônia, que sempre precisou se reinventar para sobreviver, poderá acabar aprisionada justamente no momento em que mais necessita de flexibilidade para construir sua transição. Por isso a memória importa.

Ela recorda que antes das teses jurídicas existia o território. Antes dos discursos globais existia o isolamento. Antes dos conceitos modernos existia a luta concreta para manter a Amazônia integrada, abastecida e economicamente viva.

A história dos pioneiros amazônicos talvez ensine exatamente isso: desenvolvimento regional nunca foi resultado de fórmulas prontas. Sempre foi fruto de adaptação, coragem e compreensão profunda da realidade amazônica.


Follow-Up é publicada no Jornal do Comércio do Amazonas, às quartas, quintas e sextas feiras, sob a responsabilidade do CIEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes editor do brasilamazoniaagora.com.br

Luiz Augusto Rocha
Luiz Augusto Rocha
Luiz é advogado, empresário, presidente do Conselho Superior do CIEAM e vice-presidente da FIEAM.

Artigos Relacionados

BR-319: a estrada que pode redefinir o futuro da Amazônia

BR-319 reacende debate sobre logística, desmatamento, governança e o futuro do desenvolvimento sustentável na Amazônia.

Amazônia: potencial desperdiçado também no setor aéreo

"Entre gargalos logísticos e apostas regulatórias, a aviação na...

Expo Amazônia Bio&TIC 2026: a floresta entra definitivamente na era da inteligência

Idealizada por Vania Thaumaturgo, a quarta edição do evento...

Energia, o nervo exposto da economia global

"Economia global sob tensão: petróleo, guerras e transição verde...

Amazônia no centro do tabuleiro

"Com “Amazônia no centro”, o mundo voltou os olhos...

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor, insira seu comentário!
Digite seu nome aqui