A Amazônia não é nossa como se diz, é dos que a roubam e matam

O último serviço prestado por Bruno Pereira e Dom Phillips a um Brasil que dá as costas ao outro Brasil

Mal e mal, Bolsonaro governa metade do país – ou tenta governar, cercado por auxiliares medíocres à sua imagem e semelhança e apoiado por marginais armados. A outra metade do país que corresponde à Amazônia, desistiu de governar faz tempo. Ou nunca quis. Entregou seu destino a Deus, na verdade a toda sorte de bandidos, nativos e internacionais.

O que era fato tornou-se notório com o desaparecimento do indigenista Bruno Pereira e do jornalista inglês Dom Phillips. E o que diz Bolsonaro desde que os dois foram vistos pela última vez a navegarem pelo Vale do Javari – Pereira como guia experiente de Phillips, correspondente no Brasil do jornal “The Gardian” a coletar informações para escrever um livro sobre a Amazônia?

Por duas vezes, Bolsonaro os chamou de aventureiros, culpando-os pelo crime de viajar sozinhos em área tão perigosa. Nove dias depois, disse que foram vítimas de “alguma maldade” e que dificilmente estão vivos. Empatia significa pôr-se no lugar do outro. O máximo da empatia demonstrada por Bolsonaro foi dizer que lamenta e que uma coisa dessas acontece em qualquer parte.

O sindicalista Chico Mendes foi assassinado durante o governo Sarney. Lula era presidente quando mataram a missionária defensora dos sem terra Dorothy Stang. Não se pode pôr na conta de Sarney e de Lula as duas mortes. Na conta de Jair Bolsonaro pode-se pôr parte da culpa pela morte de Pereira e de Phillips. Nenhum presidente estimulou tanto quanto ele a degradação da Amazônia.

2 Bruno Pereira e Dom Philips Photo by Victoria Jones PA Images via Getty Images 1
Photo by Victoria Jones/PA Images via Getty Images

Quem hoje administra a Amazônia é um condomínio de grupos criminosos – narcotraficantes, traficantes da biodiversidade e de animais, garimpeiros ilegais, invasores de terras indígenas, contrabandistas de madeira e de metais preciosos, predadores e destruidores da floresta. Aquela é uma terra de ninguém onde se formou um Estado paralelo na ausência do Estado oficial.

Só em 2020, segundo a Controladoria-geral da União, registrou-se 41 casos de afastamento e aposentadorias de servidores de órgãos ambientais. No primeiro trimestre deste ano, a Amazônia perdeu 941 km2 de cobertura vegetal, batendo o recorde de 797 km2 nos primeiros três meses de 2020. O desmatamento se aproxima do ponto a partir do qual a floresta não conseguirá mais se regenerar.

É o que do alto se vê. Ao rés-do-chão, a realidade atroz de uma população abandonada às margens da maior bacia hidrográfica do planeta ou escondida sob a copa das árvores só chama a atenção do mundo quando algo de tão brutal acontece. Esse foi, infelizmente, o último serviço prestado por Pereira e Phillips à Amazônia, a mais contundente denúncia que eles poderiam ter feito.

Os militares proclamam há décadas que a Amazônia é nossa e que outros países querem tomá-la. Para as dimensões da região, a presença militar, ali, é mínima e quase inócua. O Comando Militar da Amazônia é um posto de passagem para oficiais que mais tarde são promovidos e vão servir em outros locais. Exército, Marinha e Aeronáutica são forças essencialmente litorâneas há séculos.

Quem de fato conhece a Amazônia são seus habitantes, entre eles os índios, os pastores evangélicos e os padres cuja única arma é a palavra. Em outubro de 2019, primeiro ano do desgoverno Bolsonaro, ao abrir no Vaticano o Sínodo da Amazônia, o Papa Francisco alertou para a “perigosa situação” da região e disse que a emergência ambiental está “intimamente ligada à crise social”.

Bolsonaro e os bolsonaristas detestaram a iniciativa e a fala do Papa. Francisco foi acusado de ser comunista. Há poucas semanas, Francisco promoveu a cardeal o atual arcebispo de Manaus, dom Leonardo Ulrich Steiner, ex-bispo auxiliar de Brasília. O cardeal da floresta dará muito trabalho aos indiferentes ao que se passa na Amazônia e aos que só querem se apoderar das suas riquezas.

Fonte: Metrópoles

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

Artigos Relacionados

Idesam transforma 20 anos de atuação na Amazônia em manual para equipes de campo

Idesam reúne 20 anos de atuação na Amazônia em manual para fortalecer diálogo, escuta ativa e segurança jurídica com comunidades.

Desmatamento na Amazônia cai 35% e atinge menor área em 20 anos 

Desmatamento na Amazônia atinge a menor área para junho em 20 anos, com queda de 35% nos alertas registrados pelo Inpe.

El Niño tem 81% de chance de chegar a nível “muito forte” em 2026

El Niño pode atingir intensidade muito forte no fim de 2026, alerta NOAA, elevando riscos de calor, tempestades e mudanças nas chuvas.

Amazônia, chips e soberania tecnológica

A história da Zona Franca sempre esteve associada à...

Quando a sustentabilidade deixa de ser discurso e passa a ser preparo

"A recorrência de eventos extremos na Amazônia transformou a...