Quatro vezes Lula, uma esperança que atravessa fronteiras

Há uma alegria que pertence às ruas brasileiras e uma esperança que começa a percorrer outros lugares. A eleição de Luiz Inácio Lula da Silva para um quarto mandato reúne essas duas dimensões. Nas primeiras horas depois da votação, parte importante da imprensa internacional reconheceu no resultado uma consequência que ultrapassa a trajetória do presidente e as fronteiras do país. O Brasil voltou a despertar interesse pela capacidade de sua sociedade de mobilizar-se em defesa de um caminho democrático. (lemonde.fr, time.com)

É desse compromisso que nasce nossa celebração. Celebramos o direito de escolher, de participar, de discordar e de continuar disputando o futuro dentro de regras que protejam a todos. Celebramos a possibilidade de um país enfrentar suas desigualdades com liberdade, de reconhecer suas diferenças sem transformar parte de seus habitantes em inimigos e de oferecer aos mais necessitados um lugar efetivo nas decisões públicas.

A legitimidade conquistada nas urnas traz consigo a responsabilidade de governar também para quem votou de outra maneira. A vitória democrática ganha profundidade quando preserva os direitos da oposição, acolhe a fiscalização da imprensa e aceita os limites institucionais do poder. Esse compromisso deve acompanhar cada medida do novo mandato.

A repercussão mundial ajuda a compreender o alcance dessa responsabilidade. O francês Le Monde associou o resultado à defesa da democracia, da soberania, da Amazônia e da justiça social. O espanhol El País identificou um alívio para os partidários do multilateralismo e destacou a disposição de Lula para manter canais de negociação mesmo em relações atravessadas por divergências. São leituras que aproximam a escolha brasileira de uma preocupação internacional com as condições de convivência entre países. (lemonde.fr, elpais.com)

Nos Estados Unidos, o Washington Post destacou que o resultado brasileiro contrariou o avanço regional da direita alinhada a Trump. (washingtonpost.com) A revista Time apresentou a quarta vitória como um acontecimento histórico e observou que ela retira do presidente norte-americano a possibilidade de contar com mais um aliado político na América Latina. (time.com)

A Associated Press acrescentou um elemento fundamental para os próximos passos. Ao analisar o Brasil como contrapeso às ambições de Washington, a agência também identificou interesses que favorecem a cooperação entre os dois governos. Há espaço para negociar, mesmo quando os projetos políticos divergem. (apnews.com)

Essas reportagens têm enfoques próprios e não representam uma adesão uniforme a Lula. Sua importância para este manifesto está em reconhecerem as consequências internacionais da escolha brasileira. A partir delas, afirmamos uma posição nossa. Desejamos que a autonomia do Brasil contribua para relações mais saudáveis com os Estados Unidos e para o fortalecimento da vida democrática nos dois países.

O povo norte-americano tem lugar nesse desejo. Sua diversidade, suas universidades, sua produção científica e cultural, suas organizações civis e sua imprensa fazem parte de uma sociedade com a qual temos muito a compartilhar. Queremos ampliar essas relações e vê-las florescer em condições de reciprocidade, com benefícios para trabalhadores, estudantes, pesquisadores e comunidades de ambos os países.

Desejamos aos Estados Unidos a renovação de seus compromissos democráticos, o fortalecimento das garantias civis, o respeito aos resultados eleitorais e a preservação de instituições capazes de limitar abusos. Esse processo pertence aos cidadãos norte-americanos. A experiência brasileira pode oferecer estímulo ao debate, assim como nós podemos aprender com suas lutas por direitos e com sua capacidade de contestar injustiças.

quatro vezes lula

Uma relação construtiva entre Brasil e Estados Unidos deve sobreviver às diferenças entre seus governos. Podemos cooperar em saúde, educação, energia, ciência e enfrentamento do crime organizado, com respeito às leis e à soberania de cada país. Podemos negociar divergências comerciais sem transformar populações em instrumentos de pressão política. Podemos construir compromissos ambientais que produzam conhecimento, investimentos e oportunidades dos dois lados.

Esse horizonte se estende às relações com a Europa, a China, a África, a América Latina e os demais parceiros. O multilateralismo exige paciência, capacidade de escuta e instituições em que os países menores também tenham voz. Seu valor aparece quando permite administrar conflitos, repartir responsabilidades e buscar soluções que nenhum governo conseguiria alcançar sozinho.

A defesa desses princípios precisa ser coerente. A soberania, a integridade territorial, os direitos humanos e a proteção de civis merecem o mesmo compromisso diante de aliados e adversários. Essa coerência dará credibilidade à contribuição brasileira para a paz e permitirá que nossa diplomacia seja respeitada inclusive por quem discorda de suas posições.

Da Amazônia, acompanhamos esse horizonte com necessidades muito concretas. A cooperação entre nações deve chegar à pesquisa científica, à proteção dos territórios, ao saneamento, à saúde e às oportunidades de trabalho. Queremos que os jovens possam construir sua vida na região, que o conhecimento produzido aqui encontre condições de prosperar e que as comunidades participem das decisões sobre o lugar onde vivem.

É também por essas pessoas que a democracia precisa produzir resultados. Quem espera atendimento, quem atravessa a infância sem aprender e quem não tem alimento suficiente precisa encontrar prioridade no orçamento e na ação pública. A confiança construída numa eleição será renovada no cotidiano, pela capacidade de ouvir, corrigir erros e cumprir compromissos.

É com esse espírito que desejamos ao Brasil um novo período de realizações e aos Estados Unidos o fortalecimento de sua democracia. Queremos que nossos países possam trabalhar juntos, com a liberdade de discordar e a maturidade de encontrar acordos. Que a confiança depositada nas urnas se prolongue em instituições respeitadas, em vidas mais dignas e em relações internacionais nas quais cada povo possa reconhecer seu direito de participar.

Nossa esperança é que esta vitória ajude a ampliar, dentro e fora do Brasil, as condições para viver com liberdade, reduzir as desigualdades e construir a paz por meio da cooperação.

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

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