A Terra Prometida da Floresta

Coluna Follow-Up

Às vésperas de um encontro dedicado à presença judaica na Amazônia, vale olhar para essa história como algo que continua acontecendo. Há mais de dois séculos, homens e mulheres atravessaram oceanos, penetraram rios, construíram famílias, casas comerciais e comunidades e, pouco a pouco, deixaram de ser estrangeiros diante da floresta. A Amazônia os transformou enquanto também era transformada por eles.

A expressão Terra Prometida, neste contexto, tem história. Samuel Benchimol recorreria à ideia da Eretz Amazônia para interpretar a travessia dos judeus marroquinos que encontraram na região possibilidade de liberdade, trabalho e reconstrução da vida.

A metáfora merece ser retomada hoje por uma razão adicional. Aquela Terra Prometida nunca chegou pronta. Precisou ser construída.

Da Península Ibérica aos rios amazônicos

A história começa muito antes da chegada ao Amazonas. A perseguição aos judeus na Península Ibérica, as expulsões do final do século XV e os deslocamentos posteriores espalharam comunidades sefarditas pelo Mediterrâneo e pelo norte da África. O Marrocos tornou-se um dos lugares onde essa memória sobreviveu durante séculos.

Quando as transformações políticas e econômicas do século XIX abriram novas possibilidades no Brasil, famílias judaico-marroquinas começaram a atravessar o Atlântico em direção à Amazônia.

Belém foi uma das principais portas. Manaus, outro polo importante. Dali, muitos seguiram pelos rios. Foram para Santarém, Óbidos, Parintins, Itacoatiara, Tefé e tantas outras localidades nas quais comércio, navegação e extrativismo constituíam a economia possível.

É importante observar a geografia dessa história. Os rios fizeram o papel que hoje cabe às redes digitais. Transportavam mercadorias, informações, notícias, crédito e confiança. O comerciante precisava conhecer distâncias, cheias, vazantes, comunidades, fornecedores e compradores. Precisava aprender a Amazônia.

E precisou aprender também a pertencer. A adaptação foi tão profunda que a literatura histórica registra a figura singular dos chamados judeus-caboclos. Famílias preservaram elementos de sua religião e memória enquanto incorporavam alimentação, hábitos, linguagem e modos de viver profundamente amazônicos.

Sinagogas permaneceram. Cemitérios permaneceram. Sobrenomes permaneceram. Mas permaneceu sobretudo uma cultura de comunidade.

É difícil compreender a contribuição judaica à Amazônia apenas pela contabilidade das empresas que criou ou das atividades comerciais que desenvolveu. Sua influência atravessa educação, filantropia, ciência, cultura, instituições e maneiras de organizar relações de confiança. Essa é uma história de integração.

Samuel Benchimol e a transformação da experiência em pensamento

Algumas gerações depois daquela travessia, essa experiência amazônica produziria um de seus intérpretes mais importantes. Samuel Isaac Benchimol nasceu em Manaus em 1923. Professor, economista, pesquisador, empresário e líder comunitário, dedicou praticamente toda sua vida intelectual à pergunta que ainda nos acompanha: como desenvolver a Amazônia sem destruí-la e sem condenar seus habitantes à pobreza?

Sua resposta adquiriu uma simplicidade desconcertante. O desenvolvimento amazônico deveria ser economicamente viável, ecologicamente adequado, politicamente equilibrado e socialmente justo.

Samuel Benchimol no registro da revista Manchete
Samuel Benchimol

Quatro condições simultâneas. A importância dessa formulação talvez seja ainda maior hoje do que quando foi concebida. Samuel compreendeu que nenhuma variável poderia ser retirada da equação. A floresta sem o homem produziria uma conservação socialmente frágil. A economia sem ecologia consumiria o patrimônio que lhe dá sustentação. A justiça social sem atividade econômica permaneceria dependente. E nenhuma dessas dimensões sobreviveria sem equilíbrio político e institucional.

Estava ali uma espécie de algoritmo amazônico da sustentabilidade. Método, meta e oráculo. Samuel transformou a experiência histórica de adaptação em pensamento sobre desenvolvimento. E deixou uma pergunta para as gerações seguintes. Como atualizar aqueles quatro paradigmas quando o mundo muda?

Da sustentabilidade à regeneração

É nesse ponto que Denis Benchimol Minev começa a interessar particularmente a esta história. Não porque seja proprietário dessa tradição. Uma tradição com dois séculos de história não pertence a ninguém. Denis interessa porque sua atuação permite observar uma tentativa contemporânea de decodificação do pensamento do avô.

Os vocábulos mudaram. Bioeconomia. Empreendedorismo. Startups. Ciência aplicada. Economia regenerativa. Infraestrutura. Inteligência artificial. Cooperação internacional. Restauração produtiva. Por trás deles, entretanto, reaparece a mesma pergunta. Como criar prosperidade mantendo a Amazônia viva?

O interessante é observar onde essa busca está acontecendo.

Ela aparece na aproximação entre empresas e universidades; em iniciativas de empreendedorismo; na formação de redes com pesquisadores; na discussão sobre restauração produtiva; na conexão com centros internacionais de tecnologia; em iniciativas de conservação e conhecimento como o Museu da Amazônia; na tentativa de aproximar capital, ciência e problemas concretos da região.

Surge ainda uma característica que merece atenção especial. A cooperação. A complexidade amazônica parece ter convencido uma nova geração de atores de que ninguém possui sozinho conhecimento, recursos ou legitimidade suficientes para transformá-la.

Empresa precisa de ciência. Ciência precisa dialogar com sociedade e mercado. Empreendedor precisa de capital e mentoria. Tecnologia precisa compreender o território. Comunidades precisam participar das decisões que modificam suas vidas.

