“A vergonha, portanto, não repousa sobre a bioeconomia que ainda engatinha. Ela recai sobre os que, dispondo dos meios, vacilam em mudar o destino de uma das regiões mais estratégicas do planeta. Ainda há tempo. Mas, como aprendemos com o ritmo lento dos rios e o furor imprevisível das cheias, o tempo amazônico é paciente, mas tem limites. Como diz Rocha, “…só poderemos transcender o pessimismo sobre a Amazônia quando começarmos a perceber um uso responsável de seus recursos e um encolhimento da fome e da pobreza no seu interior profundo.” Afinal, ninguém pode adiar direitos e benefícios para sempre.”
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Ao analisar as reflexões de Augusto Rocha, expressas em seu artigo “Bioeconomia Envergonhada” publicado pelo Centro da Indústria do Estado do Amazonas (CIEAM), é impossível não compartilhar do incômodo que atravessa suas linhas: o constrangimento não pertence, propriamente, à jovem e ainda incipiente bioeconomia da Amazônia, mas recai sobre os formuladores de políticas públicas que, apesar dos discursos recorrentes, hesitam em adotar as medidas necessárias para impulsionar a diversificação econômica e a interiorização do desenvolvimento no Estado do Amazonas.
A urgência de políticas públicas corajosas
Essa constatação é reforçada pela contribuição acadêmica que Rocha e seus pares da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) oferecem na obra “Estudos da Bioeconomia no Amazonas” (Editora Valer), um compêndio que reafirma, com rigor técnico e sensibilidade amazônica, a premência de construir políticas públicas ancoradas na realidade local e na valorização sustentável dos ativos florestais.
Um paradoxo evidente
O Amazonas desponta entre os maiores contribuintes para a Receita Federal e para os cofres estaduais, a quem repassa anualmente R$4 bilhões aproximadamente, para interiorizar a economia, qualificar os jovens, fomentar micro e pequenas empresas. Tudo isso graças ao vigor industrial do Polo Industrial de Manaus (PIM), que gera empregos, tecnologia e arrecadação em larga escala. No entanto, amarga a vergonha nacional de abrigar 11 municípios entre os piores Índices de Desenvolvimento Humano (IDHs) do Brasil.

O caminho para superar a vergonha
Augusto Rocha, em sintonia com a visão que defendemos há décadas, aponta o caminho com a clareza dos que compreendem o tempo amazônico e seus desafios estruturais. É preciso:
– Fortalecer a Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) com foco na biodiversidade, resgatando o papel histórico do INPA e de outras instituições de ciência amazônica;
– Reformular os Processos Produtivos Básicos (PPBs) da Zona Franca para integrar cadeias produtivas da bioeconomia, conectadas à floresta em pé e às populações locais;
– Implantar métricas rigorosas de ESG, com indicadores de impacto social e ambiental que não se limitem a auditorias de prateleira;
– Difundir e fortalecer o selo “ZFM +ESG”, transformando-o em padrão de competitividade global, elevando a marca amazônica aos mercados mais exigentes do mundo;
– Fomentar a interiorização da economia, investindo nas vocações municipais, com projetos de bioindústrias regionais e programas de capacitação em bases sustentáveis.

Políticas públicas vacilantes
A vergonha, portanto, não repousa sobre a bioeconomia que ainda engatinha. Ela recai sobre os que, dispondo dos meios, vacilam em mudar o destino de uma das regiões mais estratégicas do planeta. Ainda há tempo. Mas, como aprendemos com o ritmo lento dos rios e o furor imprevisível das cheias, o tempo amazônico é paciente, mas tem limites. Como diz Rocha, “…só poderemos transcender o pessimismo sobre a Amazônia quando começarmos a perceber um uso responsável de seus recursos e um encolhimento da fome e da pobreza no seu interior profundo.” Afinal, ninguém pode adiar direitos e benefícios para sempre.
