PPB, o Processo Produtivo do Brasil

Na semana passada, depois de denunciar aos quatro cantos do reinado federal a imoralidade do PPB, o Processo Produtivo Básico que autoriza a indústria a produzir o item solicitado – uma excrescência constitucional nociva aos empregos e ao desenvolvimento regional – o Cieam (Centro da Indústria do Estado do Amazonas), reuniu-se com o Secretário de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação, do Ministério da Ciência, Tecnologia, Eron Bezerra. A fluidez do debate serviu para ver como funciona ou porque não funciona a ação pública. Com base em dados objetivos, e em nome do aparato legal, depois de três reuniões de esclarecimento, com pressão e vontade política, o gargalo, nas promessas do ator público, foi equacionado. Haviam 11 processos pendentes dos quais 7 foram onerados e 4 sob análise e liberação iminente. Doravante, os prazos serão cumpridos, as instâncias de recursos estabelecidas e os PPBs podem até ser formulados indutivamente, para atrair novos empreendimentos. A esperar e torcer pelo melhor dos mundos. O que aconteceu? Pressão política, cobrança das entidades idades, o momento crítico do poder central? Talvez tudo num só pacote de flexibilização e percepção da crise generalizada em que enfiaram o país.

De acordo com os dados da Confederação Nacional da Indústria, o Amazonas é o 22º Estado brasileiro em número de empresas instaladas. Fica à frente apenas de Sergipe, Tocantins, Acre, Amapá e Roraima. Do total de 519.624, 50% das unidades empresariais do Brasil ficam no Sudeste, apenas 0,64% ou 3.302 empresas, estão localizadas no Amazonas. Caem por terra as insinuações de que, sem o embargo do PPB, todas as empresas desembarcariam na ZFM. A classe política e empresarial parecem cultivar um diálogo de surdos. Quem sabe falte às entidades da indústria a exigência de contrapartida em face de suas métricas, contextos, direitos e implicações das demandas e gargalos de seus associados. Aos poucos esse imperativo da informação e sistematização dos dados se impõem. É importante que as empresas sejam atentas ao volume que recolhem e tenham clareza e firmeza na cobrança de suas necessidades e expectativas para poder fazer bem e a contento seu papel.

Desde sempre, empresas instaladas no polo industrial alertam de todas as maneiras que burocracia e custos logísticos portuários são alguns dos gargalos mais cruciais à competitividade do modelo. A isso se agrega desde há muito a buraqueira onerosa e inaceitável das ruas do Distrito Industrial. São gargalos facilmente contornáveis a luz das robustas contribuições das indústrias ao poder público municipal, estadual e federal. Nos dados de 2015, segundo fontes oficiais dos três entes federativos, impostos rotineiros à parte, foram recolhidos mais de R$ 3 bilhões nos diversos fundos e taxas. São recursos suficientes para, com menos de 10% deste volume, a construção de um porto público, a comunicação de dados e voz em padrões civilizados, e recuperar as vias do polo industrial e de quebra flexibilizar a burocracia, tirando-lhe o papel sinistro de fim em si mesma, e colocando-a a serviço de onde a sociedade retira o pão de cada dia. É insano tratar com tanto desdém quem promove as condições materiais de sobrevivência do tecido social. E é nesse critério e patamar que deve ser aplaudida a auditoria judicial dos bens públicos confiscados, objeto de operações da polícia e da justiça. Nos últimos anos, sem oferta decente de energia, comunicação e transporte, a despeita de suas generosas contribuições, o modelo ZFM entrou em processo galopante de desindustrialização, na proporção direta da proximidade política entre os atores locais e federais, onde as obras de vulto, com prioridade questionável, serviram de oportunidades sombrias de contravenção. A movimentação popular nas ruas e praças do país fala por si mesma e é eloquente na determinação da mudança pacífica, democrática, institucional e inadiável de começar a construção de um novo país, um PPB definitivo, um Processo de Produção do Brasil, mais decente, mais justo e coerente com sua vocação de modernidade e prosperidade geral.

Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo, escritor e editor-geral do portal Brasil Amazônia Agora

Artigos Relacionados

Dom Pedro II: a escola que ensina o passado e cobra o futuro

Com mais de 150 anos, colégio histórico Dom Pedro...

ANOTAÇÕES PARA O NOVO LUSTRO DA ECONOMIA BRASILEIRA: 2026 A 2030 -A GRANDE TRANSFORMAÇÃO – Parte VIII

Economia brasileira pressionada por sistemas empresariais mal estruturados, crescimento...

Congresso acelera debate sobre mineração em terras indígenas após decisão do STF

Decisão judicial expõe disputa entre interesses econômicos, direitos indígenas...

Entre impostos , dívidas e apostas, a renda encurta 

“O Brasil entrou em uma fase curiosa e preocupante...