“A Amazônia aprendeu a construir fábricas antes de aprender a construir ecossistemas de conhecimento. Essa diferença ajuda a explicar por que tantos investimentos produziram crescimento econômico sem gerar, na mesma velocidade, inteligência institucional”
A visita técnica da Superintendência da Zona Franca de Manaus ao Tribunal de Contas do Estado do Amazonas propicia uma reflexão inédita sobre novos benefícios para a sociedade. A partir dela, o TCE deixa de ser apenas um órgão de controle, a Suframa deixa de ser apenas uma política industrial, e o Capda deixa de ser apenas um comitê técnico. Os três passam – num movimento de interatividade criativa – a atuar como peças de um mesmo sistema de produção de inteligência para a Amazônia.
À primeira vista, tratou-se do processo de credenciamento do Instituto de Ciências, Estudos Avançados e Sustentabilidade (ICEAS) junto ao Comitê das Atividades de Pesquisa e Desenvolvimento na Amazônia (Capda). Um procedimento administrativo necessário para habilitar o Tribunal a desenvolver projetos de pesquisa, inovação e inteligência artificial com recursos da Lei de Informática.
Mas reduzir esse encontro à sua dimensão burocrática seria deixar escapar o significado histórico que ele pode assumir.
Durante décadas, o desenvolvimento amazônico foi pensado quase exclusivamente sob a ótica da produção. Produzir mais, exportar mais, atrair investimentos, ampliar a capacidade industrial. Essa estratégia foi decisiva para consolidar a Zona Franca de Manaus como um dos mais importantes instrumentos de desenvolvimento regional do Brasil.
O século XXI, entretanto, nos permite acrescenta uma nova variável.
As sociedades mais competitivas já não disputam apenas capacidade produtiva. Disputam capacidade de aprender, interpretar informações, tomar decisões mais rápidas e transformar dados em inteligência.
Essa mudança altera também o papel das instituições públicas. Os tribunais de contas deixam de ser vistos apenas como órgãos fiscalizadores do gasto público. Passam a integrar uma infraestrutura estratégica de produção de conhecimento para o Estado.
- Controlar contas continua sendo sua missão constitucional.
- Controlar melhor significa compreender melhor.
E compreender melhor depende cada vez mais da ciência de dados, da inteligência artificial, da modelagem estatística e da pesquisa aplicada.
É nesse ponto que a aproximação entre o TCE-AM e a Suframa adquire uma dimensão que ultrapassa o interesse institucional. Ela aproxima dois patrimônios construídos ao longo de décadas.
De um lado, a experiência da Zona Franca em fomentar pesquisa, desenvolvimento tecnológico e inovação por meio da Lei de Informática. De outro, uma instituição responsável por acompanhar a qualidade das políticas públicas e cuja atuação influencia diretamente saúde, educação, infraestrutura, meio ambiente, planejamento e investimentos.
Quando esses dois universos dialogam, abre-se espaço para uma nova geração de políticas públicas.
Projetos como o AMAZONIA e o Em Campo mostram que a inteligência artificial já deixou de ser uma promessa distante. Ela começa a integrar a rotina do controle externo, permitindo análises mais precisas, identificação de padrões, redução de desperdícios e maior capacidade de antecipar riscos.
Esse movimento interessa ao Tribunal. Interessa à Suframa. Interessa às universidades. Interessa às empresas. Mas interessa, sobretudo, ao cidadão.
A boa governança deixou de depender apenas de bons gestores. Ela depende também da qualidade dos sistemas que apoiam suas decisões. Isso significa uma das maiores transformações institucionais em curso.
Durante muito tempo imaginou-se que inovação era assunto restrito aos laboratórios ou às linhas de produção. Hoje ela atravessa toda a administração pública.
A inteligência artificial começa a reorganizar a forma como governos planejam, monitoram resultados e avaliam políticas públicas. A Amazônia reúne condições singulares para participar dessa transformação.
A experiência acumulada pela Zona Franca em pesquisa e desenvolvimento, o crescimento das instituições científicas regionais, a expansão dos ecossistemas de inovação e o amadurecimento das instituições de controle formam um conjunto raro de competências.
O credenciamento do ICEAS junto ao Capda representa mais um passo nessa movimentação. Ele amplia as possibilidades de cooperação entre Tribunal, universidades, centros tecnológicos, fundações e empresas, fortalecendo uma rede de produção de conhecimento voltada para os desafios amazônicos.
Estamos, pois, diante de uma mudança de paradigma. Durante décadas discutimos como produzir riqueza na Amazônia. Agora começamos a discutir como produzir inteligência para orientar essa riqueza. Essa diferença é sutil. Mas ela pode definir o desenvolvimento da região nas próximas décadas.