A agricultura do futuro é feminina

Se a agricultura do passado foi extrativista, a do presente precisa ser regenerativa. E a agricultura do futuro, sem dúvida, será feminina, inclusiva, biológica e brasileira

Foi ao vivo no rádio, mas com potência de um manifesto. Ao agradecer Cássia Godoy e Milton Young da CBN Brasil, pela companhia e noticiário de todos os dias a caminho da Embrapa Soja, Maria Ângela Hungria emocionou o país com a simplicidade de quem sabe o valor do que carrega. Primeira mulher brasileira a receber o World Food Prize — o “Nobel da Alimentação” —, ela representa uma virada histórica não apenas para a ciência agrícola, mas para a própria ideia de civilização.

No seu depoimento, ela afirma sem hesitar: a agricultura do futuro é feminina. E não se trata de uma metáfora. Trata-se de uma mudança real, concreta, que começa no campo das ideias e floresce em cada hectare poupado pela ciência dos micro-organismos.

Ciência com vocação de infância

A trajetória de Maria Ângela começou aos oito anos, inspirada por sua avó, professora de ciências. No auge da Revolução Verde, ela ousou questionar o paradigma dominante da produtividade baseada em insumos químicos. Em vez de seguir o fluxo da indústria, apostou em algo invisível: os micro-organismos capazes de fornecer nutrientes às plantas sem agredir o solo ou a vida.

Foi chamada de solitária. Hoje, é laureada.

agricultura do futuro
Foto divulgação

Biologia, economia e soberania

A revolução que ela ajudou a construir é silenciosa, mas gigantesca. O Brasil é hoje líder mundial em uso de insumos biológicos na agricultura. Só na soja — carro-chefe da sua pesquisa —, 85% da área plantada utiliza micro-organismos que fixam nitrogênio do ar, sem necessidade de fertilizante químico. O resultado? Uma economia de US$ 25 bilhões por safra e uma redução de 240 milhões de toneladas de CO₂ equivalente.

Mais do que um avanço técnico, isso é uma declaração de soberania, especialmente num país que importa 85% dos fertilizantes que consome.

Inovação com inclusão

Maria Ângela não defende uma agricultura de nicho, alternativa ou caseira. Seu projeto é ambicioso: levar a agricultura biológica para todos os tipos e tamanhos de produtores, sem comprometer produtividade ou renda. “Não temos o direito de pedir que o agricultor ganhe menos em nome do planeta”, diz.

Essa é a diferença entre um discurso bonito e uma política transformadora: a agricultura sustentável precisa ser economicamente viável.

O papel das mulheres na segurança alimentar

Ao homenagear suas alunas, colegas e parceiras de campo, Maria Ângela ressignifica o lugar das mulheres na agricultura. Elas estão em todos os elos da cadeia — da preservação das sementes ao preparo dos alimentos, da extensão rural à pesquisa de ponta. E o que ela defende é mais do que representatividade: é um novo paradigma agrícola baseado no cuidado, na regeneração e na ciência com propósito.

A agricultura do futuro, segundo ela, não será marcada pela abertura de novas fronteiras, mas pela intensificação sustentável daquilo que já temos. Isso é inovação com responsabilidade. É técnica com ternura. É — com todas as letras — uma agricultura com alma feminina.

Virar a chave civilizatória

A história de Maria Ângela Hungria nos lembra que há outros caminhos possíveis para os velhos dilemas da humanidade. Que é possível produzir mais sem destruir. Que é possível inovar sem excluir. Que é possível cultivar o futuro sem apagar a floresta.

Ela é a prova viva de que a ciência pública — paciente, dedicada e voltada ao bem comum — é a chave para virar a página de uma civilização predatória.

Se a agricultura do passado foi extrativista, a do presente precisa ser regenerativa. E a agricultura do futuro, sem dúvida, será feminina, inclusiva, biológica e brasileira

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