Ao justificar o tarifaço contra o Brasil, o governo Trump citou falhas ambientais e comerciais, mas o Ministério do Meio Ambiente rejeitou as acusações.
O governo dos Estados Unidos confirmou uma tarifa adicional de 25% sobre parte dos produtos brasileiros, com início previsto para 22 de julho de 2026. O tarifaço contra o Brasil foi anunciado após uma investigação do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), que reuniu críticas às políticas econômicas, jurídicas, tecnológicas e ambientais do país.
A medida foi adotada com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, instrumento que permite aos Estados Unidos aplicar sanções em resposta a práticas consideradas prejudiciais às empresas e aos exportadores norte-americanos. Apesar da sobretaxa, uma lista de produtos brasileiros foi excluída da cobrança adicional.
Entre os argumentos apresentados, o USTR afirmou que o Banco Central teria favorecido o PIX em detrimento de empresas norte-americanas de pagamentos eletrônicos. Segundo o órgão, o modelo brasileiro colocaria provedores estrangeiros em desvantagem no mercado nacional.
Decisões do Supremo Tribunal Federal contra plataformas digitais também foram incluídas na investigação. O governo Trump citou restrições aplicadas ao X e ao Rumble, determinadas após o descumprimento de ordens judiciais brasileiras, como obstáculos ao chamado comércio digital.
O USTR ainda relacionou a tarifa ao desempenho do Brasil em indicadores internacionais de percepção da corrupção. O órgão mencionou a pontuação brasileira no levantamento da Transparência Internacional para sustentar críticas à atuação do país no combate ao suborno e a irregularidades institucionais.
No campo comercial, os Estados Unidos acusaram o Brasil de adotar políticas tarifárias desfavoráveis aos produtos norte-americanos e de oferecer proteção insuficiente à propriedade intelectual. O etanol também entrou na lista: o governo Trump afirmou que o país abandonou um tratamento considerado equilibrado para o combustível importado dos EUA.
Desmatamento entra na disputa comercial
A questão ambiental foi usada como uma das justificativas para o tarifaço contra o Brasil. O USTR alegou que falhas na aplicação das leis brasileiras contra o desmatamento ilegal permitiriam a entrada de madeira irregular no mercado internacional, prejudicando a competitividade da indústria madeireira norte-americana.
O órgão divulgou dados sobre a perda de florestas no Brasil entre 2001 e 2018, mas, segundo as informações apresentadas, não indicou a fonte do levantamento. Para o governo dos Estados Unidos, a fiscalização insuficiente criaria vantagens comerciais indevidas aos produtores brasileiros.
O secretário-executivo do Ministério do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, rejeitou as acusações e afirmou que o governo norte-americano utilizou informações distorcidas. “Os argumentos utilizados pelo governo norte-americano para justificar as tarifas são absolutamente improcedentes, não tem nenhum fundamento técnico, não está baseado em nenhuma informação comprovável”, afirmou Capobianco.
Segundo ele, a madeira exportada pelo Brasil é certificada e submetida a controle desde a origem até o embarque. As cargas são acompanhadas por sistemas de rastreabilidade e fiscalizadas por técnicos do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e da Receita Federal. Capobianco também destacou a redução recente dos alertas de desmatamento e afirmou que os dados ambientais do país foram usados de forma inadequada para sustentar uma decisão de caráter comercial e político.
Governo brasileiro promete reação
O governo Lula classificou o tarifaço contra o Brasil como injusto, politicamente motivado e sem fundamento econômico. Em nota, a gestão brasileira chamou a decisão de um marco negativo nas relações bilaterais e informou que poderá recorrer à Lei da Reciprocidade Econômica para responder à medida. A nova sobretaxa amplia os atritos entre Brasil e Estados Unidos ao reunir, em uma mesma disputa, temas como comércio exterior, regulação de plataformas digitais, política ambiental, pagamentos eletrônicos e relações diplomáticas.