Amazônia: El Niño pode reprisar a seca de 2005?

“Ainda não se sabe o alcance da próxima seca – que já está confirmada para a Amazônia – pois a ciência ainda não dispõe de instrumentos de precisão nem como estimar os movimentos e intensidade das ações de aquecimento do El Niño. A seca, porém, está prevista para o período 2023-24. Estamos debatendo o assunto, ou já tomamos alguma providência a respeito?”

Por Alfredo Lopes
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Uma das mais dramáticas secas que castigou a Amazônia, depois dos registros oficiais iniciados em 1903, ocorreu em 2005. Pesquisas posteriores, algumas coordenadas pela NASA, apontam detalhes dessa prolongada estiagem, destacando consequências que perduram até os dias atuais. As ações do El Niño eram desconhecidas até então. Foram 800 mil quilômetros quadrados, duas vezes o tamanho da Califórnia, metade do Amazonas, o maior estado do Brasil em extensão geográfica. Quem chancela as pesquisas mais recentes é a Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos.

Ainda não se sabe o alcance da próxima seca – que já está confirmada para a Amazônia – pois a ciência ainda não dispõe de instrumentos de precisão nem como estimar os movimentos e intensidade das ações de aquecimento do El Niño. A seca, porém, está prevista para o período 2023-24. Estamos debatendo o assunto, ou já tomamos alguma providência a respeito?

Amazônia: El Niño pode reprisar a seca de 2005?
Nascente seca de rio na bacia do Xingu, perto do Parque Indígena do Xingu – foto: Rogerio Assis

Embora haja registro de secas anteriores, a tragédia de 2005 pegou a todos desprevenidos. Literalmente sem um cantil d’água em pleno deserto. O governador da época era Eduardo Braga (PMDB-AM), que tratou de decretar estado de calamidade pública em todo o Amazonas. Ele vislumbrou na ocasião a gravidade da seca ter alcançado o leito do Rio Amazonas.

De uma hora pra outra, sem navegabilidade nos rios, começou a faltar comida, combustível, energia e água. Sim, água, na região que se orgulha de ser reservatório de 1/5 da água potável da Terra. “Estamos diante de uma seca no Amazonas que em meus 45 anos de vida nunca imaginei passar”, disse Braga à imprensa na ocasião. Suas ações, porém, mostraram prontidão, lucidez e eficácia.

O presidente da época era Luiz Inácio Lula da Silva, que determinou, de pronto, ao ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes, que viesse a Manaus e ao ministro da Defesa, Celso Amorim, que mobilizasse as três forças militares. E essas duas medidas foram vitais ao gabinete de crise, SOS Interior, para o enfrentamento da tragédia. Empresários e seus colaboradores, voluntários de toda parte se revezavam na preparação das cestas básicas, suprimentos de emergência, enquanto soldados eram destacados para perfuração de poços artesianos, helicópteros, aviões cargueiros, pessoal da saúde, uma verdadeira operação de guerra. Foi preciosa a participação do CMA, Claudio Figueiredo, e a logística das forças armadas para transporte de suprimnetos, medicamentos e equipamentos.

Seca em Silves AM em 2005. Foto Ana Cintia Gazzelli WWF 1
Seca em Silves (AM) em 2005. Foto: Ana Cintia Gazzelli/WWF

As calhas do Rio Madeira, Solimões, Juruá, Purus e Javari, as maiores da Amazônia Ocidental, foram igualmente açoitadas pela estiagem. E as previsões de chuvas eram desesperadoras. O que dá a medida da gravidade do evento. Para dar um exemplo, no município de Anori, a Defesa Civil contabilizou 37 comunidades isoladas. O lago de Anori, que dá acesso ao rio Solimões, secou. Um lago com 9.000 km2, único acesso do município ao Rio Solimões. Quem não é da região amazônica não alcança o significado de municípios que ficam a mais de mil quilômetros de distância de Manaus. Braga usou a mídia nacional para alertar a urgência da participação federal por causa da logística das Forças Armadas.

Ninguém falava em El Niño, e o debate do aquecimento global ainda não considerava as medidas drásticas assumidas no Acordo de Paris que, a propósito, ja se mostraram insuficientes. O importante desse momento trágico foram as medidas que daí foram tomadas, a transformação dos alertas em medidas de governo, especialmente aquelas que recomendam a tomada de consciência por parte da população. Afinal, quando se trata de Amazônia, sobre a qual os estudos sempre são incipientes à luz de sua evidente complexidade, não há lugar para amadorismo nem improvisação. Creiam os negacionistas ou não, o planeta está fervendo, a Amazônia sob risco e com ela toda a Humanidade. O amanhã já chegou.

Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo, escritor e editor-geral do portal Brasil Amazônia Agora

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