Estado, iniciativa privada e sociedade civil precisam aprender formas mais maduras de complementaridade. A utopia começa a adquirir a forma de uma rede.

Itacoatiara e uma pequena janela para o futuro

Talvez uma das imagens mais bonitas dessa transformação esteja hoje no segundo andar de uma loja da Bemol em Itacoatiara. Embaixo funciona o varejo. Em cima, jovens aprendem programação, engenharia de software, análise de dados e inteligência artificial. É o Talent Lab.

A escolha do interior é importante para compreender o experimento. Durante gerações, uma parcela dos jovens amazônicos precisou partir para crescer. O interior formava pessoas que posteriormente perdia para Manaus; Manaus, por sua vez, formava talentos que muitas vezes partiam para outras regiões.

A geografia econômica empurrava a inteligência para longe de sua origem. A conectividade começa a permitir outra equação.

Um jovem pode morar em Itacoatiara e trabalhar para uma organização localizada a milhares de quilômetros. Pode participar da economia mundial do conhecimento permanecendo às margens do Amazonas. O trabalho atravessa oceanos. O trabalhador permanece.

Há algo extraordinariamente coerente com a história que estamos contando. Dois séculos atrás, os rios permitiram que famílias judaicas estabelecidas no interior amazônico participassem de redes comerciais muito maiores que suas pequenas localidades.

Agora a fibra óptica e a computação fazem movimento semelhante com o conhecimento. Mudou a infraestrutura da conexão. Permaneceu a capacidade amazônica de construir redes.

E talvez esteja aqui uma atualização radical dos quatro paradigmas de Samuel Benchimol.

Um jovem trabalhando com ciência de dados em Itacoatiara gera atividade econômica, adquire conhecimento, permanece próximo de sua família, movimenta a economia local e reduz a pressão migratória sobre Manaus. Desenvolvimento econômico e desenvolvimento humano começam a conversar. A Terra Prometida reaparece, portanto, sob uma forma inesperada. Como oportunidade de permanecer.

Uma utopia sem proprietário

É preciso algum cuidado com a palavra utopia. Ela costuma sugerir um lugar inexistente. Aqui estamos usando-a em sentido diferente. Estamos procurando sinais de um lugar possível.

Eles aparecem em Itacoatiara, nas startups amazônicas, nos laboratórios, nas universidades, nas empresas, nos institutos de pesquisa, nas comunidades, nos projetos de restauração, nos empreendedores da bioeconomia e nas articulações internacionais. Não formam ainda um sistema perfeitamente coordenado.

Talvez jamais formem. Sociedades vivas avançam também por experimentação, divergência, tentativa e correção. O que começa a aparecer é uma direção compartilhada. Uma Amazônia capaz de produzir conhecimento, prosperidade e conservação ao mesmo tempo.

É importante que essa construção permaneça aberta. A Terra Prometida amazônica não pode ter proprietários. Precisa de participantes. Judeus e não judeus. Povos indígenas e comunidades tradicionais. Cientistas e empresários. Trabalhadores e empreendedores. Universidade e indústria. Poder público e sociedade civil. Jovens do interior e pesquisadores dos grandes centros mundiais.

A própria história judaica na Amazônia oferece uma lição sobre isso. Pertencer não exigiu permanecer igual. Foi necessário dialogar com o lugar. A identidade sobreviveu justamente porque soube estabelecer relações, adaptar-se, criar vínculos e compartilhar destinos.

O encontro do dia 28 e a história que ainda está sendo escrita

É com esse espírito que deveríamos chegar ao encontro do próximo dia 28. Para celebrar memória, certamente.

Para reconhecer uma contribuição histórica que merece ser mais conhecida pelo Brasil. Mas também para conversar sobre aquilo que ainda podemos construir juntos.

O Brasil Amazônia Agora pretende acompanhar essa conversa com particular interesse porque reconhece nela algo profundamente ligado à sua própria razão de existir: encontrar caminhos de desenvolvimento capazes de reconciliar economia, ciência, sociedade e floresta.

Nosso papel pode ser ajudar a construir uma cartografia dessa Amazônia emergente. Identificar experiências. Conectar pessoas. Organizar conhecimento. Comparar soluções. Antecipar agendas. Dar visibilidade ao que funciona.

E manter abertas as pontes entre mundos que ainda conversam menos do que deveriam. Talvez seja essa a contribuição mais fiel que podemos oferecer à tradição que Samuel Benchimol ajudou a sistematizar. Não transformar seu pensamento em monumento. Usá-lo.

Submetê-lo aos problemas contemporâneos. Atualizá-lo com ciência. Testá-lo na economia. Confrontá-lo com as necessidades das comunidades. Colocá-lo em diálogo com jovens que programam computadores em Itacoatiara e com pesquisadores que procuram respostas para alguns dos maiores problemas ambientais do planeta.

A história começou muito antes de nós. Com famílias que atravessaram o Atlântico e depois penetraram os rios amazônicos procurando liberdade e possibilidade. A viagem continua. A antiga Terra Prometida ofereceu acolhimento. A nova dedicou-se a oferecer oportunidades.

E a melhor homenagem aos que chegaram seja ajudar aqueles que nasceram aqui a construir uma Amazônia da qual já não precisem partir para encontrar futuro.

Abertura da Exposição

“Judeus na Amazônia” a Manaus, no Instituto Cultural Brasil – Estados Unidos (ICBEU) no dia 28 de agosto, às 16h30.


A Coluna Follow-Up é publicada sob a responsabilidade do CIEAM às quartas, quintas e sextas-feiras, no Jornal do Comércio do Amazonas, com a coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor do portal  https://brasilamazoniaagora.com.br

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal Brasil Amazônia Agora

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