Pesquisa transforma a queratina da lã de ovelha em membranas resistentes que orientam o crescimento ósseo e podem ampliar as opções da medicina regenerativa.
Pesquisadores do King’s College London desenvolveram um biomaterial feito com lã de ovelha capaz de auxiliar na recuperação de lesões ósseas. Testada em ratos, a estrutura produzida com queratina favoreceu a formação de um tecido organizado, com características próximas às de ossos naturais.
A queratina é uma proteína estrutural encontrada na lã, nos cabelos e nas unhas. Para o estudo, os cientistas extraíram a substância e produziram membranas quimicamente modificadas para aumentar sua estabilidade e resistência durante a cicatrização.
Em uma primeira etapa, o material foi colocado em contato com células ósseas humanas em laboratório. Além de aderirem e se multiplicarem sobre as membranas, as células apresentaram indicadores associados à formação saudável de tecido ósseo.
Material foi implantado em lesões que não cicatrizariam sozinhas
Na fase seguinte, os pesquisadores implantaram as membranas em ratos com defeitos no crânio grandes o suficiente para não se regenerarem sozinhas. A recuperação foi acompanhada durante várias semanas e comparada à obtida com membranas de colágeno, atualmente consideradas referência em aplicações médicas e odontológicas regenerativas.
Essas estruturas funcionam como barreiras protetoras: impedem que tecidos moles ocupem a região lesionada e preservam o espaço necessário para o crescimento do novo osso. Os testes mostraram que o colágeno proporcionou a formação de uma quantidade maior de tecido ósseo. A queratina, entretanto, deu origem a fibras mais alinhadas e a uma estrutura mais organizada e integrada à área ao redor, semelhante à encontrada em ossos saudáveis.
As membranas produzidas com queratina também permaneceram estáveis ao longo da cicatrização. Essa característica pode ser importante em tratamentos de regiões submetidas a peso ou pressão, já que o colágeno apresenta baixa resistência e, em alguns casos, degrada-se antes que a recuperação esteja concluída.
Lã de ovelha pode ganhar aplicação médica
Além do desempenho observado nos testes, a matéria-prima oferece vantagens ambientais e produtivas. O material é renovável, está disponível em grande escala e frequentemente é descartado como resíduo pela atividade agropecuária. Seu aproveitamento poderia reduzir desperdícios e fornecer uma alternativa à extração de colágeno, considerada complexa e dispendiosa.
Segundo o pesquisador Sherif Elsharkawy, o experimento demonstra pela primeira vez, em um organismo vivo, a capacidade de um material derivado da lã de ovelha de contribuir para o reparo ósseo. “Os resultados mostram que a queratina pode favorecer a regeneração óssea em um sistema biológico vivo, aproximando significativamente a tecnologia de sua aplicação em pacientes reais”. Para a equipe, os resultados colocam a queratina como uma possível nova categoria de biomaterial regenerativo.
A tecnologia, porém, ainda não está disponível para pacientes. Embora os testes em animais representem um avanço em relação às avaliações laboratoriais, serão necessários novos estudos para confirmar a segurança, a eficácia e o comportamento do material no organismo humano.