Mais uma vez fomos alvo dos habituais ataques da maledicência ou da ignorância . Em vez de revisitar antigos argumentos sobre a Zona Franca de Manaus, a floresta ou os impasses da região, Nelson Azevedo prefere priorizar o que vem pela frente. Como transformar unidade em projeto? Como fazer da diversidade uma força econômica? Como adensar a indústria, diversificar a produção e levar oportunidades para além da capital? Que papel cabe à ciência, à inovação, ao comércio, aos serviços e às lideranças amazônicas nessa construção? Confira a entrevista
1. Nelson, por que “chegou a hora de cuidar de nós”? Não cuidávamos antes?
Nelson Azevedo: Durante muito tempo nossa preocupação foi convencer o Brasil de que a Amazônia importa. E ela importa mesmo. Mas percebemos que, enquanto explicávamos quem somos para os outros, deixávamos de discutir entre nós o que queremos ser. Chegou a hora de fazer as duas coisas ao mesmo tempo.
2. Quando o senhor fala em “nós”, quem está incluído nessa conversa?
Nelson Azevedo: Todo mundo. A indústria, o comércio, o setor de serviços, a academia, os povos indígenas, os ribeirinhos, os produtores rurais, os governos e a sociedade. A Amazônia não cabe dentro de um único setor. Se cada um continuar falando apenas para si, continuaremos desperdiçando oportunidades.
3. O senhor acredita que a Amazônia ainda funciona como um conjunto de ilhas?
Nelson Azevedo: Infelizmente, sim. Temos excelentes instituições, pesquisadores, empresas e lideranças. Mas ainda trabalhamos pouco em rede. O desenvolvimento acontece quando essas competências começam a conversar entre si.
4. Então o maior desafio já não é apenas produzir riqueza?
Nelson Azevedo: Exatamente. É produzir riqueza com distribuição de oportunidades. O crescimento precisa alcançar mais pessoas e mais municípios.
5. Isso explica sua defesa da interiorização do desenvolvimento?
Nelson Azevedo:Sem dúvida. Não existe Amazônia forte com um interior frágil. Manaus continuará sendo um grande polo industrial, mas precisamos fazer com que conhecimento, inovação, investimentos e oportunidades circulem por toda a região.
6. Muita gente fala em diversificar a economia. O senhor prefere falar em adensamento produtivo. Qual é a diferença?
Nelson Azevedo: Diversificar é importante. Mas adensar significa fortalecer o que já fazemos bem. Produzir mais componentes aqui. Desenvolver fornecedores locais. Agregar tecnologia. Fazer pesquisa. Industrializar mais etapas da cadeia produtiva. Isso gera empregos melhores e aumenta nossa competitividade.
7. Então não basta atrair novas fábricas?
Nelson Azevedo: Não. Precisamos construir um ecossistema industrial mais completo. Quanto mais cadeias produtivas estiverem conectadas dentro da Amazônia, maior será nossa capacidade de crescer de forma sustentável.
7. E onde entra a bioeconomia nessa história?
Nelson Azevedo: Ela amplia esse horizonte. A indústria da floresta pode caminhar junto com a indústria instalada. Não existe conflito obrigatório entre elas. Existe complementaridade.
8. Há quem coloque a indústria de um lado e a floresta do outro. O senhor concorda?
Nelson Azevedo: Nunca concordei. A experiência da Zona Franca mostra justamente o contrário. Produzir emprego e renda em Manaus ajudou a reduzir pressões sobre grande parte da floresta. Agora precisamos ampliar essa lógica para novas atividades econômicas.
9. O senhor fala muito em unidade na diversidade. O que isso significa na prática?
Nelson Azevedo: Significa compreender que a Amazônia é diversa demais para caber numa única fórmula. Cada município tem vocações próprias. O importante é que todos façam parte de um mesmo projeto regional.
10. Esse projeto regional já existe?
Nelson Azevedo: Existem muitas iniciativas importantes. O que ainda falta é conectá-las. A Amazônia precisa pensar mais como sistema e menos como projetos isolados.
11. O senhor costuma dizer que conhecimento também é infraestrutura. Por quê?
Nelson Azevedo: Porque nenhuma região se desenvolve apenas com estradas, portos ou energia. Hoje também precisamos de universidades fortes, centros de pesquisa, inovação tecnológica e formação de pessoas.
12. O senhor acredita que a indústria pode liderar esse movimento?
Nelson Azevedo: Ela pode ajudar muito. Mas não fará isso sozinha. Desenvolvimento é sempre uma construção coletiva.
13. Se pudesse deixar uma mensagem para os jovens amazônidas, qual seria?
Nelson Azevedo: Não esperem que alguém venha desenhar o futuro da Amazônia. Esse futuro será construído por quem vive aqui, conhece seus desafios e acredita em suas potencialidades.
14. E, para terminar, cuidar de nós significa olhar para dentro ou fechar as portas para o restante do Brasil?
Nelson Azevedo: Muito pelo contrário. Quem conhece melhor a si mesmo dialoga melhor com os outros. Queremos uma Amazônia integrada ao Brasil e ao mundo, mas consciente do seu próprio valor, da sua diversidade e da responsabilidade que tem na construção de um desenvolvimento capaz de gerar prosperidade para quem vive aqui.