Aquecimento do Pacífico Equatorial reforça a previsão de El Niño muito forte, com risco de estiagens na Amazônia, enchentes no Sul e calor persistente no país.
A probabilidade de ocorrência de um El Niño muito forte entre outubro e dezembro subiu para 95%, segundo atualização divulgada nesta quinta-feira (13) pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA). Em julho, a estimativa da agência norte-americana para o mesmo período era de 81%.
Entre novembro e janeiro, período que abrange o fim da primavera e o início do verão no Hemisfério Sul, a chance de o fenômeno permanecer muito intenso é de 90%. Os modelos climáticos também indicam uma probabilidade de 69% de que o episódio esteja entre os mais fortes registrados desde 1950.
A revisão das projeções acompanha a rápida elevação da temperatura das águas do Pacífico Equatorial. Em julho, a anomalia semanal na região conhecida como Niño 3.4, uma das principais referências para o monitoramento do fenômeno, estava em 1,2°C acima da média. Na atualização de 10 de agosto, o índice já havia alcançado 1,8°C.
Embora esse patamar seja associado por institutos meteorológicos a um evento de forte intensidade, a evolução do El Niño não depende apenas da temperatura do oceano. Para que o fenômeno se consolide e ganhe força, o aquecimento precisa provocar mudanças persistentes na circulação atmosférica. As projeções de um El Niño muito forte reforçam a necessidade de acompanhar tanto a temperatura do Pacífico quanto a resposta da atmosfera nos próximos meses.
Fenômeno altera chuvas e temperaturas
El Niño e La Niña são fases opostas do El Niño-Oscilação Sul (ENOS), um sistema climático natural que interfere nas condições meteorológicas de várias partes do planeta. O El Niño ocorre quando as águas superficiais do Pacífico Equatorial permanecem pelo menos 0,5°C acima da média.
Os episódios costumam acontecer em intervalos de dois a sete anos e duram, em média, cerca de 12 meses. O aquecimento do oceano modifica a circulação dos ventos, influencia a formação de chuvas e altera as temperaturas em diferentes continentes. Imagens produzidas com dados do satélite Sentinel-6 Michael Freilich em 3 de agosto mostraram mudanças no nível do Pacífico associadas ao desenvolvimento do fenômeno.
Efeitos do El Niño no Brasil
No Brasil, os efeitos variam conforme a região e a época do ano. No Sul, o fenômeno costuma favorecer volumes maiores de chuva, elevando o risco de temporais, enchentes e outros eventos extremos.
No Norte e em áreas do Nordeste, a tendência histórica é de redução das precipitações. Esse cenário pode prolongar estiagens, afetar a disponibilidade de água e aumentar a vulnerabilidade da vegetação ao fogo.
Sudeste e Centro-Oeste podem registrar chuvas mais irregulares, mudanças na passagem de frentes frias e períodos prolongados de calor. A maior frequência de ondas de calor está entre os principais impactos previstos para a primavera e o verão. A possibilidade de um El Niño muito forte também aumenta a preocupação com a ocorrência simultânea de diferentes extremos climáticos no país.
Aquecimento global amplia riscos
O El Niño é parte da variabilidade natural do clima, mas ocorre atualmente sobre uma base de temperaturas globais e oceânicas mais elevadas. Essa combinação pode intensificar secas, enchentes e ondas de calor, inclusive durante episódios classificados como moderados.
O fenômeno também contribui temporariamente para elevar a temperatura média do planeta. Entretanto, cientistas ressaltam que o aquecimento global provocado pela concentração de gases de efeito estufa continua sendo o principal fator por trás da tendência de longo prazo.
Com os oceanos mais quentes do que a média histórica e o fenômeno em fortalecimento, os próximos meses poderão apresentar temperaturas elevadas e maior risco de extremos climáticos em diferentes regiões do Brasil e do mundo.