Ambientalistas veem na vitória de Lula espaço para fortalecer políticas de conservação e exigem maior articulação do governo para enfrentar pressões sobre a legislação ambiental.
A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições de 2026 foi recebida por organizações ambientais e indígenas como uma oportunidade de preservar políticas socioambientais e fortalecer a democracia. As manifestações, porém, vieram acompanhadas de cobranças: avançar na demarcação de terras indígenas e transformar compromissos climáticos em ações efetivas estão entre as prioridades apontadas para o mandato que começa em 2027.
Reeleito no domingo (25), após derrotar Flávio Bolsonaro (PL), Lula chegará ao quarto mandato presidencial. Para as entidades, o resultado mantém possibilidades de diálogo com o Executivo, enquanto a composição do Congresso exige maior articulação política e mobilização social para impedir retrocessos ambientais.
Congresso concentra alertas
O Observatório do Clima avalia que a eleição afastou uma ameaça imediata às políticas ambientais, mas não assegurou sua proteção nos próximos quatro anos. “É hora de celebrar coletivamente a resiliência do regime democrático, mas também de enxergar com realismo a situação do país”, afirmou a nota.
No texto, a rede recorda perdas legislativas durante o atual governo, como mudanças nas regras de agrotóxicos e no licenciamento ambiental. A cobrança recai também sobre a capacidade do Planalto de enfrentar essa agenda. “É fundamental que o Executivo reforce sua atuação no Parlamento e amplie alianças”, afirma a coordenação do Observatório.
O WWF-Brasil considera que a reeleição abre espaço para aprimorar políticas públicas e aproximar desenvolvimento econômico e conservação. A entidade alerta, contudo, para a influência de setores favoráveis à redução das salvaguardas ambientais na próxima legislatura. Defende, por isso, articulação política consistente e participação da sociedade civil na proteção dos direitos socioambientais.
Greenpeace cobra transição energética justa
Para o Greenpeace Brasil, a mobilização popular foi determinante para o resultado. Em nota publicada em 25 de outubro, a diretora executiva Carolina Pasquali destacou a participação da juventude e atribuiu importância internacional à continuidade dos compromissos brasileiros com a Amazônia e o enfrentamento das mudanças climáticas.
“Esse resultado é a prova de que o poder está com as pessoas quando elas se organizam e lutam”, afirmou. A organização sustenta que essa participação precisará continuar diante do crescimento da extrema-direita no Congresso e da presença de parlamentares que classifica como negacionistas e antiambientalistas. O Greenpeace também afirma que acompanhará o governo e cobrará avanços concretos na agenda socioambiental e na transição energética justa, com espaços democráticos de participação.
Povos indígenas exigem demarcações
Entre as organizações indígenas, a celebração do resultado reforça a disposição de manter a pressão sobre o governo. Em manifestação assinada pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e organizações regionais, o movimento associa a vitória à resistência em defesa dos territórios e dos direitos originários.
“Seguiremos mobilizados, cobrando a demarcação das terras indígenas, a garantia dos nossos direitos originários e o respeito à autonomia dos nossos povos”, afirma o texto.
A nota reúne também a Articulação dos Povos Indígenas da Região Sul, a Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo, a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) e o Conselho do Povo Terena.
A Coiab destacou a participação indígena nas urnas dos nove estados da Amazônia Brasileira, apesar das adversidades do processo eleitoral. A organização justificou o apoio à continuidade de Lula pela possibilidade de diálogo e pela defesa dos direitos constitucionais, com ênfase na continuidade das demarcações.
Marcivana Sateré-Mawé, coordenadora-geral da Coordenação das Organizações Indígenas de Manaus e Entorno (Copime), também atribuiu papel central à mobilização popular. Em publicação nas redes sociais, afirmou que “a vitória de Lula é a vitória da juventude brasileira que foi às ruas em defesa da Democracia e pela Soberania nacional”.
A mensagem das organizações indígenas combina comemoração e continuidade das reivindicações. Como sintetiza a manifestação da Apib: “A democracia venceu, mas a nossa luta continua!”